Kallas demole fachada centenária no centro de São Paulo

O último final de semana foi bastante triste para o patrimônio histórico paulistano. Uma fachada antiga histórica, remanescente de um imóvel construído nos primeiros anos do século 20 foi derrubada pela empresa Kallas Engenharia.

A fachada da Rua Florêncio de Abreu (clique para ampliar)

De acordo com testemunhas que trabalham em prédios vizinhos, a intervenção para demolir a fachada começou no sábado, poucas semanas após a empresa instalar um painel indicando a propriedade e as devidas autorizações para a obra.

Em poucos dias a fachada foi levada completamente abaixo, sendo que nesta última quarta-feira, 11 de março, não havia mais nada no local exceto pela pilha de entulho do material demolido.

FACHADA NÃO ERA TOMBADA

Apesar de condenável, a demolição da fachada da Rua Florêncio de Abreu pela Kallas não desrespeitou a lei e seguiu todos os trâmites que a legislação paulistana determina. Apuramos que infelizmente a fachada não era protegida com tombamento, facilitando assim a derrubada por conta da empresa dona do terreno.

Na foto a placa da Kallas com os alvarás e números de processos

De acordo com Raquel Schenkman, do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), o local teve sua autorização para demolição em 2018 quando a mesma ainda não estava à frente do órgão. A ausência de tombamento, uma falha inconcebível, acabou servindo de facilitador para a aprovação do parecer autorizando a derrubada.

ÓRGÃO E CONSELHO INEFICIENTES

A pergunta que não quer falar e inquieta os paulistanos e também toda uma comunidade de pessoas ligadas ao patrimônio histórico em São Paulo é a seguinte: Como o DPH deixou um fachada tão importante passar batido e todos esses anos ela não ter sido tombada ?

E mais: Estando na área envoltória de outros bens históricos como a Igreja de São Cristóvão ou mesmo a Estação da Luz como os conselheiros do Conpresp que aprovaram a demolição em 2018 não pensaram na relevância desta fachada ?

Em 11/03/2020 só restava escombros (clique para ampliar) :: Foto: Paulo Sérgio Mendonça

É muito importante salientar que preservar a fachada não inviabilizaria, de maneira alguma, qualquer empreendimento imobiliário no local.

FALTOU VISÃO À KALLAS

O caso, trágico para a memória arquitetônica de São Paulo, também traz novamente à tona uma outra realidade: a mentalidade tacanha e a total falta de comprometimento com a cidade por parte de construtoras, neste caso em específico a Kallas dona da área.

Uma solução totalmente viável para a construtora, e que traria um grande benefício de marketing para eles e um gratidão por conta da municipalidade, seria manter a fachada e construir o novo empreendimento atrás. O método, que é chamado de fachadismo, deixaria a fachada preservada e a nova edificação ao fundo, como foi feito anos atrás na construção de um hotel na Rua Araújo.

Um exemplo muito interessante de fachadismo é este localizado em Buenos Aires, na Plaza Lavalle. Chamado Mirador Massue foi construído em 1903 e remodelado em 1989. Observem como a parte sobrevivente da fachada da edificação antiga valorizou o novo edifício:

Mirador Massue, Buenos Aires (Foto: Douglas Nascimento)

Ao que tudo indica construtoras e incorporadoras como a Kallas, e tantas outras, preferem sempre o caminho mais difícil: o da total falta de empatia e comprometimento com a cidade onde colhem seus lucros milionários.

Veja abaixo uma galeria de fotos do local de antes e depois da demolição:
Colaboraram com fotografias de durante e depois da demolição: Vinícius Campoi e Paulo Sérgio Mendonça. A ambos o nosso agradecimento.

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40 respostas

  1. Não me surpreende. Na escola (particular) em que estudei nos anos 80, até o final dos 90 ainda mantinham numa área do terreno, de frente para a rua a casa original (possivelmente inicialmente uma residência) em que todo colégio começou.
    Era uma construção dos anos 50, pequena, com cara clássica casinha com varanda de subúrbio, que atendia ao Jardim de Infância desde sempre (a escola foi fundada em 1959) e era conhecida carinhosamente pelos professores (e ex-professores), funcionários (e ex-funcionários), alunos e ex-alunos (e seus pais) como “casinha”.
    Mesmo com novas construções em todo o terreno e aquisições de dois terrenos vizinhos (fazendo um L, pegando duas ruas, exceto o terreno da esquina, que o colégio não conseguiu comprar), a construção foi mantida.
    Na última, reforma, já nos anos 2000/2010, a escola (ou a mantenedora, não sei dizer) construiu “por cima” da “casinha” uma extensão do prédio ao lado (usado pelo Ensino Médio e que já havia na minha época de 7ª e 8ª série), ocupando, com isso dois terrenos (o original, onde estudei; e o ao lado, onde era uma clínica particular, originalmente uma casa, que veio abaixo para dar espaço às novas instalações). Como o pé-direito do térreo é alto, poderiam ter feito por cima da casinha. Ou até mesmo mantido somente a fachada da construção original com novas salas por trás.
    Infelizmente, veio tudo abaixo, sob protestos e sem qualquer consulta aos professores, funcionários, alunos e sobretudo seus pais pagantes.
    Hoje, nos eventos oficiais, ou a “casinha” aparece em fotos em exposição. Ou numa “réplica” trash e tosquíssima que fizeram de sua fachada em E.V.A., montada somente para essas ocasiões.

