Chocolates Falchi – o primeiro chocolate fabricado em São Paulo

Pioneirismo! 

Essa é a melhor definição para a mais tradicional marca de chocolate que existiu na cidade de São Paulo. 

Criada em 1885, a empresa Chocolates Falchi era a realização do sonho de três irmãos cujo sangue corria o empreendedorismo: Panfilio, Emidio e Bernardino Falchi. Imigrantes italianos da região Toscana (uma outra parte da família era da Campânia), os Falchi foram um dos mais importantes sobrenomes para o crescimento industrial, comercial, habitacional e esportivo da capital paulista.

Na imagem, Panfilio, Emidio e Bernardino – três irmãos empreendedores

Vivendo em São Paulo desde 1873, os irmãos Falchi desenvolveram muitas atividades, além de participarem da fundação da Câmara de Comércio Italiana, da fundação do Banco Ítalo-Brasileiro e de serem acionistas da Companhia Paulista de Combustíveis.

Trabalhando com importação de gêneros alimentícios para serem revendidos em São Paulo, os irmãos resolveram fabricar por conta própria alguns produtos. Dessa maneira, os chocolates foram escolhidos em primeiro lugar para serem fabricados em terras paulistas. A Rua Brigadeiro Tobias, na região de Santa Ifigênia, foi escolhida para abrigar a sede da fábrica de chocolates e lá foram instaladas as máquinas para sua produção.

O empreendimento rendeu muito mais que os irmãos Falchi esperavam. Com pouco tempo de existência veio uma proposta dos irmãos italianos Angelo e Fortunato Giannini para entrarem como sócios no negócio. Com a sociedade feita, a empresa passou a se chamar Chocolates Falchi & Giannini, onde além dos chocolates em barra, também eram fabricados bombons, confetes, caramelos embalados e gomas de mascar.

Em 1890 os irmãos Falchi, com auxílio do financista Serafim Corso, compraram uma gleba de terras que ficava entre os bairros da Mooca e do Ipiranga. Com isso, instalaram a primeira indústria nesta nova região para realizarem a moagem de açúcar, pimenta e canela.

Primórdios da Falchi na futura Vila Prudente na última década do Século XIX

O novo local também recebeu as máquinas para fabricação dos chocolates. Dessa maneira, os Falchi acabaram vendendo alguns lotes do amplo terreno para seus funcionários, que começaram a construir suas casas próximas da fábrica. Foi assim que nasceu a Vila Prudente. O nome do bairro foi escolhido pelos próprios irmãos Falchi em uma homenagem a Prudente de Moraes, então governador do estado de São Paulo, e que viria ser presidente da república de 1894 a 1898.

Raro desenho da Vila Prudente ilustrada por Umberto Della Latta artista que nas primeiras décadas do Século XX era o grande responsável pelas ilustrações publicitárias da Falchi e Lacta

De tudo que era fabricado na Vila Prudente, sem dúvida os chocolates eram o carro chefe. Os Falchi compravam os melhores cacaus provenientes da Bahia e de Pernambuco para serem processados e transformados em sua indústria. 

Foi em 1900 que a empresa teve outra mudança: os irmãos Gianinni saíram da sociedade e entraram dois primos: Giuseppe Falchi e Menotti Falchi (que eram irmãos). Com isso a empresa conseguiu participar da sua primeira feira internacional em Turim. A qualidade tão boa dos chocolates Falchi rendeu uma medalha de ouro durante a feira em terras italianas.

A fábrica e demais instalações, sendo que ao fundo está a Villeta Falchi, chalé onde a família residiu na Vila Prudente

Em 1904 a família Falchi incorpora um novo sócio. Trata-se do empresário Fidelis Papini, então a empresa passa a se chamar Chocolates Falchi & Papini. Nessa mesma época os Falchi também começaram a importação e revenda de bebidas finas e licores.

As propagandas

Cheias de inteligência e com grande qualidade artística, as propagandas dos Chocolates Falchi foram uma das sensações na primeira metade do século XX. Muitas delas traziam poemas que ficavam na memória dos consumidores. Suas campanhas publicitárias estiveram presentes em várias publicações, como a saudosa revista A Cigarra e também no rádio.

Na galeria abaixo você confere algumas dessas famosas – e saudosas – propagandas:

A EVOLUÇÃO DA FALCHI AO LONGO DO SÉCULO XX:

Em novo processo de crescimento a partir de 1912, a empresa dispunha de 25 representantes espalhados em todo o Brasil para vender os famosos chocolates. O período da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi de muito destaque nos negócios, já que os outros estados do país não conseguiam importar chocolates da Europa devido o conflito armado.

Em todo o Brasil as grandes lojas e casas que vendiam produtos alimentícios comercializavam os Chocolates Falchi. O sucesso foi tanto que a partir da década de 1920 os chocolates começaram a ser vendidos também no Uruguai e na Argentina. 

