Residência de Eulálio da Costa

Quem caminha hoje em dia pela agitadíssima Rua Florêncio de Abreu na região central de São Paulo não imagina que essa via barulhenta, repleta de lojas de ferramentas e materiais técnicos já foi, antes de Campos Elíseos, Jardins ou Pacaembu o grande endereço nobre dos ricos paulistanos.

Por ali viviam médicos, políticos, capitalistas (como se chamavam os empresários naquela época), juristas e também fazendeiros do interior que fixavam residência em São Paulo para resolver negócios na capital ou mesmo aguardar um embarque para Santos antes de existir o bairro de Campos Elíseos.

Rua Florêncio de Abreu aproximadamente em 1900 – Endereço elegante de São Paulo

Passado tanto tempo deste período áureo, a Florêncio de Abreu ainda mantém em muitas de suas construções o charme daquela época e também de outras construções elegantes de um passado um pouco mais recente dos primeiros anos do Século XX, como a Casa da Bóia, o Palace Hotel ou ainda o Palacete Barros.

Entretanto ali também existe muita decadência, fruto de imóveis históricos que passam décadas negligenciados pelos seus proprietários sejam eles públicos ou privados.

E aqui vamos contar a história deste que é, possivelmente, o mais relevante imóvel sobrevivente desta rua e, sem dúvida, o mais abandonado:

Rua Florêncio de Abreu 217 a 223

Construído em 1892 para servir de residência ao médico Dr. Eulálio da Costa, a edificação que hoje vemos em ruínas e com certo de risco de desabamento teve muita relevância para a história de São Paulo, algo incompatível com a sua situação atual.

Eulálio da Costa residia no Largo do Arouche no final dos anos 1880 quando decidiu construir um imóvel mais amplo, onde pudesse dividir em uma única edificação a sua residência e o seu consultório que até aquele momento ficava no número 47 da Rua da Imperatriz. Para tanto, escolheu o engenheiro Luigi Pucci.

De origem italiana Pucci deu ao imóvel um ar elegante, moderno e sóbrio que destoou por completo das demais construções da Florêncio de Abreu. Dotado de três pavimentos, possuía também três entradas distintas, sendo uma com acesso direto ao terceiro pavimento, outra ao segundo e uma terceira, central, às instalações do piso térreo.

“O Dr. Eulálio da Costa encarregou Pucci do projeto e da construção de um prédio à Rua Florêncio de Abreu, que, juntamente com a Rua Brigadeiro Tobias, começava a abrigar as mais elegantes residências da cidade. O prédio que existe ainda totalmente, que data de 1891 segundo os documentos do Arquivo Histórico, notamos um cuidadoso estudo de proporções e uma sóbria elegância. No primeiro andar, em falsa passagem as portas com arquitrave são coroadas por frisos de flores e frutas característicos do século XV. O andar nobre com amplo balcão, e o terceiro andar, tipicamente neoclássicos, apresentam arcos com vários perfis e coluninhas coríntias bem harmonizadas com a austeridade da fachada.”

Trecho extraído do livro “Arquitetura Italiana em São Paulo” – mais detalhes na bibliografia ao final do artigo.

Anúncio do Dr. Eulálio da Costa em jornal paulistano datado de 1865

Por alguma razão que infelizmente é desconhecida Eulálio da Costa não residiu nem deu expediente por muito tempo neste imóvel, mudando-se para a Alameda Barão de Piracicaba, sendo que o mesmo foi comprado pela fazenda do Estado no ano de 1895 e adaptado para ser transformado na sede do Sede do Serviço Sanitário de São Paulo e Laboratório Farmacêutico do Estado.

Fotografia de 1905 já como Serviço Sanitário de São Paulo

A partir deste ano de 1895 servindo como repartição pública estadual, o edifício permanece nas mãos do governo até os dias atuais, apenas mudando de secretarias de acordo com as atribuições que lhe foram indicadas ao longo de mais de um século.

