Mais um comércio do centro de São Paulo e desta vez será um que até hoje ainda é lembrado. Para os aficionados por música e colecionadores ainda existem, nos sebos e nas lojas que vendem discos de vinil, material interessante sobre uma loja que também marcou época em nossa cidade, a Casa Sotero.

Tudo se inicia quando Antonio Di Franco (vide artigo sobre a Casa Di Franco) chama da Itália um gravador para desenvolver a produção gráfica de partituras, atividade esta que estava se iniciando na Casa Di Franco, então conhecida loja de instrumentos musicais da cidade. Estávamos em 1913 quando então o jovem Giovanni Campassi, nascido em Torino, chega ao Brasil onde acaba desenvolvendo muitas outras atividades além daquilo que havia sido inicialmente planejado.

De fato, as oportunidades que se abriram no Brasil possibilitaram que Giovanni, já em 1914, abrisse com o comerciante, músico, compositor e professor Pedro Ângelo Camin (1870-1933) a firma Campassi & Camin que através da C.E.M.B. – Casa Editora Musical Brasileira passam a editar partituras. Naquela época a música estava presente de forma muito forte nos lares e as partituras eram muito procuradas, afinal, ter um piano em casa era quase que uma obrigação para aqueles que podiam possuir um. Lecionar piano também era uma atividade bastante comum e até hoje é possível encontrar pelo interior casas onde existe na fachada uma pequena placa com os dizeres “Leciona-se piano”.

O piano era parte integrante de muitos lares brasileiros (clique para ampliar)

Interessante que Giovanni acaba sendo – de alguma forma – concorrente de Antonio Di Franco, mas mesmo assim acaba se tornando ainda mais próximo quando se casa com Guilhermina, irmã de Emma Rangoni Di Franco, esposa de Antonio. Com o falecimento prematuro de Antonio, Giovanni chegou a manter os dois estabelecimentos em funcionamento.

Em 1920, Giovanni e Pedro Camin adquiriram uma tradicional loja de instrumentos musicais e partituras que havia entrado em liquidação e que era de propriedade de Sotero Caio de Souza (1874-1928) desde sua fundação em 1908. Inicialmente criaram um novo negócio chamado de “Grande Estabelecimento Musical Campassi & Camin”, mas logo depois adotaram o nome Casa Sotero provavelmente para se beneficiarem de um nome já consolidado no mercado musical da cidade. Nesta mesma época a loja muda da Rua Líbero Badaró, 135 para a Rua Direita, 47.

A antiga “Sotero de Souza” na Rua Líbero Badaró (clique para ampliar)

Uma crônica assinada por Caldeira Filho e publicada no Estado de S.Paulo em 1970, relata que ainda na Rua Libero Badaró, a Casa Sotero era uma referência, pois “… o constante movimento da Casa Sotero animava a vizinhança. A atração era o pianista apresentador de músicas novas, sempre rodeado de mocinhas a ouvir…”, “…aquela atividade toda era presidida por um homem calmo e afável, Pedro Ângelo Camin um dos proprietários…”.

Além dos instrumentos musicais e partituras a Campassi & Camin editou uma belíssima revista ilustrada dedicada as artes, literatura, teatro e atualidades sociais chamada “ARIEL” que circulou entre 1923 e 1929. 

Outra atividade que fez com que a empresa iniciasse um comércio mais variado foi a representação exclusiva para o Brasil das máquinas de escrever fabricadas pela italiana Olivetti. Sem dúvida a empresa começa a tomar uma forma mais robusta diante do mercado.

Chegaram a ter duas lojas em São Paulo, uma filial no Rio de Janeiro e outra em Santos, mas a crise de 1929 e um desfalque ocorrido na empresa em 1930 trouxeram muitas dificuldades, forçando a empresa a voltar a operar apenas na capital paulista.

Campassi também fazia parte da direção, junto com Giulio Baron, da Associação Nacional de Editores e Negociantes de Música que regrava estas atividades comerciais inclusive com relação a abertura de novas lojas que entre outras regras deveriam manter distância mínima entre os associados concorrentes.

No círculo o luminoso da Casa Sotero na Rua Direita (clique para ampliar)

Como vimos, inicialmente manteve suas atividades ligadas a música e a comercialização de partituras, mas com o passar do tempo e já instalada na Rua São Bento, 195, se dedicava ao comércio de atacado e varejo de artigos domésticos, instrumentos musicais, rádios, televisores além da importação de produtos eletroeletrônicos. Diferentemente de hoje, existiam pela cidade diversas lojas que faziam este tipo de comércio que acabou sendo engolido pelas grandes redes, que por sua vez acabaram sendo engolidas pelo comércio eletrônico ou se adaptaram a ele.