Embalagem do chocolate “Antonio Prado” comercializado nos anos 1920 (clique para ampliar)

Para termos uma ideia do sucesso e da qualidade dos chocolates produzidos pelos irmãos Falchi e seus sócios, eles receberam várias premiações em exposições e feiras internacionais: Medalha de Ouro nas exposições de Turim em 1898; São Paulo em 1902; Saint Louis (EUA) em 1904; Milão em 1906; Rio de Janeiro em 1909; e São Paulo em 1916. Premiada também nas exposições do Rio de Janeiro em 1908 e de Turim em 1911.

O escritório administrativo das empresas Falchi era localizado à Rua Florêncio de Abreu entre os anos de 1885 e 1905. Depois passou pelas ruas 25 de Janeiro, Boa Vista e Líbero Badaró. Já a fábrica de Chocolates Falchi, como citamos a cima, começou na Rua Brigadeiro Tobias, região da Santa Ifigênia. Depois de um pequeno período na Vila Prudente, ela passou para a Avenida Tiradentes próxima à Estação da Luz.

Departamento de vendas e caixa da Falchi em 1917

DÉCADAS DE 1920, 1930 E 1940:

Com a morte de Menotti Falchi em 1922, na cidade de Firenze, e o retorno de Bernardino Falchi para a Itália na mesma época, os Chocolates Falchi tiveram em sua composição societária dois membros da família Crespi. Adriano e Dino Crespi, filhos do conde Rodolfo Crespi, famoso pelo Cotonifício Crespi no bairro da Mooca.

Durante as décadas de 1930 e 1940 a empresa manteve a liderança nas vendas de chocolate em São Paulo, mesmo com a concorrência de outras marcas famosas como a Sönksen, Lacta e Pan.

Na foto funcionárias embalam manualmente os Chocolates Falchi

DÉCADAS DE 1950, 1960 E 1970:

Não sabemos ao certo o ano em que os em fundadores e sócios mais antigos morreram (já citamos acima que Menotti Falchi faleceu em 1922). Achamos uma notícia do ano de 1957, no jornal Estado de São Paulo, onde é anunciada a morte de Emidio Falchi, com sua missa de sétimo dia sendo realizada em dos salões do colégio São Luis. Na década de 1950 os Chocolates Falchi tinham como seu maior acionista e proprietário Hélio Falchi.

Então veio a década de 1960 e uma oferta da Lacta para adquirir a maior porcentagem das ações dos Chocolates Falchi. A proposta foi aceita pelos sócios e dessa maneira o controle da empresa mudou de mãos.

Setor de embalagens da Chocolates Falchi

Alguns anos depois a Lacta, presidida por Adhemar de Barros Filho, acabou revendendo as ações para os empresários José Clibas de Oliveira e Silva e José Clibas de Oliveira e Silva Filho. Na tentativa de expandir os negócios, Clibas Filho (que pertencia à Sociedade Brasileira de Cacau) adquiriu novos maquinários e também comprou a marca Chocolates Sönksen e concentrou a fabricação das duas marcas, a partir de 1975, na zona sul de São Paulo.

Mas a nova administração não conseguiu sucesso. As outras marcas existentes como Nestlé, Pan, Garoto e a própria Lacta possuíam melhores redes de distribuição e acabaram ocupando o espaço tanto da Falchi como da Sönksen.

Muitos dos produtos Falchi eram vendidos em lindas latas como esta da imagem.

ANOS 1980 E O FIM DA FALCHI:

Os chocolates Falchi deixaram de existir oficialmente em 1983, quando a marca foi acionada judicialmente por vários fornecedores que a acusavam de falta de pagamento dos compromissos assumidos. Nesta fase final, os Chocolates Falchi e os Chocolates Sönksen tinham seu endereço na zona sul da capital paulista e seu fim foi traumático. 

A Justiça de São Paulo ordenou que o maquinário da empresa fosse confiscado para o pagamento das dívidas.  Os funcionários tentaram impedir o confisco e, de acordo com o jornal Estado de São Paulo, um grande incêndio aconteceu no galpão da fábrica. Peter Schone, um dos novos acionistas à época, declarou ao jornal que foram os próprios funcionários que iniciaram o incêndio no departamento de embalagens, pois tinham medo que com o maquinário confiscado eles não receberiam mais seus salários.

