A história dos bombeiros e do combate ao incêndio em São Paulo

Hoje em dia quando ocorre um incêndio em uma grande cidade como São Paulo o combate é rápido e eficiente. Basicamente você pega um telefone e disca 193 faz o reporte da ocorrência para que as providências sejam tomadas. Mas você já parou para pensar como era o combate aos incêndios há 100 ou 150 anos atrás ?

Voltando à metade do Século XIX a capital paulista era completamente diferente desta cidade que estamos acostumados a ver hoje em dia. Pequena e com poucos habitantes, era natural que as ocorrências de sinistros como incêndios eram raros. Mas aconteciam.

Rua Direita em 1862 (Foto: Militão Augusto de Azevedo)

Um dos mais antigos relatos de incêndio em São Paulo é do ano de 1850, ocorrido em uma residência da então Rua do Rosário, atualmente conhecida como Rua 15 de Novembro. Naquele tempo não existiam ainda leis e nem mesmo um corpo de bombeiros definido, sendo que a maneira de apagar fogo era organizada de uma maneira simples, mas razoavelmente eficaz: homens, mulheres e crianças ficavam em fila até o poço mais próximo do sinistro, onde era retirada a água utilizada para o combate. Desta maneira baldes iam passando de mão em mão até chegar no local em chamas.

Este incêndio que mencionei acima serviu para que a câmara municipal aprovasse as primeiras normas relativas ao combate de incêndio, no ano de 1851. Não eram lá grande coisa, mas permitiam uma maior organização em novas ocorrências. Foram adquiridas duas bombas que uma vez compradas ficaram sem uso até 1862, data que ocorreria então um novo incêndio na cidade.

Em uma cidade que era relativamente pequena e tranquila as ocorrências de incêndio eram proporcionalmente raras. Novas ocorrências surgiriam em 1870 e 1877, até que esta última ocorrência levou a criação em 1878 de novas normas de alerta e combate em uma técnica nova e eficaz: Os sinais de incêndio.

As freguesias (bairros) de São Paulo à época passaram a adotar um sistema de sinais de incêndio baseados nos sinos das igrejas. Eram toques, rebates e repiques em código que alertavam munícipes e autoridades das ocorrências de fogo nas proximidades. Além disso a norma determinava que durante a noite os carroceiros deveriam manter as pipas cheias d’água para não se perder tempo de enchê-las em caso de ocorrência. E os donos de poços também eram obrigados por lei a liberar o acesso para captação da água caso fosse necessário.

Esses sinais de incêndio foram os primeiros passos para que mais tarde, em 1880, fosse criado oficialmente em São Paulo a Seção de Bombeiros, inicialmente composta de 20 homens. A lei publicada era a seguinte:

Lei de 10/3/1880:

Artigo 1º – Fica o governo da província autorizado a organizar desde já uma Secção de Bombeiros, anexa à Cia de Urbanos da capital e a fazer aquisição de maquinismo próprio para a extinção de incêndios.
Artigo 2º – Para essa despesa, é o governo autorizado a abrir um crédito de 20:000$00, revogadas as disposições em contrário.

Obs: mantidas as grafias da época

Observem que a “Secção de Bombeiros” foi organizada anexa à então “Cia de Urbanos da Capital”. Esta companhia de urbanos era a corporação policial da época, dai a razão da origem dos Bombeiros de São Paulo ser militar, ao contrário de outras cidades e estados brasileiros, como o Rio de Janeiro, onde a origem é civil.

E é nesse momento já no ocaso do Brasil Império que a cidade de São Paulo começa a crescer e se desenvolver mais rapidamente e com isso novos incêndios começam a surgir na cidade, como esse em 1882:

Desde aquele incêndio reportado em 1850 até este acima de 1882 três décadas se passaram. A cidade era bem maior e mais freguesias surgiram. Para o combate rápido era necessário um sistema de alerta ainda maior, mas ainda não existia em São Paulo aquela modernidade que logo mudaria rapidamente as comunicações: o telefone.

