Restaurante e Adega Transmontana

A Adega Transmontana, como era mais conhecida, foi um restaurante paulistano durante as décadas de 1940 a 1970. Famoso pelo seu bacalhau ao forno, era localizado num local central de São Paulo, na Avenida Prestes Maia 72 (antiga avenida Anhangabaú). Chamou-se de adega pois encontravam-se ali disponíveis os melhores vinhos do mundo na época.

O principal proprietário e na maior parte do tempo único, João Bento, era brasileiro e foi criado em Portugal. Sua história se confunde com a Adega Transmontana.

Vale do Anhangabau e, ao centro, o “Buraco do Adhemar”.

O pai de João Bento, José Alves, era da região de Sanhoane, Mogadouro, Trás os Montes. Sua mãe, Sância Bento, era natural de Travanca na mesma região. Elas já namoravam em Portugal, então ela veio ao Brasil e na mesma época José Alves veio ao encontro da namorada indo primeiro para a Argentina e de lá para São Paulo.

Aqui se casaram e tiveram dois filhos, Serafim Alves e João Bento, este segundo nascido a 10 março de 1916. Quando João Bento tinha 5 anos voltaram para Portugal, onde ganharam uma irmã, Lucinda Alves.

Aos 21 anos de idade, João Bento retornou ao Brasil para aqui tentar a sorte, trabalhando inicialmente na Light como condutor de bondes (os chamados motorneiros).

Na foto, João Bento com o traje de motorneiro da Light

Aqui conheceu aquela que seria sua esposa, Ricardina Meirinho, vindo a casar-se em 13 de setembro de 1941, tendo três filhos: José Alves Bento, Virgínia Alves Bento e Altino Alves Bento.

Então iniciou-se no comércio fundando o Restaurante e Adega Transmontana por volta de 1944 , na região central de São Paulo. Abaixo a foto do restaurante com a sua primeira equipe de trabalho, com João Bento junto aos garçons vestindo um terno claro:

clique na foto para ampliar

Nas imagens a seguir, o movimento do restaurante no jantar, em fotografia enviada para os parentes em Portugal e o que escreveu João Bento no verso:

Desde a inauguração do estabelecimento até o final de sua vida, João Bento sempre usou terno e gravata quando estava no restaurante, segundo ele uma forma de respeitar os clientes.

Na decada de 50 o glamour de São Paulo estava no centro onde se encontravam os artistas da época e a sede dos principais bancos, localizados na Rua Boa Vista, Libero Badaró e São Bento. As famílias de grandes posses também moravam em apartamentos luxuosos e confortáveis na Avenida São Luís.

No início dos anos 50 ocorreu um grande incêndio que consumiu todo o restaurante, o que levou a reconstruir todo o prédio com recursos próprios levando a hipotecar seus bens.

Foto da primeira reconstrução da nova Adega Transmontana, e o almoço de reinauguração (clique para ampliar)

Nos domingos as famílias que moravam no centro de São Paulo se reuniam em torno do almoço dominical no Restaurante e Adega Transmontana. Outros locais da região famosos eram o Restaurante “A Brasileira” (hoje Guanabara) na confluência da Avenida São João e Avenida Prestes Maia e Restaurante Leão na Avenida São João.

A Adega Transmontana tinha 3 portas, sendo a principal a entrada do próprio restaurante, em uma segunda funcionava uma frutaria, comandada pelos irmãos Rafael e Domingos de origem italiana (que aparecem na foto a seguir ao lado do proprietário do Restaurante e Adega Transmontana). Na outra porta funcionava uma tabacaria conhecida como tabacaria do Luisinho.

Do lado do restaurante havia uma casa de couros posteriormente comprada pelo proprietário da Adega Transmontana e transformado na Padaria Prestes Maia. O prédio vizinho do outro lado era a famosa Casa Santo Amaro, de frios, que sobreviveu até próximo dos anos 1970, posteriormente seu espaço vindo a ser alugado pelo proprietário da Adega Transmontana, inaugurando ali um açougue com o nome de Casa Rosada.

No final da década de 1940 e início de 1950, a Portuguesa de Desportos tinha sua sede na Rua São Bento. João Bento era torcedor fanático da Lusa e conselheiro do clube. Foi convidado pelo presidente da Portuguesa, seu amigo e médico particular Mario Augusto Isaias para participar do Conselho Orientação Fiscal (COF) da agremiação rubro-verde.

Na época se tornou sócio patrimonial remido, de número 84, pela contribuição para compra da área do futuro estádio do Canindé, então pertencendo ao São Paulo Futebol Clube, sendo hoje a sede atual da Portuguesa de Desportos.

Comumente almoçavam e jantavam por lá os jogadores: Brandãozinho, Djalma Santos, Muca, Ceci, Noronha, Júlio Botelho, Renato, Pinga, Nininho, Simão e outros que em 1952 se tornaram campeões do torneio Rio – São Paulo. Quem também frequentava era o famoso massagista Mario Américo que prestou serviços na Seleção Brasileira se tornando amigo de João Bento.

O próprio João Bento era quem preparava o famoso bacalhau ao forno, desde o corte das postas e seu dessalgamento, começando na quinta para seus clientes saboreá-lo na sexta, quando se formavam grandes filas de fregueses. Ele nunca forneceu a receita a ninguém.