SOBRE OS FALCHI:

Emidio Falchi – foi fundador e conselheiro da Câmara de Comércio Italiana; tesoureiro e presidente da “Bolsa de Negócios” (que futuramente viria a ser conhecida como Junta Comercial de São Paulo); primeiro membro da família a ser homenageado pela (à época) monarquia italiana com o título de “Cavaliere”. Deixou a sociedade na fábrica de chocolates em julho de 1904 para se dedicar às outras atividades comerciais. Sua parte foi adquirida em definitivo pelo primo Giuseppe Falchi. Emidio Falchi foi um dos pioneiros beneméritos da fundação do Palestra Itália (atual Palmeiras) e principal doador do dinheiro para a construção, na Vila Prudente, da Igreja de Santo Emídio. Seu próprio nome era uma homenagem ao santo romano protetor da população em caso de terremotos.

Panfilio Falchi – além de empresário, especializou-se nas leis brasileiras e paulistas e era o principal nome da na execução e acompanhamento dos contratos quando a família começou sua vida empresarial.

Menotti Falchi – outro membro da família Falchi de destaque foi o também “cavaliere” Menotti Falchi. Primo dos fundadores, nascido em Firenze no ano de 1879, Menotti Falchi marcou época em São Paulo. Viveu aqui de 1900 até 1921, quando voltou para a Itália com sua esposa e filho, e veio a falecer em fevereiro de 1922. Entre tudo que ele fez enquanto viveu na capital paulista podemos listar:

– Primeiro cidadão a receber a carta de motorista (1904) 
– Presidente do Clube Espéria em 1903/1905 e 1918/1919 
– Presidente do Circolo Italiano 1912 a 1917
– Presidente do Palestra Itália (Sociedade Esportiva Palmeiras) em 1919/1920
– Doador e dos fundadores do Colégio Dante Alighieri
– Doador e um dos fundadores do Hospital Umberto I

Lateral da fábrica da Falchi (sem data)

Notas:

* 1 – Hélio Falchi, último da família a presidir a empresa, nasceu em São Paulo no ano de 1923 e era filho de Giuseppe Falchi, irmão de Menotti Falchi. Faleceu em 2010.
* 2 – Com o avanço financeiro, os irmãos Falchi também começaram a investir em outras frentes de empreendedorismo. Destaca-se a sociedade com os irmãos franceses Antoine, Henry e Ernest Sacoman, onde os Falchi abriram uma fábrica de azulejos e pisos. Em 1910 os irmãos Sacoman deixam a sociedade para criarem a própria fábrica que acabou dando origem a outro bairro paulistano: o Sacomã.

Bibliografia consultada:

Os Italianos e o Brasil – Edição da Fanfulla
Do Outro lado do Atlântico – Trento, Ângelo
Álbum – O Estado de S.Paulo (1918) – Monte Domecq & Cia – pp 330 e 331

Colaboraram para esta pesquisa:

José Cláudio Falchi – Arquiteto e descendente da família Falchi
Fernando Razzo Galuppo – Jornalista e historiador
José Vignoli – Pesquisador, palestrante e educador financeiro

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11 respostas

  1. Excelente matéria, deu saudade desta marca de chocolate que meus pais chegaram a comprar quando moramos no Rio antes de nos mudamos pra Campinas. Para uma empresa familiar durou bastante. Sobre os Falchi, que você apontou um ramo na Toscana e outro na Campania, são dois estados geograficamente opostos: o primeiro é ao noroeste e o outro ao sudeste.

  2. Boa noite, Marcelo!
    A informação que a família possuía membros na Toscana e na Campania foi dada por um dos descendentes!

  3. Belíssimo texto. Essa última foto faz parte da minha memória de criança. Era visível a quem passasse no pontilhão da rua Florêncio de Abreu sobre os trilhos da estrada de ferro. E realmente o chocolate era muito bom. Acho que devo muito a eles, pois minha filha nasceu no Humberto I, minha esposa trabalhou mais de 40 anos do Dante, meus três filhos estudaram lá, a família da minha sogra viveu sempre na Vila Prudente e vai por aí. Já no que diz respeito à parte esportiva, os conflitos existiram, pois desde o meu nascimento, frequentei o Tietê e tínhamos no Espéria, depois Floresta, um grande rival.

  4. Que delícia puxar memórias que foram substituídas por outras mas atualizadas. Bem legal essa matéria mostrando fatos desconhecidos par a maioria. Saber de empresários que acreditaram no BR !!

  5. Um dos Falchi também fez sociedade com Francesco Matarazzo em uma casa bancária, juntamente com um da família Gamba, dos Grandes Moinhos Gamba. Vou apurar.

  6. Ótimo registro….Viajei para minha infância, ao ler a matéria, quando ganhava ovos de Páscoa do m/pai, sempre como fiel cliente dos Chocolates Falchi e Sonksen. Inesquecíveis! Interessante, a breve vida de Menotti (43 anos) e com tantas conquistas, hem

  7. Ótimo texto, muito bem construído. Muito bom também o trabalho com as fontes e a disponibilização da bibliografia, mostrando o cuidado do autor em seu trabalho de pesquisa.

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