A telefonia na capital paulista só chegaria no ano de 1884, então o poder público da época ampliou os sinais de incêndio, criando em 1883 uma tabela a ser seguida pelas igrejas da capital:

A tabela acima publicava uma série de regras a serem seguidas pelas paróquias dos bairros quando na ocorrência de incêndio. Para facilitar a identificação do alerta as badaladas eram feitas não por qualquer igreja do bairro afetado, mas por aquela que mais próxima estivesse do foco de incêndio. Era rudimentar, mas eficiente.

No decorrer desta mesma década de 1880 o serviço de bombeiros da cidade foi sendo cada vez mais ampliado e aprimorado, com a compra de novas mangueiras, bombas e até carros à vapor. Foi nessa mesma década, precisamente em 1887, que os bombeiros se desmembram da Central de Urbanos, passando a ter sua própria sede na então Rua do Trem, atual Anita Garibaldi. Até hoje o Corpo de Bombeiros tem sua base ali, sendo ela a mais antiga unidade de São Paulo, localizada ao lado da Praça da Sé.

Na fotografia acima, carruagem dos Bombeiros de São Paulo. Esses veículos movidos a tração animal foram utilizados até os primeiros anos do Século XX (clique para ampliar)

Com a chegada do telefone em São Paulo era questão de tempo para que esse serviço fosse substituindo paulatinamente os sinais de sinos de igreja. A companhia telefônica da época instalou entre os anos de 1880 e 1900 cerca de cinquenta aparelhos para agilizar a notificação das ocorrências. Eram caixas de ferro posicionadas em locais específicos da cidade de onde oficiais ou civis treinados treinados pela corporação poderiam fazer o relato de incêndio com comunicação direta com a central.

As imagens abaixo são de uma dessas caixas de comunicação, que existiam espalhadas na cidade. No total a rede tinha cerca de 70 quilômetros de extensão.

A CHEGADA DOS VEÍCULOS MOTORIZADOS:

Conforme você já viu em uma fotografia neste artigo. A primeira frota de veículos dos bombeiros de São Paulo eram totalmente movidos a tração animal. Aliás os animais eram presentes em todos os serviços de locomoção dentro da cidade, excetuando-se o ferroviário, tendo cavalos e burros à frente de bondes, carruagens e tilburis.

Os primeiros veículos motorizados do Corpo de Bombeiros de São Paulo foram adquiridos em 1910 e só chegariam às ruas paulistanas em 1911. Eles vieram da Inglaterra e eram da marca Merrryweather & Sons, sendo um total de seis, dos quais eram veículos pipas e do tipo magirus. Juntamente com eles chegaram à capital paulista uma série de novidades no combate a incêndios, como uma nova central de incêndios, novas baterias, novas caixas de comunicação e alarmes oriundos dos Estados Unidos, da fabricante Gamewell.

Veículo à época denominado de “auto-bomba” da marca Merrryweather & Sons e oficiais do Corpo de Bombeiros em apresentação pouco depois de sua chegada à São Paulo em 1911. (clique para ampliar)

Com a chegada de veículos motorizados o abandono da tração animal não foi imediato, sendo que estes só receberiam seu merecido descanso no ano de 1921, uma década depois.

A partir daí o Corpo de Bombeiros de São Paulo nunca mais parou de se expandir, sendo que em 1943 chegou ao interior do Estado de São Paulo, padronizando o serviço através da incorporação de equipes locais e treinamento de novos oficiais.

Atualmente o Corpo de Bombeiros segue como uma das instituições públicas mais respeitadas e admiradas pelos paulistas e conta com um efetivo de cerca de 8200 oficiais e 4200 viaturas.

