O triste fim do avião do Salão da Criança

Já vimos em outros artigos que os monumentos de São Paulo têm a característica única de se movimentarem pela cidade, de serem desmembrados, de até sumirem, como o caso do “sequestro” –  ainda não solucionado – do busto de Henry Ford.

Mas não são somente os monumentos esculturais que têm esta dinâmica, pois os aviões que se tornaram monumentos também adquiriram esta característica e literalmente “saíram voando” por aí.

Alguém se lembra do caça da FAB que ficava na Praça 14 bis? Mas esta é outra história…

Mas existia outro avião exposto na cidade que ficou bastante conhecido por fazer parte de um dos programas familiares de final de semana e dos estudantes que, durante a semana, podiam conhecer de perto a máquina voadora.

Vamos voltar um pouco no tempo para que possamos sentir melhor o prazer de voar nesta história.

A VASP – Viação Aérea São Paulo – era a empresa paulista de aviação que desde 1933 levava o nome de São Paulo pelos ares do Brasil. Operou diversos tipos de aeronaves, entre elas os primeiros turboélices em operação no Brasil, os Vickers Viscount de fabricação inglesa.

A VASP operou 16 Viscounts, sendo seis do modelo 827 com capacidade para 56 passageiros comprados novos e cuja chegada se deu a partir de novembro de 1958 e 10 usados do modelo 710, menores, com capacidade para 44 passageiros. Carinhosamente e para diferenciarem uns dos outros, os aviões passaram a ser conhecidos como “Vaiquinho”, o 710 e “Vaicão” o 827.

Os aviões eram muito confortáveis e faziam sucesso entre os passageiros, porém, um acidente ocorrido com um Viscount 710 da empresa australiana M.M.A. em 31 de dezembro de 1968, demonstrou que havia fadiga de material no suporte das asas. Diante disso, as autoridades britânicas proibiram o voo destas aeronaves e o custo dos reparos necessários tornariam a volta das operações financeiramente inviável.

O Viscount em fotografia da década de 1970 (Crédito: Ulrich F. Hoppe)

Imediatamente, no início de 1969, a VASP decide pela desativação, de quase todos seus modelos 710, uma vez que também seria necessário efetuar caríssimos reparos estruturais nas longarinas das asas de seus aparelhos com mais horas de voo por recomendação do fabricante, depois do acidente na Austrália. 

Entre os primeiros a saírem de serviço está o personagem principal desta história, o Viscount 701*, prefixo PP-SRN, que deixou a operação em 27 de janeiro de 1969 com 24.981 horas voadas. 

Muitos dos aparelhos desativados passaram a ser cedidos para entidades diversas, mas poucos sobreviveram, mesmo que o intuito fosse preservá-los como monumentos.

O nosso personagem, porém, ainda faria história quando, na madrugada de 25 de setembro de 1972, num verdadeiro acontecimento, foi transportado do aeroporto de Congonhas para o Parque Anhembi, onde foi inteiramente montado bem no centro do pavilhão de exposições para fazer a alegria das crianças; tudo isso porque no dia 7 de outubro daquele ano seria aberto o XII Salão da Criança*. 

Publicidade do XII Salão da Criança

Aqui vale uma ressalva: só quem viveu um Salão da Criança sabe o espetáculo que era aquele encontro com tudo o que fazia a alegria da criançada, atrações diversas, fabricantes de brinquedos, doces… Uma festa para toda a família em uma São Paulo muito diferente de hoje.  

Mas voltando ao avião, no espaço onde ele estava, foi montada uma área de embarque e desembarque, um verdadeiro miniaeroporto dentro do Anhembi. Conhecer um avião por dentro naquele tempo era um sonho! Não é preciso dizer qual era a principal atração do salão…

clique na foto para ampliar

A ida da aeronave para o Salão da Criança daquele ano foi uma feliz (ou programada) coincidência, pois o PP-SRN havia sido cedido para o Aeroclube de São Paulo e, depois do salão,  ficou exposto em frente ao hangar principal. Como o aeroclube fica bem em frente ao pavilhão do Anhembi, a operação acabou sendo facilitada, daí se concluir que foi uma operação planejada.

