Palacete Ferrante

A movimentada Rua do Gasômetro, bem como muitas de suas travessas, possuem um grande número de construções antigas –algumas tombadas e outras não – sendo boa parte delas em bom estado de conservação. Por ali onde imperam as lojas de madeiras e ferragens e há muito o que se observar pelos amantes da arquitetura paulistana antiga como, por exemplo, a primeira Escola Dante Alighieri.

E é bem na esquina das Ruas Gasômetro e Vasco da Gama que encontra-se um belo edifício do final da década de 1920 que estava há muitos anos necessitando de uma reforma que, finalmente, chegou. Trata-se do Palacete Ferrante.

O Palacete Ferrante, já reformado, no ano de 2021 (clique para ampliar)

Mas antes de continuar mostrando o resultado da grande reforma, vamos contar um pouco da história desta esquina que já teve teatro, cinema e até fábrica de sapatos antes de dar lugar a este palacete.

Localizado à época no então número 110/114 O mais antigo “habitante” desta esquina vem do final do Século XIX, precisamente de 1897, nesta época ali havia uma outra construção que abrigava uma sociedade de entretenimento chamada Boule Club. Anos mais tarde, em 1903, inaugura-se ali o Theatro Popular, dirigido pelo imigrante italiano Enrico Cuneo. A peça inaugural foi nada menos que Othelo, de William Shakespeare.

Anos mais tarde, precisamente em 1907, o antigo teatro seria arrendado por Alberto Botelho para transformar o local em um cinema – na verdade um cinematógrafo – chamado Eden-Theatre. Entretanto pouco tempo após abrir o cinematógrafo Botelho sente-se mais à vontade como cineasta do que exibidor, deixando o estabelecimento de lado para seguir sua carreira artística. É neste período que o edifício passa a ser locado por um pequeno industrial que transforma o local em uma fábrica de calçados infantis.

A velha construção permanece de pé até o ano de 1922 quando é demolida para dar lugar ao que viria a ser o Palacete Ferrante, inaugurado alguns anos depois ainda na mesma década.

Seu proprietário, Nicolau Vítor Ferrante, era um médico de origem italiana bastante conhecido à época e que fez do palacete não só sua residência, como também seu consultório médico. Na imagem abaixo a arte de um de seus receituários médicos:

clique na imagem para ampliar

Antigamente era bastante comum que médicos tivessem seus consultórios próximos ou no mesmo endereço de suas residências e como Nicolau Ferrante não era diferente. Na porta do número 110-A havia uma placa identificando que ali era um consultório médico e ela está preservada até hoje pelos seus descendentes, que nos enviaram uma imagem:

Placa de identificação que ficava junto à porta do consultório
Na foto acima Nicolau Ferrante e sua esposa Isolina Bertelli Ferrante (acervo da família)

Com o falecimento de Nicolau Ferrante, em outubro de 1938, o consultório sai de cena e com o passar das décadas é desocupado pelos próprios herdeiros que passam a residir em outros lugares sem, no entanto, vender a propriedade que passa a ter outros moradores e estabelecimentos comerciais. Nos anos 1960 a região da Rua do Gasômetro passa por uma grande mudança de perfil, passando a ser conhecida como a região das madeiras e ferragens como é até os dias de hoje.

Ao longo dos anos o Palacete Ferrante sofre um pouco com o peso da idade e com reformas cada vez mais espaçadas, mas nunca deixa de perder a elegância típica de uma edificação da década de 1920. Em 2014, como mostra a fotografia abaixo, ele já estava precisando de melhorias urgentes:

O Palacete Ferrante em 2014, bem antes da reforma iniciada em 2020 (clique na foto para ampliar).

E no início de 2020 as tão desejadas obras de recuperação se iniciam e o Palacete Ferrante vai aos poucos retomando a velha forma. Como é possível ver na foto anterior cada pedaço do edifício tinha uma cor diferente, haviam infiltrações, ferrugem nos gradis e muitas janelas de madeira faltando partes ou com algum dano visível.

Já em junho de 2020 é possível ver parte da obra de reforma em andamento e com bons resultados logo de início:

Reforma em andamento (clique para ampliar)

No final do mesmo ano a obra já esta concluída e o resultado (vide a foto que abre este artigo) é bastante satisfatório, dando novos ares a uma construção já prestes a se tornar centenária.

Como o imóvel não é tombado poderia ter sido feito qualquer tipo de reforma, tanto uma que a preservasse – como foi o caso – quanto uma obra que a descaracterizasse por completo, como é comum vermos por toda a nossa cidade. Felizmente o bom senso e o bom gosto dos descendentes de Nicolau Ferrante prevaleceu e o resultado foi ótimo.

O nome do palacete estava deteriorado e foi substituído por um novo feito em azulejos

A Rua do Gasômetro é um ótimo exemplo de como a preservação arquitetônica pode conviver com atividades modernas, diferentes daquelas as quais os imóveis foram projetados, sem que se perca beleza e sem necessidade de ocorrer descaracterizações. Por toda a extensão da rua vemos edificações antigas, muitas delas já mais que centenárias preservadas e abrigando lojas. O Palacete Ferrante junta-se a este notável grupo.

Veja mais fotos (clique na miniatura para ampliar):

Notas complementares:

*1 – Anos mais tarde as numerações da Cidade de São Paulo sofreram alteração, sendo que este imóvel passou a estar no número 402.

*2 – O Eden-Theatre era o nome fantasia da Empresa Cinematographica Americana (grafia da época) e foi inaugurada oficialmente em 7 de dezembro de 1907 e contava com aparelhagem da francesa Pathé. Abaixo o anúncio da inauguração que foi veiculado no jornal Correio Paulistano.

Bibliografia consultada:
* Acervo da família Ferrante, gentilmente cedido por Vinícius Ferrante
* Correio Paulistano – Edição 14479 de 6/12/1903
* Correio Paulistano – Edição 14557 de 3/2/1904
* Correio Paulistano – Edição 15919 de 7/12/1907
* O Estado de S.Paulo – Edição de 14/10/1938 pp 10
* Salões, Circos e Cinemas de São Paulo – Araújo, Vicente de Paula – Editora Perspectiva, 1981 – pp 297

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13 respostas

  1. Boa noite, Douglas. O Gennaro Ferrante, conhecido por suas cadeiras de barbeiro, era parente dele?

  2. Na verdade, parece-me mais uma (boa) reforma do realmente uma restauração. Esse Blindex no último andar (mania aqui no Rio também em prédios antigos que são “restaurados”)… f*deu com tudo. Mas poderia ter sido esquadria de alumínio, o que seria muito pior.

  3. Que trabalho de restauro muito bem registrado. A história do palacete e de um família que faz parte da memória da cidade. Parabéns pelo artigo.

  4. Que noticia boa, o contrário do desastre que aconteceu recentemente na rua Abílio Soares 207 onde um proprietário ignorante detonou o imóvel antigo em bom estado e fez um horror qualquer.

  5. Maravilhoso!! Quem dera todos os prédios/casas fossem restaurados e preservados como esse.
    Amo construções antigas!!

  6. Estou encantada com essa postagem. Sou uma Ferrante, mas sempre vivi no Rio de Janeiro e a linhagem antiga da família que conheço é de Minas Gerais, não sabia da existência desse palacete em São Paulo.

    1. Boa tarde!
      Sim, faço parte dessa linhagem da família. Meu marido é um dos proprietários. Era avô de meu marido.

  7. Justa homenagem feita pelos herdeiros ao falecido, e excelente respeito pela nossa cidade.

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