Um ponto que João Bento não abria mão eram as toalhas brancas de algodão e guardanapos da mesma cor e material. Todas as louças do restaurante eram identificadas com o nome da casa como na foto abaixo:

João Bento abria o restaurante sempre às 4:30 da manhã e ia diariamente ao Mercado Municipal de São Paulo na Rua da Cantareira para efetuar as compras, fazia questão da escolha dos melhores produtos e era conhecido por quase todos os comerciantes do local. Fechava o restaurante por volta das 22 horas de segunda à domingo sempre com sua presença, nunca tirava férias.

A Adega Transmontana foi parte da história de São Paulo, ponto de encontro da elite paulistana, onde almoçavam os diretores dos principais bancos e muitos políticos como o então governador Adhemar de Barros.

No centro da foto o ex-governador paulista Adhemar de Barros (clique para ampliar)

Na década de 1960 para residir no Brasil os portugueses precisavam de uma carta de chamada, emitida por alguém que se responsabilizava pelo emprego destes imigrantes.

Como viveu em Trás os Montes e conhecendo muitos portugueses da região, o proprietário emitiu a chamada de vários transmontanos, alguns parentes como Ester Aragão, Daniel, Moreira e outros que se tornaram conhecidos, entre eles o sr. Mario, que posteriormente chamou o seu irmão Fernando que veio a ser o dono do famoso Armarinhos Fernando.

Na final da década de 1950 época de sucesso da Adega Transmontana, um cliente convidou João Bento para montar uma filial no largo do Arouche, onde a boemia começava a frequentar a região. No local havia música e cantores da época como Ângela Maria. Nas imagens abaixo você confere a inauguração desta filial:

No entanto João Bento não conseguia sozinho tocar os dois empreendimentos, apesar de sua dedicação. Depois de cerca de três anos acabou fechando a filial ficando somente com a matriz.

Em meados da década de 1960 um segundo incêndio voltou a consumir toda a Adega Transmontana, e novo trabalho para reconstruir o imóvel e o comercio. Com nova decoração a Adega ainda gozava de todo o prestigio dos anos 1950.

Na foto a reinauguração da Adega Transmontana após o incêndio.

Na década de 1970 inicia o declínio do centro de São Paulo com uma degradação muito grande da região, pela saída dos grandes bancos que se instalavam agora na Avenida Paulista. As famílias mudaram-se para bairros mais distantes e ocorreram as obras do Metrô, que dificultou o transito de pessoas, colocando-se tapumes na frente dos estabelecimentos para a construção da estação São Bento, praticamente fechando o acesso ao restaurante. Obras essas que demoraram anos para serem concluídas.

O restaurante passou a ter um balcão com banquinhos pois as refeições passaram a ser rápidas com as pessoas apressadas tomando somente um café, modificando totalmente o perfil dos usuários.

O estabelecimento já em meados dos anos 1970 (clique para ampliar)

Com o falecimento de seu proprietário em 1976 os três pontos de comércio foram vendidos (Adega, Casa de Carnes Rosada e Padaria Prestes Maia), sendo instalados no local pastelarias, terminando o ciclo da Adega Transmontana, ficando na memória dos que foram clientes e que hoje provavelmente nem mais estejam entre nós, além das fotos do estabelecimento.

O autor:

Altino Alves Bento – É formado em engenharia química e aposentado. Frequentava muito o centro de São Paulo e é apaixonado pela história de minha cidade.

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7 respostas

  1. Infelizmente não cheguei a conhecer a Adega.À época morava em Guarulhos e não frequentava o centro visto que trabalhava na Light da Penha. Voltei a morar em Sta. Cecília em 75 mas já não conheci o restaurante.Conheci o São Tomé na Av. Prestes Maia, antiga Av. da Luz e o Fuentes na R. do Seminário.Conheci tb. o Depósito Circular, com as escadas para o subsolo do Guanabara. Muito boa a postagem! Há chances de uma visita no Antigo cine Glória na R. do Gasômetro?Nele funcionou a Jamal de madeiras.

  2. Bem legal.
    Falando em Bacalhau, há um restaurante na região do Belenzinho aberto em 1962 que é especialista nesse prato. Li qualquer coisa de que são apenas 5 receitas, todas suculentas(e caras!).

  3. Uma história digna de São Paulo antiga. Os restaurantes faziam parte da vida paulistana. Muito bem pesquisado. Ótimo texto.

  4. Uma história que se confunde com a cidade de São Paulo – os restaurantes fizeram a vida paulistana. Muito bem escrito. Parabéns!

  5. Gostei da historia! Muito interessante o panorama da cidade e da vida do empresario (falecido com apenas 60 anos). Uma antiga placa no imovel do restaurante Guanabara ainda resiste e indica “Avenida Prestes Maia”. Fico com a impressao de que a decadencia se acentou nos anos recentes e a situacao ja nao era boa. Fecharam o Bovinus, a doceria Mathilde, o Correio Central nao abre mais aos sabados..

  6. Bonita história e trajetória da adega e restaurante com seu dedicado proprietário!

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