O Viscount ficou exposto no Aeroclube durante muitos anos e foi, em 1974, sublocado para um particular que deveria respeitar o contrato entre a VASP e o aeroclube onde, entre outras coisas, teria que adaptar aparelhagem e todo material necessário à realização de voos simulados, com exibição de filmes educativos, entre outras ações, que visavam despertar o interesse pela aviação entre os visitantes. 

Na foto, o Viscount no Campo de Marte em 1975

Segundo duas reportagens na revista Flap (especializada em aviação), publicadas a partir de outubro de 1978, havia problemas entre o explorador da atração e o aeroclube, apesar de que,  pelo que se entende, o avião estava em perfeito estado de conservação uma vez que a matéria termina com o seguinte parágrafo: “…Perfeito mesmo resta somente o PP-SRN que foi cedido ao Aeroclube de São Paulo. Conservá-lo no lugar onde está nas cores da VASP, senão uma obrigação, seria, pelo menos, uma questão de honra para os filhos do Estado mais rico deste País.”

GALERIA – Veja mais fotos do Viscount ainda na cidade de São Paulo:

Em fins de 1981, o avião foi retirado do espaço do Aeroclube de São Paulo e levado para ser atração turística na cidade paulista de Pedreira, mais exatamente num local chamado Complexo Turístico do Morro do Cristo, na administração do prefeito Gino Bellix (Hygino Amadeu Bellix, que cumpriu dois mandatos, 1977-82 e 1989-92).

Apesar de ser uma importante atração turística da cidade, não havia qualquer esquema especial de segurança o que culminou em uma triste situação, quando em 16 de maio de 1993 dois jovens “por brincadeira”, segundo um site da cidade, atearam fogo nas cortinas do avião. O resultado trágico foi a propagação do fogo que em poucos minutos destruiu a aeronave. 

Assim termina a triste história de mais um monumento da cidade de São Paulo. Desta vez, longe da cidade e reduzido a cinzas.

Nesta foto o Viscount destruído no Morro do Cristo

Este artigo foi escrito por José Vignoli com a co-autoria de Antonio Sérgio Ribeiro, advogado e pesquisador.

Informações complementares:

* Dos Viscount 701 da VASP, dois voaram mais um tempo, um até julho de 1969, o prefixo PP-SRL, e o último foi retirado do serviço em abril de 1970, o PP-SRI.

* PP-SRN: Viscount V701C – c/n 62. Entregue à BEA – British European Airways em 20/11/1954, como G-ANHB, batizado de “Sir Henry Stanley”. Vendido à Vasp em 30/08/1962, voou para o Brasil em 24/04/1963, junto com o PP-SRO. Voou na Vasp por quase 6 anos, e foi desativado e estocado em Congonhas/SP, em 27 de janeiro de 1969, com 24.981 horas de voo. Em 20/10/1972, foi cedido para o Aeroclube de São Paulo/SP, no Campo de Marte. Foi levado depois, em 1981, para Pedreira/SP, onde foi incendiado e destruído por vândalos em 16/05/1993.

* O XII Salão da Criança aconteceu entre 7 e 22 de outubro de 1972.