Abaixo duas imagens do interior do imóvel do ano de 1905, quando ali funcionava o Laboratório Farmacêutico do Estado:

clique na foto para ampliar

O uso como repartição da área de saúde é conhecido até as primeiras décadas do século XX, quando o imóvel ficou pequeno para o Serviço Sanitário de São Paulo e é criado na Rua Ipiranga (atual Avenida Ipiranga) o Almoxarifado do Serviço Sanitário.

É nesta época que o imóvel troca de função novamente e passa a funcionar como a 1a delegacia de polícia e como órgão policial permaneceu o restante de sua vida útil, sendo que no final da década de 1960 era também a sede da Polícia Feminina. Em 1963 um incêndio deixou o prédio um tanto avariado.

A polícia deixaria o prédio em 1970, ano em que começa a ser esvaziado o imóvel.

A DECADÊNCIA:

Com a desocupação do imóvel por parte da polícia, o imóvel começa a sofrer um longo e lento processo de deterioração e abandono que o acompanha até os dias atuais.

clique na foto para ampliar

Sem um destinação apropriada para o edifício ele cai no esquecimento do poder público que o mantém negligenciado. Mesmo assim é aberto um processo de tombamento como patrimônio histórico em 1991, que é aceito e concluído no ano seguinte pela resolução do CONPRESP nº 37/92.

Mesmo tombado o imóvel permanece sem qualquer tipo de intervenção visando a sua preservação, se transformando rapidamente em um edifício cada vez mais deteriorado, com o desabamento primeiro do telhado e posteriormente do piso do andar superior, ambos ocorridos após 2010.

Situação do imóvel inspira cuidados urgentes (clique na foto para ampliar)

Apesar de todo esse desprezo ao patrimônio histórico por parte do poder público o velho edifício sobrevive por conta da ótima estrutura de suas fundações e da construção, entretanto à medida que a deterioração aumenta a índices alarmantes torna-se cada vez mais possível o risco de um desabamento da fachada sobre a Rua Florêncio de Abreu o que poderá ocasionar um desastre inclusive com vítimas fatais.

PATRIMÔNIO À VENDA

Em 2 de julho de 2010 o então Governador do Estado de São Paulo, Alberto Goldman, assina o decreto 55.987 que novamente transfere o imóvel entre secretarias, saindo da então Secretaria de Desenvolvimento para a Secretaria de Transportes, com o objeto de recuperar o prédio e transformá-lo na sede do Departamento Hidroviário, repartição vinculada aquela secretaria.

O projeto, como tantos outros, não sai do papel e em 2013 o Governo do Estado de São Paulo decide colocar o imóvel à venda, pelo valor mínimo de R$ 3.025.000,00.

O imóvel destoa dos demais da Rua Florêncio de Abreu (clique na foto para ampliar)

Entre os interessados a oferta vencedora foi de Liu Chi Yun, que submeteu sua proposta com intervenção não apenas no interior da edifício como em toda a sua fachada, não levando em consideração o valor histórico do bem que pretendia adquirir. Em junho de 2015 seu projeto inicial é indeferido, porém em 14/06/2016 um novo projeto enviado por ele é deferido, mas ao que parece o interessado desistiu do edifício que permanece definhando nas mãos do governo paulista.

PROJETO CASA DO CHILE

Arte de como poderia ficar o imóvel com o projeto “Casa do Chile”

Em 2010, antes da proposta de venda mencionada acima, foi apresentado um excelente projeto de uso desta construção que daria uma nova vida – e de cunho cultural – ao edifício: A Casa do Chile.

Laureado pelo IAB SP em 2010 com o Prêmio Carlos Millan a ideia era transformar o espaço na casa da cultura chilena do centro de São Paulo. O projeto, que infelizmente não saiu do papel, pode ser visto na íntegra neste link.

MOVIMENTOS SUSPEITOS

Deixado em situação de total abandono a área da edificação histórica parece sofrer com atos de invasões pontuais por vizinhos sem qualquer iniciativa do poder público em coibir, punir ou ao menos investigar.

As imagens a seguir foram enviadas para nós por Luciana Bedeschi e mostram a remoção ilegal de árvores nos fundos da propriedade. A distância não é possível afirmar sem uma melhor averiguação se o corte é no terreno da velha delegacia ou não, contudo a impressão que se dá é de estar ocorrendo realmente dentro do lote público.

