Edifício garagem inacabado da Rua do Carmo

Os governantes de São Paulo (tanto prefeitura como governo estadual) parecem adorar uma tragédia anunciada. Várias medidas de segurança para proteger o cidadão só são tomadas depois que algo muito terrível acontece na cidade, causando muitos mortos e feridos.

Isso não é, evidentemente, algo novo. Desde a década de 1930 sabemos de negligências públicas que levaram a acontecimentos tristes. Em 1938 a inexistência de um código de leis para funcionamento de teatros e cinemas levou ao trágico acontecimento do Cine Oberdan, com mais de 30 mortos.

Depois nos anos 1960 e 1970 foi a era dos grandes incêndios em edifícios de São Paulo, como o Andraus, em 1972, e o Joelma em 1974. Só depois de ambos os casos que leis e medidas mais arrojadas de combate à incêndio na capital foram adotadas. Mais recentemente, o Edifício Wilton Paes de Almeida, foi anos negligenciado até que sofreu um grande incêndio que abalou suas já combalidas estruturas, causando seu desabamento e gerando um saldo de 7 mortos.

E existe no centro histórico de São Paulo um edifício, ou melhor um esqueleto de prédio, moribundo e abandonado cujo risco de uma tragédia é algo real, podendo a vir causar mortes. Trata-se deste edifício abaixo:

Visto de longe não parece ser o “monstro” que é

Construído no início da década de 1960 e localizado nos números 93 e 103 da Rua do Carmo, foi projetado para ser um edifício garagem. Naquela década, especialmente em sua primeira metade, a capital paulista recebeu um “boom” de projetos de novos edifícios garagem, levando em consideração que o centro da cidade era repleto de prédios antigos sem lugar para automóveis e ainda não havia o metrô para se locomover ao centro.

Naquela década surgiram, por exemplo, as garagens automáticas da Alameda Barão de Limeira, 25 de Março, Rua Araújo, Roosevelt, Rua Aurora entre outros. E foi neste momento que surgiu o prédio em questão neste artigo, cujas unidades de garagem começaram a ser negociadas em 1964.

Anúncio – Folha de S.Paulo 5/3/1964

Entretanto algumas coisa deu errado e o edifício jamais foi concluído, se transformando no maior “esqueleto” construído da região onde está localizado e, sem dúvida, no grande símbolo da decadência que há anos acomete o centro histórico de São Paulo.

Rumores e “fofocas” sobre o motivo do abandono são vários e vão desde construção irregular a um comprometimento das estruturas durante as obras da linha do Metrô, especificamente entre o Parque D.Pedro II e a Sé. Este último particularmente não me parece crível, já que a linha está operante tem mais de quatro décadas.

Seja lá qual for a razão real deste abandono, é evidente que passou da hora do prédio ser demolido e, com isso, deixar de oferecer risco aos munícipes. Em 2018 após o desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida o então prefeito Bruno Covas (PSDB), interditou esse edifício inacabado para tentar impedir uma nova tragédia, entretanto a única ação foi essa até o momento e não foi 100% eficaz, já que ainda há pessoas vivendo ali.

Armaduras expostas, crostas negras e acúmulo de material biológico são apenas alguns dos problemas da edificação (clique para ampliar)

De acordo com uma reportagem da revista Veja SP, de 2020, o prédio foi vendido em 2009 pelo valor de R$800.000,00 mas esta briga com a prefeitura parece ter emperrado ao menos temporariamente os objetivos de seu novo proprietário, que quer concluir as obras.

Enquanto prefeitura e novo proprietário não chegam a um veredicto, quem sofre com isso é a população paulistana, especialmente aqueles que moram ou trabalho ao redor deste tétrico edifício inacabado e correm o risco de que um dia tudo venha a cair sobre suas cabeças.

A opinião do Instituto São Paulo Antiga é que a prefeitura deve fazer uma vistoria técnica urgente no local e verificar quanto a possibilidade real desse prédio ser concluído de fato. E, caso possa ser concluído, deveria ser preferencialmente desapropriado e ter uma destinação social, já que a capital ainda tem um enorme déficit habitacional.