Na foto: Aeronaves Viscount da VASP em Congonhas no ano de 1970

Bibliografia consultada:

Cultura Aeronáutica – Link visitado em 3/3/2022
Revista Flap Internacional – Edição Out/Nov 1978
Revista Aero – Vol.2/Núm.5 – Nov/Dez 1975
Vickers Turbine Transports – LAAS Int´l Publication, GB, 1874
O Estado de S.Paulo – Edição de 10/08/1972

Compartilhe este texto em suas redes sociais:
Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn
Siga nossas redes sociais:
pesquise em nosso site:
Cadastre-se para receber nossa newsletter semanal e fique sabendo de nossas publicações, passeios, eventos etc:
ouça a nossa playlist:

10 respostas

  1. Tenho 50 anos (faço 51 no próximo dia 27) e voei no último voo do último Viscount aqui no Brasil. Foi em 1987. Era da FAB. Meu pai é oficial da Aeronáutica (embora intentende), serviu em Brasília por algum tempo (nós ficamos no Rio), e numas férias ou feriadão fomos visitá-lo naquele ano num voo do CAN. O Viscount tinha sido da Presidência e tinha 30 anos de uso e já estava para ser desativado em breve. Na verdade, soubemos depois: foi o penúltimo voo daquela aeronave, porque o último foi na cerimônia de encerramento, com presença de ministro e outros, como numa cerimônia inaugural.

  2. Viajei muitas e muitas vezes principalmnete no trajeto São Paulo-Brasília-São Paulo nos Viscounts da Vasp durante a década de 60. Talvez nesse mesmo SRN… Faz parte importante de minha vida…

  3. Puxa, viajei no tempo…Meu pai levou eu e meus irmãos nesse embarque…foi mesmo uma aventura na época. Eu realmente acreditei que tinha voado.

  4. Em 1972..tinha 7 anos de idade e lembro desse aviao no Salao da Criança …felizmente participei. ..um super evento !!!!
    Bacana por relembrar!!!

  5. Havia a ideia de transformar o Campo de Marte em um museu da aviação a céu aberto. Que fim teve essa ideia? O museu será implantado?

  6. Lembro no início dos anos 80 que na cidade da Criança em São Bernardo do Campo havia um avião ali pra visitar. Eram só algumas poltronas ali para assistir um vídeo de aviação projetado perto da cabine dos pilotos. Pelas fotos da matéria devia ser um Viscont. Quando vi o título da matéria pensei que seria deste avião mas foi bom saber que houve outro um pouco antes de eu nascer.

  7. Sobre a pergunta na matéria sobre caça da FAB que ficava na Praça 14bis, ele está restaurado e em condições de voo em um museu aqui dos Estados Unidos, no Yanks Air Museum, em Chino, na Califórnia.
    Apesar de estar em um museu, ele pertence a um particular e os voos dele são muito raros.
    Quando ele estava na Praça 14bis ele ostentava uma pintura do heróico 1º GAVCA da FAB, o antológico Senta a Pua, mas na verdade aquela pintura era apenas uma alegoria, porque aquele avião especificamente nunca foi para a Itália.
    Ele era um Republic P-47D-40-RA Thunderbolt e o serial number dele era 45-49346, o que mostra que ele foi construído em 1945, ou seja, depois que a guerra terminou.
    Ele ficou estocado na fábrica desde que foi construído, nunca voou, e então, em 1953, ele foi adquirido pela FAB.
    Na Força Aérea Brasileira ele era o FAB 4191 e voou no 1°/4°GAv, que naquela época era baseado em Fortaleza.
    Já como monumento na praça, ele sofreu um ataque a bomba, coisas da política da época, e foi bastante danificado.
    Então ele foi tirado da praça e passou por alguns lugares e por algumas estocagens, até que foi vendido a um colecionador americano, o Nichols, e trazido aqui para os Estados Unidos.
    Quando o Nichols o comprou ele estava em um estado lastimável, então ele foi desmontado, colocado em caixas e embarcado em um navio cargueiro no porto do Rio de Janeiro e trazido para cá.
    Depois de restaurado ele ganhou uma pintura da USSAF e o seu número é 549346, mas na verdade ele é uma aeronave particular e o seu prefixo civil é N3152D.

  8. Sempre há de alguma forma, alguém que está sempre disposto a destruir alguma coisa, e geralmente são de cunho histórico, apagando pouco a pouco a memória de algo!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.