Cine Saturno (Vila Ré)

Em uma cidade onde tudo parece rapidamente desaparecer para dar lugar ao “novo”, sem que necessariamente o novo venha ser algo bom, algumas memórias tendem a desaparecer igualmente na mesma velocidade, deixando lacunas em nossa história.

Um deles é um cinema da zona leste, precisamente no bairro paulistano de Vila Ré, que eu em particular jamais esqueci pois foi nele que assisti um filme sozinho pela primeira vez na vida, ainda na pré adolescência. Antes dele fechar ainda assisti a outros dois filmes que seguem firmes e fortes na minha memória. Trata-se do Cine Saturno.

Planta da Vila Ré e Cidade Patriarca em 1947 (clique para ampliar)

Faz muito tempo que penso em publicar aqui algo sobre o extinto cinema, porém a escassez de informação é tanta que sempre fui adiando. Entretanto, após o colega José Vignoli publicar a matéria sobre o, igualmente extinto, Banco A.E. Carvalho, decidi dar ao menos alguma luz sobre o Saturno.

Em uma época em que locomoção não era tão fácil e rápida como nos tempos atuais, era bastante comum – e positivo – o desenvolvimento de áreas comerciais nos bairros mais afastados, todo mundo aqui conhece alguma região como “centro da Penha” ou “centro de São Miguel” e, claro, havia também o “centro da Vila Ré”.

Diferente de outros bairros na época, a Vila Ré tinha seu comércio principal basicamente em uma única via, a Itinguçu, que até hoje segue como importante endereço comercial da região e caminho que liga Penha e Vila Esperança até Cidade Patriarca, A.E Carvalho etc… e foi ali também que surgiu o saudoso Cine Saturno.

clique na foto para ampliar

Pesquisar sobre ele hoje em dia resulta em quase nada. Infelizmente são raras as informações e quando aparece alguma coisa é referente a um cinema homônimo que era localizado no Belenzinho, em plena Avenida Celso Garcia. Aquele outro é do tempo do cinema mudo e fechou em meados da década de 1930.

Já o nosso Cine Saturno aqui é bem mais recente. Foi inaugurado em no apagar das luzes de 1964, precisamente no dia 30 de dezembro. Para o início das exibições públicas foram escolhidas as películas “Hércules no centro da Terra” filme de 1961 com Christopher Lee e “Cidade Negra”, de 1950, que estrelava Charlton Heston.

Acima os cartazes (em inglês) dos primeiros filmes exibidos no Cine Saturno (clique para ampliar)

O cinema seguiu sendo uma importante atração cultural da Vila Ré e arredores até ao menos o final dos anos 1980, quando começou a entrar em decadência. No início dos anos 1990 ele mudou para se transformar não em um cinema pornográfico, mas em um templo da Igreja Universal (me pergunto se um cine erótico não teria sido um fim mais digno). Como Universal permaneceu longos anos até que depois virou outra igreja evangélica e posteriormente estabelecimento comercial, sendo que atualmente é uma unidade das Lojas Pernambucanas.

Se não existe mais ao menos o Cine Saturno estará sempre na memória saudosa daqueles que o frequentaram. Eu mesmo sempre que revejo três filmes em especial: Bete Balanço, A Volta dos Mortos Vivos e Os Caça Fantasmas lembro das poltronas deste cinema pois foi lá que os assisti pela primeira vez, sempre acompanhado de pipocas ou de um drops Paquera.

Serviço:
Cine Saturno (extinto)
Abertura: 1964
Fechamento: Década de 1990
Endereço: Rua Itinguçu, 731 – Vila Ré

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5 respostas

  1. Matéria muito legal. Moro em Taboão da Serra desde que nasci e lá também tínhamos um “centro da cidade” onde também existia o único cinema da cidade: o Cine Tupy. Foi lá que assisti o primeiro filme da minha vida, mas curiosamente a lembrança mais forte que tenho desse lugar não foi um filme – embora tenha sido uma verdadeira “cena de ação”. Em frente a este cinema existia um ponto de ônibus e eu estava ali com a minha mãe esperando o nosso ônibus para ir pra casa. Eu devia ter uns 6 anos de idade. Lembro bem que fiquei olhando a esmo para a minha esquerda de onde vinham os carros, e onde também havia um cruzamento com semáforo. A cena toda pareceu acontecer em câmera lenta: vi um caminhão carregado de tábuas de madeira entrar rápido demais no cruzamento e virando à direita, na nossa direção. Devido ao excesso de velocidade ele já fez a curva andando em duas rodas. Lembro bem de ver o motorista e o ajudante abrindo as portas e pulando fora do veículo ainda em movimento e com duas rodas no ar. O caminhão continuou fazendo a curva desgovernado e acabou capotando. Caiu de rodas para cima bem na nossa frente, e de frente pra nós. Cena de filme de 007 – nunca mais esqueci rs rs (o motorista e o ajudante aparentemente não se machucaram)

  2. Esses “centrinhos” dos bairros eram e ainda são bem legais, especialmente aqueles mais afastados da “civilização”.
    Em 1982, mudei com minha família para um vilarejo em Guarulhos. Na pracinha havia: padaria, açougue( que anotava as compras dos fregueses num caderninho, para receber depois…), dois mercadinhos, sendo que um deles funcionava como avícola, drogaria, um pequeno bazar e um jornaleiro, além, claro, da Igreja, que era católica. Só passava ali uma linha de ônibus, que ia para o metrô Tietê. Tinha ônibus, claro, o dia todo, mas como ele demorava! Se perdesse, já era…Os horários eram muito dilatados.
    Tenho irmãos que moram lá ainda. Tem mais linhas de ônibus(centro de Guarulhos, metrô Penha…), mas o comércio não está bom, não. Um mercadinho fechou, o outro virou sorveteria, não tem mais banca de jornal nem drogaria. Mas boteco pé-sujo(leia-se pingaria), ah, isso tem!

  3. Interessante, lembrei de outra história minha neste mesmo cinema da minha cidade – o Cine Tupy. Eu devia ter uns 6 anos e me levaram para assistir um filme de “bang-bang”. Acho que foi a minha prima mais velha com o namorado e foi também a minha primeira vez num cinema. Num certo momento senti vontade de ir ao banheiro. As portas do banheiros ficavam embaixo da tela, uma de cada lado. Minha prima me mostrou onde era e eu fui sozinho – mas muito curioso para ver como era aquela tela de perto. Eu queria entender como é que aquela “mágica da projeção” acontecia. Fui lá dentro e na volta já saí novamente “estudando” a tela de projeção. Neste momento alguém no filme deu um tiro em alguém. Eu, distraído e prestando a atenção na tela não vi o degrau que ali existia – caí estatelado no chão bem frente de todos, como se tivesse sido atingido pelo tiro. Foi uma gargalhada geral no cinema e assim foi a minha “estréia” na sétima arte rs rs

  4. Os cinemas de rua estão praticamente em extinção, reflexo da nossa falta de cultura cinéfila.

  5. Que interessante saber desse cinema. Me mudei a pouco menos de 2 anos para o bairro da Vila Granada e consigo ir a pé ate essa Pernambucanas. Seria tão legal se ainda fosse um cinema. Agora passo em frente e fico imaginando como era nessa época. Que pena a extinção dos saudosos cinemas de rua 🙁

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