Razões para a desapropriação são inúmeras e cabe à prefeitura tomar uma medida urgente. Caso continue empurrando com a barriga uma decisão, caberá ao poder público o ônus da responsabilidade de uma eventual tragédia.

IPTU ATRASADO E DÍVIDA ATIVA

Uma consulta no cadastro do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) de São Paulo consta que apesar de ter sido anunciado como vendido, o imóvel ainda está no imposto com o nome do antigo proprietário. Além disso há imposto não pagos de 1999 a 2021 (não consideramos o ano corrente) e na dívida ativa de 1998 até 1983, totalizando aproximadamente pouco mais de 2 milhões de reais em débitos*.

* de acordo com consulta realizada em 15/5/2022

Veja outras fotos deste edifício (clique na imagem para ampliar):

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25 respostas

  1. Já que não é possível terminar a construção, o edifício poderia ser demolido e ser dada uma nova destinação para esta área. A Rua do Carmo precisa ser revalorizada, pois na mesma fica o Poupatempo e a primeira Igreja 24 horas da cidade.

  2. Este esqueleto pode ser visto da Radial Leste e até mesmo das partes mais altas da Bela Vista. Um belo elefante branco.

  3. Eu achava que era apenas um dos maiores esqueletos da cidade, mas parece que deve estar também entre os mais antigos.

    Se o metro impediu a finalização dele, estranho o fato de não terem o implodido, como o Mendes Caldeira.
    Pelo formato das paredes, realmente devria ser destinado a ser um edifício garagem.

  4. A Prefeitura de SP tem um projeto de fazer edifícios-garagens no centro da cidade. Se este prédio estiver em condições satisfatórias, poderia ser aproveitado.

  5. Este prédio começou a ser construído em 1966 ou 1967. Lembro bem dessa época porque estudava no Colégio do Carmo e as aulas eram monstruosamente atrapalhadas por um bate estacas que operava durante o dia todo. Muitos professores tinham que interromper as aulas nos momentos mais críticos. Depois de uns dois anos em contrução ele parou e nunca mais foi mexido. Desta forma ele está assim desde pelo menos 1970, provavelmente até antes, ou seja, há mais de 40 anos. Na época se comentava que ele seria um edifício garagem e que as obras tinham sido paralizadas por disputas entre o espólio do dono da obra. De qualquer forma é bizarro que eu esteja escrevendo aqui, já entrado em anos de algo que aconteceu na minha primeira infância. E a Prefeitura não consegue resolver este problema, permitindo uma chaga visível em torno o entorno (até da Radal Leste ele é avistado).

  6. Ontem, passei novamente em frente a este prédio. Foi
    construído um pequeno muro em frente a calçada para impedir o
    acesso de carros, já que o estacionamento foi fechado. Deve ter
    alguém morando no primeiro andar, pois haviam um varal cheio de
    roupas penduradas. Com a grande especulação imobiliária que existe
    em São Paulo, não sei como este esqueleto não foi derrubado para
    dar lugar a um edifício comercial.

  7. Boa Noite Marcelo

    Tenho muita historia para contar do prédio da Rua do Carmo, digamos uma longa historia, saiba que existe documentos antigos que podem contar esta historia.
    Para muitos é um prédio antigo e que merece ser demolido, concordo com a idéia, porém todas as vezes que passo em frente, tenho recordações maravilhosas.conheço desde 1983 porém já havia mais de 10 anos de historia. espero colaborar com a sua curiosidade é bom descobrir algo interessante

    1. conte algumas histórias sobre este prédio. Tenho muito interesse em saber. Bem que este prédio poderia ter suas obras terminadas.