  2. Bom dia Douglas, o grande problema dos tombamentos é a falta de capacidade da prefeitura de fazer ´políticas honestas. um imovel tombada pode perder o valor de até 70%. Quando o imovel não foi tombado o proprietario corre para demolir ou modificar.

    1. Concordo, mas não se aplica neste caso onde restava apenas a fachada e poderia ser incorporada com muito sucesso na nova edificação, conforme o exemplo argentino e o da rua araújo que mencionamos.

  3. É pedir demais para as construtoras elaborarem projetos mais harmoniosos e que respeitem a arquitetura tradicional da vizinhança?

    Acho que não seja falta de visão delas. Você foi muito educado. É falta de interesse em qualquer coisa que não vise o máximo de lucro.

  4. A verdade é que a nossa São Paulo está sendo demolida por inteiro, não só desintegrando, mas também pela pichação, a cracolandia , depredação total feita por vândalos com anuência dos governantes.

  5. Que tristeza!!!

    Gostei muito do artigo, mostrando claramente que dava pra fazer diferente.

    Uma lástima!!!

  6. Um bom exemplo de preservação de construções antigas, ao menos das fachadas, é o de Lisboa.
    As fachadas são preservadas e “o interior” pode ser totalmente reformado e modernizado. A aparência externa conserva a aparência das ruas e praças conservando-as.
    Há muitos anos estive em New York em um prédio que tinha sido uma fábrica de pianos no final do século XIX, na região do Hell’s Kitchen. Ele foi totalmente modernizado, inclusive com elevadores de última geração, porém a sua fachada estava intacta e restaurada.
    Por que não fazemos isso? Pode valorizar muitas áreas de nosso centro histórico e também de bairros mais antigos, além de preservar nosso patrimônio arquitetônico..

  7. Triste demais! Estamos perdendo nossas referências e história. Nada justifica,só a ganância, ignorância e imediatismo.

  8. Douglas, aqui em Campinas, temos um caso de preservação fantástica de uma fachada de um Casarão do Café que inclusive leva o nome do edifício que foi construído no local. Manteve-se a fachada toda do casarão, inclusive uma varanda que a casa tinha, onde se localiza a entrada do edifício. O local ficou muito agradável. É um caso que comprova a absoluta harmonia entre o novo e o velho, como no edifício de Buenos Aires. É um edifício que só tem clínicas médicas. Pena que não tem como colocar fotos aqui, mas no Google, colocando -se Edifício Casarào do Café em Campinas, SP, tem muitas fotos.
    Abraços.

    1. Clóvis Martini… morei há mais de vinte anos em Campinas e lembro desse edificio…. sempre achei interessante a interação e preservação do imovel antigo…. obrigada pela lembrança…

  9. Que triste, Douglas… O problema é que poucos se importam e entendem que a memória é importante e o que ela representa. Eu, como arquiteta, vi isso na faculdade: tivemos UM semestre de técnicas retrospectivas (não era restauro) e os professores e alunos não se interessavam por esse tipo de projeto, só queriam criar coisas novas (doce ilusão, pois mais da metade provavelmente não trabalha com projetos de edificações novas). Quanto ao DPH, não sei como está de profissionais, mas houve concurso para a prefeitura de SP em 2018, estão precisando de arquitetos mas não nomearam ninguém até hoje, lamentável…Muito triste essa nossa realidade :`(

  10. Na situação que já estava (só existia de fato a fachada) a Kallas poderia ter pensado em agregar a fachada ao novo projeto. Ao arquiteto “meus parabéns” pela falta de sensibilidade. Será que as faculdades de arquitetura não ensinam que não é necessário destruir para se criar coisas belas?

    1. As faculdades publicas de arquitetura, como area de humanas estão a desejar. É por isso que o DPH não conseguem bons arquitetos simpáticos nessa área. Uma pena que o patrimônio histórico é exclusivo de arquitetos, pois tem tantos profissionais bons como advogados, engenheiros, técnicos e tecnologos da área civil, artistas plásticos, restauradores,etc que podem se juntar aos poucos bons arquitetos que se interessam pela causa. Na Itália é assim. Por aqui é essa tristeza.

      1. Fiz um curso sobre historia da Marinha nesse instituto IHGSP. É uma entidade séria, guardiã de muitos documentos e livros sobre nossa cidade o que me deixou encantado. Parabéns.