Na foto acima (1) Giovanni Campassi e (2) aviador Francesco De Pinedo (clique para ampliar)

Giovanni Campassi que então passou a assinar João Campassi faleceu em janeiro de 1967 e o negócio continuou nas mãos de seu filho Clemente que inclusive foi um dos pioneiros numa nova forma de localização de seu comércio instalando uma filial no recém-lançado Shopping Iguatemi.

A forte concorrência dos magazines e das grandes redes de lojas levou ao encerramento das atividades da Casa Sotero em meados dos anos 1970.

Na foto acima LP comercializado pela Casa Sotero (clique para ampliar)

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

* Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira
* Enciclopédia da Música Brasileira
* O Estado de S. Paulo – Edição de 22/02/1970
* Diário da Noite – Edição de 10/12/1962
* ANENM – Associação Nacional de Editores e Negociantes de Música, Boletim – Boletim nº86 – 15/04/1932
* Revista “O Paulista” – Fev 1914 – Ano I – Vol. I
* Revista Ariel, Campassi e Camin, São Paulo – Nº 35, Ano III – Maio/1926
* Diversas partituras do acervo Coleção José Vignoli

AGRADECIMENTOS:
* Roberto Ribeiro Mariano
* Maria Alessandra Billia, neta de João Campassi

Sobre o autor

Educador financeiro, palestrante, pesquisador independente e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - IHGSP. Site oficial: www.vigplan.com.br

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Comentarios

  • Ari Francisco Fiadi 26/01/2021 at 17:54

    cARO AMIGO: EU DEVIA TER +-14 ANOS, ESTUDAVA NO cOLEGIO aNGLO lATINO,ERA OFFICE-BOY,MORAVEM pINHEIROS,E Na ferias ficava,substituindo o ascençorista,o elevador era comandado por uma alavanca,e as
    portas pantograficas manuais. O comendador Siqueira é que controlava o auditorio.

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  • francisco fernandez 26/01/2021 at 18:27

    Muito boa resenha daquilo que foi a Casa Sotero……grandes empreendedores e trouxeram na bagagem novidades para o País…parabéns.

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  • Marcelo Bruno Rodrigues 26/01/2021 at 19:32

    Boa noite, José Vignoli. Eu tenho algumas partituras em meu acervo que foram originalmente compradas na Casa Sotero, parte compradas em sebos, parte doadas. Tenho a partitura da canzonetta italiana “Primavera di bacci” (Primavera de beijos) para canto e piano publicada em 1910 pela Casa di Franco. Uma dúvida: Pedro Angelo Camin era o pai do compositor e organista brasileiro Angelo Camin?

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    • José Vignoli 28/01/2021 at 09:31

      Sim, o professor, compositor e organista Ângelo Camin (1913-1989) era filho de Pedro Ângelo Camin.

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  • Edison Roberto Morais 27/01/2021 at 11:00

    Parabéns, pelo post!
    Quando Office Boy e, posteriormente, como Auxiliar de Escritório, passava com frequência, tanto na Rua Direita, quanto na Rua São Bento.
    As lojas de instrumentos me chamavam a atenção pela sofisticação de suas vitrines e um ambiente “misterioso” no seu interior.
    Digo misterioso porque um pobretão como eu, à época, não me atrevia a pisar lá dentro, ainda mais sem saber tocar qualquer instrumento.
    Lembro da Casa Sotero. Havia outras lojas de instrumentos nas proximidades, lembro de umas na Rua José Bonifácio, São Bento e na Líbero Badaró. Não recordo seus nomes.

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  • Roberto Ribeiro Mariano 29/01/2021 at 16:51

    Vignoli, meu amigo… boa tarde. Há tempos não nos falamos, hein!! Fico feliz em saber que está tudo bem. Passando para parabeniza-lo por mais esta postagem maravilhosa, contando mais um pouco da história das pioneiras casas de músicas de São Paulo. E, claro, agradece-lo pela menção à minha pessoa nos agradecimentos… nem precisava, mas adorei!! Muito obrigado!!! Tenho arquivo de um logotipo da Casa Sotero que indica também uma sede em Araraquara (Rua do Commercio, 124). Vou te mandar por e-mail, tá. Por falar nisso, ainda estou em débito contigo com relação aos documentos que fiquei de encaminhar com melhor resolução, né… Vou quitar essa dívida logo, tá. Bom, na torcida para que siga adiante com as histórias das demais casas de músicas que tivemos em SP. Vamos nos “falando”. Abraços e um bom final de semana.

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  • Paulo Clístenes Vieira da Silva 27/02/2021 at 18:28

    Muito boa essa matéria, relatando o refinado gosto musical de uma seleta parte da sociedade paulistana dessa época.

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