Comparativo antes e depois do corte das árvores (clique na foto para ampliar)

Fica a pergunta: Se é impossível acessar o imóvel pela entrada por conta da situação de ruínas que ele se encontra, qual vizinho permitiu a entrada deste pessoal para o corte de árvores ? O São Paulo Antiga contatou a Subprefeitura da Sé sobre o ocorrido e quais providências serão tomadas e iremos atualizar este espaço quando nos responderem.

Enquanto nada é feito para salvar este antigo imóvel do século XIX estamos assistindo seu trágico fim, fruto da negligência do governo paulista, que é tão exigente com os imóveis tombados particulares e tão displicente quando se trata dos seus.

VEJA MAIS FOTOS (clique na miniatura para ampliar):

NOTAS:
* 1 – Eulálio da Costa Carvalho (* 12/02/1833 + 01/04/1912) – Nascido e formado em Salvador (BA) era médico cirurgião e antes de atuar na capital paulista trabalhou na Paraíba e no Rio de Janeiro. Foi também médico do Exército Brasileiro. Em São Paulo além de atender em seu consultório particular foi membro da primeira diretoria do Serviço Sanitário de São Paulo e também chefe do Registro Geral de Hipotecas da Comarca de São Paulo. No campo pessoal foi pai do político Álvaro de Carvalho.

*2 – Nascido em Florença (ITA) em 1853, Luigi Pucci prestou relevantes serviços na cidade de São Paulo. Além do projeto da residência de Eulálio da Costa, fez parte da comissão de engenheiros responsável pelas obras do Museu Paulista e um de seus construtores.

Bibliografia consultada:
* O Ypiranga – Edição 055 – 24/11/1869 pp 4
* Correio Paulistano – Edição 17486 – 02/04/1912 pp 3
* Catálogo do Serviço Sanitário São Paulo, 1905
* Guia dos Telefones São Paulo para o ano 1961 pp 112
* Arquitetura Italiana em São Paulo – Salmoni, Anita e Debenedetti, Emma Editora Perspectiva – pp 49
* Resolução do Conpresp 37/92 pp 1, 3
* Italianos no Brasil – Cenni, Franco – Livraria Martins Fontes Editora – 1959 – pp 330, 331, 332
* Às Margens do Ipiranga – Exposição do Centenário do Museu Paulista – 1990 – pp 7
* Figeroa Arquitetura – Link visitado em 13/11/2020

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17 respostas

  1. Douglas, por que você considera que esse imóvel destoa, é diferente dos outros da rua? Em que, especificamente, ele difere? Bem ao lado, parede com parede, há uma construção bastante similar, não? Explique, por favor.

  2. Meu falecido pai foi socio de uma loja na Florencio, a antiga Casa Mabel. Na epoca, todos as portas de comercio eram quase que exclusivamente dedicadas ao comercio de Ferragens, isto na decada de 60.

    Agora noto que ha muitos comerciantes engagados na venda de quinquilharias baratas, o comercio de ferragens ja nao e tao predominante.

    No entanto….

    Com um pouco de abstracao mental, nao e dificil envisionar este logradouro, sobretudo a partir do Largo Sao Bento ate a Avenida Senador Queiroz, como um agradavel logradouro residencial com algum varejo alimenticio. Alguns predios, da decada de 60 e 70, destoam, porem nao ao ponto de comprometer a harmonia do conjunto de edificacoes ” turn of the Century” ou das decadas de 1900 ate 1930.

    A fachada em questao abriga um lote com formidavel profundidade. O que da de fundos para a Prestes Maia, o que compromete um pouco o potencial de aproveitamento.

  3. Não caberia uma denúncia contra o Estado diretamente ao Ministério Público encarregado dessa área, uma vez que o governo está sendo negligente com uma edificação tombada em franco desrespeito à lei do patrimônio?