  11. É tragicamente lamentável não só para o patrimônio histórico, mas como para a cidade.

  12. Mais um pedaço da história indo embora, ainda bem que fotografei essa fachada há um ano atrás, mais uma que vai ficar só na memória. Lamentável.

    1. lamentável mesmo! pq além do valor histórico, ela era deslumbrante!!! imagina quantas histórias aquelas paredes guardavam….. q triste…

  13. UMA PAÍS QUE NÃO RESPEITA A SUA MEMÓRIA. LAMENTÁVEL. PARABÉNS A PÁGINA.

  14. Infelizmente (mais uma vez), a ganância falou mais alto, auxiliada pela incompetência desses orgãos públicos que não cumprem o mínimo.Em nosso país, falta consciência de preservação e também vontade política.

    1. Muito triste todo o episódio, a começar pelo abandono em que se encontrava… muito triste!

  15. Essa construtora é predadora e burra, devia tirar partido dessa fachada e agregar valor ao empreendimento.

  16. Sim, ê uma pena não ter sido protegido. E o Batalhão de Guarda, no Parque Dom Pedro, que foi tombado pelo governo e a cada dia tomba um pedaço. Ninguém o protege.

  17. A Kallas procedeu de forma similar aqui na Agua Branca. Derrubaram casas em questão de horas, sem placas indicativas de autorização. Planejamento zero. Nenhum respeito pela cidade e sua história. Confisco do nosso direito à beleza e memória. E ainda ameaçaram através do poder judiciário um grupo de moradores que se opôs a este absurdo. Triste ocaso de nossa civilização.

  18. O grande impedimento para se protejer e admirar fachadas como esta é a ignorância e a geral falta de conhecimento cultura nesta cidade e país. Os que destroem a memória histórica são totalmente ignorantes, e os que permitem que seja destruída são totalmente falhos.
    Poderiam facilmente ter aproveitado a fachada, misturando antiguidade e modernidade mas são incompetentes demais para isto. Pobre cidade, pobre país, totalmente entregue ao obscurantismo cultural.

  19. Muitos empresarios no segmento da construção civil são míopes culturalmente! Dificultando uma visão mais ampla da preservação patrimonial historica de uma cidade!! Triste!!!

  20. LAMENTÁVEL.
    PRIORIZAÇÃO DE LUCROS.
    FALTA RESPEITO À CULTURA E AO PATRIMÔNIO HISTÓRICO.

  21. Me chama a atenção a falta de sensibilidade ou até de cultura dos responsáveis do projeto que não se sentiram tocados nem pela história, nem pelo significado da fachada no conjunto arquitetônico da área. Será que as faculdades de arquitetura só ensinam o novo destruindo o antigo? Mais um pedacinho de SP que vai para o chão.É possível a realização de belíssimos projetos respeitando-se a memória da cidade, mas aí vem mais uma caixote de vidro.

  22. Realmente é muito baixo o nível dos projetos da maioria dos novos empreendimentos na cidade de São Paulo. O setor imobiliário não compreende o valor histórico, técnico e estético que alguns edifícios antigos possuem, e por isso, sem conhecimento, optam por destruir a edificação para dar lugar a edifícios de valor estético menor.

  23. existem tantos projetos no mundo preservando as fachadas , e aqui mesmo no Brasil em uma escala menor o fachadismo acontece em Paraty . . . parece que os Arquitetos não sabem o que é preservação do patrimônio . . . e os incorporadores. . .bem estes parece que são muito pouco perceptivos. . . .

    1. No próprio centro de SP existem diversos exemplos de fachadismo, faltou visão a construtora. Uma nova edificação respeitando a fachada antiga agregaria DEMAIS a nova construção, ainda mais agora que estão voltando a moda as fachadas ativas.

    1. Uma coisa que explica essa demolição (Mas nem de longe justifica tal ato) seria a dificuldade operacional da construção caso optassem por preservar a fachada, uma vez que, sem uma passagem para o interior do terreno, materiais e equipamentos teriam que transitar pelas pequenas portas remanescentes (O que dependendo do cuidado dos operários poderia levar a fachada a ruina de uma forma ou outra).
      Ainda assim, caso demolissem apenas uma pequena porção da fachada para passagem de equipamento (Ficando a critério da construtora reconstruir ou não essa porção) seria uma melhor opção do que simplesmente botar tudo abaixo. Essa fachada agregaria muito a uma nova construção, ainda mais com a volta das fachadas ativas.

  24. Eu passei lá nesse dia e tirei algumas fotos. Os anjinhos que eu sempre gostei de olhar caíram chorando… “Angels cry again”.

  25. Bom, como corretor, nao usarei mais a Kallas Engenharia em minha composicao de estoque. Nao respeitam o equilibrio arquitetonico, nao merecem meus negocios.

    Com relacao a Raquel Schenkman, do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), deixe o contato dela conforme conveniente, pois havendo edificacoes que merecam preservacao, eu os avisarei para pericia.

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