    2. VITORIA, BOM DIA SOU ESTUDANTE DE JORNALISMO, E GOSTRIA QUE VOCÊ ME ESCREVE-SE PARA ME CONTAR AS HISTORIAS QUE VOCÊ SABE SOBRE ESSE PRÉDIO. OBRIGADO

    3. VITORIA BOA TARDE SOU ESTUDANTE DE JORNALISMO E GOSTARIA DE SABER MAIS IMFORMAÇÕES DESSE PRÉDIO SE VOCÊ PUDER ME AJUDAR EU AGRADEÇO.

      OBRIGADO

    4. Oi, Vitória!

      Obrigado pela postagem. Fico interessado em saber mais detalhes desde a origem da construção, quem são ou eram os donos, os porques de ainda estar daquele jeito.

      Obrigado mais uma vez!

  8. Consultei o arquivo histório da Folha de São Paulo pela internet (acervo.folha.com.br), colocando na busca o endereço: Rua do Carmo 93.
    Apareceu um anúncio classificado do dia 05 de março de 1964 sobre a venda de garagem automáticas.
    Quem quiser dar uma olhada, segue o link: http://migre.me/3Vwtf

  9. Não sei,não, esse prédio está embargado desde antes das obras do metrô, que eu saiba…o estacionamento não existe mais, o prédio virou um cortiço em seu primeiro andar. Todos os dias, quando abro a porta da varanda do meu apartamento dou de cara com esse esqueleto…poderia ser reformado e virar moradias populares, mas acho que vai desmoronar antes de receber alguma destinação…Muda a administração mas o problema continua lá…

  10. Nasci na rua do carmo, 227, em 1957, e brinquei muito neste edifício, me mudei em 1979 e até hoje continua o mesmo. Enigma e prova da ineficácia da prefeitura.

  11. O que aconteceu com este prédio é sintomático do alto risco que se corre de comprar imóvel na planta nesse país. Em Itaquera, próximo ao Parque do Carmo, há um esqueleto de um prédio semelhante a este abandonado há décadas, e próximo do Metrô Itaquera, na Avenida Itaquera, onde hoje constrói-se um parque linear, há 20 anos anunciava-se a construção de um grande condomínio que jamais passou do stand de vendas. Fico imaginando a situação em que se encontram quem investiu nestes imóveis.

  12. Trabalho ao lado desse prédio e para nós é uma vista bem feia, por causa de sua deterioração. Às vezes, podemos ver os urubus que vivem nos últimos andares e que vem para as janelas do nosso prédio. Alguns até pousam nos parapeitos e ficam fazendo “companhia” para quem trabalha perto das janelas. Quando comecei nesse trabalho, as pessoas diziam que a construção foi embargada pela Prefeitura e que seu dono suicidou-se por causa das dívidas… histórias que estão virando lendas urbanas!

  13. Me disseram a alguns dias que ele será demolido para construção de outro predio, alias serão contruidos varios na região o antigo cine shangai já foi demolido

  14. Nasci nesta rua. Estudei no Colęgio N S do Carmo que não existe mais. Conheço eate predio deade pequeno. Hoje tenho 60 anoss e ele deve ter mais que isto abandonado

    1. Estudei no colégio N.S. do Carmo até o seu fechamento em 1971 e este prédio já existia, a aparência externa exatamente igual à da época. Exceto pela árvore que cresceu no topo. O colega Maurício Martins lembrou bem o barulho dos bate-estacas, era atordoante. Hoje a tecnologia deve ter evoluído, seria impensável hoje em dia.

  15. Discordo apenas de uma única linha do texto: a legenda da primeira foto. Mesmo de longe, é uma aberração, agride os olhos até de quem conhece bem o centro, horrendo.

  16. Por ser um edifício-garagem o prédio deve ter um pé-direito bem baixo, então fica inviável converter em um imóvel residencial ou de escritórios.

    Minha sugestão é o dono buscar entrar em contato com alguma empresa de self-storage e oferecê-lo para negócio. A legislação certamente deve permitir esse tipo de uso em imóveis com pé-direito baixo.

  17. Comecei à trabalhar no Diário Popular em março de 64! Praticamente ficava em frente a esse prédio! Pra essa matéria veio bem a calhar pois pra min foi sempre um mistério esse prédio!

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