A seguir apresentamos uma série de imagens históricas, boa parte delas inéditas, do Corpo de Bombeiros de São Paulo:

A ESTAÇÃO CENTRAL:

Em 1911 foi inaugurada a nova Estação Central de avisos de incêndio. As imagens abaixo mostram o imóvel por fora (foto 1) e por dentro, sendo que nas imagens internas você visualiza os aparelhos telefônicos e telegráficos e o quadro de distribuição elétrica (foto 2), por fim (foto 3) você observa os acumuladores elétricos que mantinham o serviço em pleno funcionamento.

Fachada da Estação Central de Avisos de Incêndio

A FROTA DE VEÍCULOS:

As imagens abaixo apresentam alguns dos veículos da frota do Corpo de Bombeiros de São Paulo entre 1911 e 1924.

Nas fotografias 1 e 2 veículos Merrryweather & Sons em movimento e bombeando água do Rio Tietê nas proximidades antiga Ponte Grande em demonstração pública ocorrida em 1911.

Nas fotografias 3, 4 e 5 você confere uma série de demonstração de uma nova frota de veículos de combate a incêndios do Corpo de Bombeiros de São Paulo no ano de 1924.

Foto 3 – Desfile no Largo do Palácio (atual Pátio do Colégio)
Foto 4 – Oficiais posam em veículo na sede da corporação na Rua Anita Garibaldi
Foto 5 – Demonstração do veículo com a auto-escada mecânica diante do Parque Trianon.

DEMONSTRAÇÃO DE OPERAÇÕES:

As imagens abaixo mostram algumas das operações do Corpo de Bombeiros em 1911. Destaque para a primeira imagem onde é apresentado para a população o já mencionado sistema de alarmes estadunidense Gamewell, que funcionou até meados dos anos 1950. Com uma das mãos no aparelho está o Dr. Moisés Marx, engenheiro do Corpo de Bombeiros. Clique na foto para ampliar.

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NOTAS:

*1 – Pipa é originalmente um recipiente bojudo de madeira utilizado para armazenar líquidos, muitas vezes vinho. No Século XIX em São Paulo muitas carroças carregavam pipas com água e com o tempo o nome foi repassado aos veículos de transporte de água, surgindo o termo “caminhão-pipa”.

*2 – Magirus é o nome de uma fabricante alemã de caminhões que em seu catálogo produzia caminhões para com escadas que eram também utilizadas em incêndios. Com o tempo popularizou-se no Brasil falar “escada magirus” mas o nome é uma marca. O termo correto da escada é “auto-escada mecânica”.

Desfile de oficiais e veículos do Corpo de Bombeiros na Praça da Sé em 1924

BIBLIOGRAFIA:

* O Indicador de São Paulo para o ano de 1878 – pp 233
* Correio Paulistano – Edição 7669 – 3/6/1882 – pp 2
* Correio Paulistano – Edição 7678 – 12/6/1882 – pp 2
* Correio Paulistano – Edição 11435 – 22/12/1894 – pp 4
* A Ilustração de S.Paulo – Edição 26 (1911) – pp 13, 15, 16, 17, 19, 20 e 21
* A Vida Moderna – Edição 481 (1924) – pp 22

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7 respostas

  1. A Estação Central de Avisos ainda existe(o prédio que parece uma igreja)? É a da rua Anita Garibaldi?

  2. Uma pesquisa muito bem elaborada desta instituição que todos respeitam- Os bombeiros.

  3. Parabéns pelo artigo, Douglas! Pesquisa bem ampla e um texto que agrega bastante conhecimento sobre o assunto. Na minha cidade temos o Museu do Telefone, com uma peça semelhante ao telefone apresentado na matéria. Servia para chamar os bombeiros, mas também tinha internamente no painel as inscrições “polícia ” e “carro de cadáver”, este último para acionar o chamado “rabecão”. Nosso museu vale uma visita, inclusive porque Bragança Paulista foi uma dss primeiras cidades do Estado a ter telefones. Abraços

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