Cine Alhambra

Quando falamos em cinema nos dias de hoje a primeira coisa que pensamos são as salas de exibição presentes nos inúmeros shopping centers da cidade. Entretanto, bem sabemos que a realidade no início do século 20 até pelo menos princípios da década de 1980, era bem diferente.

Nota de inauguração do Cine Alhambra em 1928
Nota de inauguração do Cine Alhambra em 1928

Haviam inúmeros cinemas de rua, muitos construídos até um ao lado do outro, disputando o público que lotavam a grande maioria dos cines paulistanos. A região da Sé possuía um grande número de salas de exibição e hoje abordaremos uma delas: o Cine Alhambra.

Instalado no que então era um ponto chique de São Paulo, o Cine Alhambra foi construído em 1927 e pertencia aos senhores João Batista de Souza, Manuel Pereira Guimarães. A capacidade de público do Alhambra era de 1000 poltronas.

Cine Alhambra em foto da década de 30
Cine Alhambra em foto da década de 30

Construído e decorado em estilo mourisco o Alhambra chamava muito atenção de quem passava pela Rua direita pois parecia muito aqueles cinemas estadunidenses que as pessoas costumavam ver em revistas como a Scena Muda. A lotação da casa era de 1000 poltronas e o local ainda possuía dois outros ambientes muito elegantes, a sala de espera e uma outra denominada à época de “sala de inverno”. Também era conhecido por ter um elegante bar e uma sorveteria o que fazia a diversão de quem andava pelo centro passeando, o famoso “footing”.

Sua inauguração ocorreu em 1928, mais precisamente às 14:00 horas do dia 21 de julho, com a exibição do filme “A Carne e o Diabo” da MGM, cuja exibição na época foi considerada “imprópria para senhoritas”. Essa película de 1926 é considerada o auge da atriz Greta Garbo no cinema mudo.

A Carne e o Diabo (1926)

O Alhambra complementava uma série de salas que estavam próximas e disputavam o público, como o Cine São Bento e também o Santa Helena. Em uma época que os escritórios e boa parte da vida comercial paulista se concentravam no centro velho, estas salas eram bastante disputadas.

Divulgação

Em dezembro de 1929 o Alhambra foi adquirido pelo famoso conde Giuseppe Martinelli (o mesmo do Prédio Martinelli), que já possuia também uma outro cinema nas proximidades, o Cine Rosário. A posse foi confirmada no início de 1930 e com ele permaneceu até o final da década.

Entre as peculiaridades deste cine, uma delas foi ter sido a primeira sala paulistana a exibir Robin Hood (The Adventures of Robin Hood) película de 1938 com o ator Errol Flynn.

A sala teve seu auge na década de 40 e começou a enfrentar uma decadência a partir da segunda metade da década de 50, quando muitos dos negócios se moveram para o centro novo, do outro lado Viaduto do Chá. Foi nesta época que tanto o Alhambra como os demais cinemas da região ganharam o apelido de “cinemas poeira”.

Como ficavam em uma área de escritórios, o foco destas salas era o público da semana útil. Então exibiam sessões duplas a partir das 10:00 da manhã, geralmente com filmes de ação (muitos faroestes) de tempo mais curto. Era uma forma de atrair pessoas que davam uma escapadinha durante o expediente, ou durante uma visita a um consultório ou banco no centro velho de São Paulo. Já ao finais de semana, enquanto as salas de outras regiões ficavam lotadas, o Alhambra e concorrentes próximos ficavam praticamente desertos, “pegando poeira”.

Depois de décadas funcionando, o Alhambra acompanhou a decadência que atingiu o centro velho de São Paulo e acabou por fechar as portas, encerrando suas atividades entre o final da década de 1950 e início da década de 1960. A partir dai a sala ficou fechada por alguns anos e depois foi reaberta como estabelecimento comercial.

Veja fotos do Alhambra em 1928:

O ALHAMBRA HOJE:

O prédio do Cine Alhambra hoje (clique na foto para ampliar)

Com o imóvel do velho cinema sofrendo deterioração e decadência por longos anos, pensava-se que a construção seria ou demolida ou completamente descaracterizada. Entretanto o prédio resistiu até receber seu pedido de tombamento.

Em 2011, após restauração da fachada e uma reforma em seu interior, o antigo Cine Alhambra passou a dar espaço para uma filial de um grande magazine brasileiro. As maiores alterações na fachada do prédio, com arquitetura em estilo oriental, foram as seis janelas laterais (três de cada lado) que já tinham sido removidas e algumas alterações logo abaixo delas. Apesar disso as condições da fachada são bastante satisfatórias.

Detalhes da fachada (clique na foto para ampliar)
Detalhes da fachada (clique na foto para ampliar)

Seria bastante auspicioso se colocassem uma pequena placa com um breve descritivo na entrada do imóvel, com um QR Code direcionando para um histórico do prédio. Hoje a maioria das pessoas andam munidos de seus smartphones e poderiam conhecer um pouco mais a história de sua cidade.

NOTA:

* 1 – O Cine Alhambra costuma ser confundido em pesquisas com outro lugar homônimo e na mesma rua, o Salão Alhambra. Este outro – sem qualquer relação com este cinema – era um luxuoso salão de festas que ficava no andar superior do Palacete Baruel (já demolido) bem na esquina com a Praça da Sé. No Salão Alhambra foi fundada a Sociedade Esportiva Palmeiras.

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6 respostas

  1. Na infância e juventude frequentei muitos cinemas do Brás/Belém/Moóca (todos já extintos, sendo que a maioria deles se tronou templos evangélicos…). Ainda guardo boas lembranças do Universo, Roxy, Bruni Brás, Fontana, São Luiz, Aladim, Aster, mas gostaria de saber se tem fotos do Cine Safira (Rua do Hipódromo) onde matava aula para assistir a série Flash Gordon. Obrigado!

  2. Considero apenas o Marabá o único heroico sobrevivente da época em que o centro ostentava os maiores e mais suntosos cinemas da cidade, já que o Belas Artes, que sobrevive apenas com o patrocínio da CEF, tem prazo de validade.

    1. Porque vc acha que o belas artes ta com os dias contados? Nao me faça chorar! Eu amo o belas artes e como muitos paulistanos fiquei triste com o fechamento temporário e super feliz após nosso querido cinema reabrir as portas.
      Passa cada filme legal lá, que so conseguimos ver no espaco itau ou belas artes, o resto sao so aquela mesmice comercial de hollywood.

  3. Concordo, um QR Code ou pelo menos uma plaquinha com a história do imóvel seria ótimo. Já passei tantas vezes por ali e nem desconfiava que ali tinha sido um cinema!

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