  4. Enquanto o Estado estiver nas mãos deste Governo do PSDB, o Estado não anda. Lamentável.

  5. Adoro saber sobre a história dos imóveis mas pq o governo tomba um imóvel se ele é o primeiro a abandoná-lo? Por mais que eu goste eu não compraria um imóvel tombado exatamente por não ter ajuda do governo para restaurá-lo e mantê-lo! Isso é muito triste pois vemos a história ir por água abaixo! Bom dia!

  6. Nunca vou me conformar com o descaso do poder público com nosso património. Entea governo sai governo e é a mesma coisa. Deveria ser crime. Nunca mais poderiam ocupar um cargo. Que gente sem noção, sem conhecimento
    Só pensam em enriquecer. Enfim…

  7. A Rua Florêncio de Abreu era um brinco. Agora, os casarões antigos vão aos poucos caindo de abandono. Triste!

  8. Seria interessante se tivesse virado a “Casa do Chile”. Daria mais vida e cor na região, além de homenagear um país rico em história e cultura.
    Aí quando a histórica fachada cair e prejudicar as edificações vizinhas e fechar a rua, vão lamentar, fazer discursinhos e precisar gastar uma grana as vezes até maior do que pelo menos, poderia ser usado pra preservar a fachada.

  9. Será que o Dr Eulálio da Costa Carvalho é a mesma pessoa homenageada com seu nome em uma praça na Zona Leste de São Paulo na Vila Nova York, batizada como Praça Eulálio de Carvalho?

  10. Por um momento achei que era um imóvel que vi pelo Street View que fica bem de frente ao Palacete do Carmo (Rua Venceslau Brás), a arquitetura lembra um pouco…aliás você sabe a história daquele edifício ? Ele tem 3 pavimentos e fica colado ao Caixa Cultural.

    1. Nesse edifício, Sr. Henrique, colado ao da Caixa Econômica Federal (CEF), li em algum lugar que funcionou uma espécie de órgão previdenciário do funcionalismo público. Depois, pertenceu por décadas a CEF, abrigando alguns serviços do banco, até ser vendido há uns 3 ou 4 anos, encontrando-se em reforma atualmente.
      O que sei é que ele é anterior a 1939, ano em que foi inaugurado o prédio da Caixa Econômica, onde hoje funciona também a Caixa Cultural.

  11. É muito triste ver uma edificação tão linda como essa nesse estado de conservação, o governo pelo menos deveria tomar alguma providencia para restaurar a residência.

  12. Eulálio da Costa Carvalho foi meu trisavô. Ele foi pai do senador Álvaro Augusto da Costa Carvalho (conhecido como Álvaro de Carvalho) e de 8 filhas, entre elas minha bisavó Luísa Benvinda que casou com seu primo Afrodísio Vidigal. É o patriarca antepassado de todos os Vidigal de São Paulo e, tendo nascido em Salvador da Bahia, como médico do Exército, exerceu seu métier na Paraíba, onde era governador seu primo Antonio da Costa Pinto e Silva. Quando este mudou-se para Piracicaba e casou-se com a viúva do regente José da Costa Carvalho, tio de Eulálio, convidou o primo para vir para a já pujante cidade interiorana onde foi diretor de hospital, vereador e Presidente da Câmara. Em 1847 foi nomeado o primeiro oficial de Registros de São Paulo, em seguida titular do 1o cartório de registros de imóveis de São Paulo (rua 24 de Maio), que esteve com a família até 1976.
    Tem entre seus muitos descendentes diretos figuras conhecidas no mundo jurídico, político, artístico, educacional e cultural do Brasil. Está enterrado no Cemitério da Consolação, na capital paulista.

  13. Preciso vez ou outra passar a pé pela Florêncio de Abreu e sempre paro enfrente a este prédio para admira-lo. Uma arquitetura que chama a atenção embora muito destruída, ainda comentei com um senhor: Vou pesquisar para saber a quem pertenceu este belo prédio e o que funcionava aqui. Ontem estavam limpando o interior do imóvel e a frente. Fiquei feliz em ver que ele estava sendo ‘cuidado’. Realmente com alguns cuidados ele chamará muito a atenção das pessoas por sua robusta beleza arquitetônica.

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