O triste fim da Capela de São Sebastião do Barro Branco

1 – A DESTRUIÇÃO DE NOSSA MEMÓRIA

Quando lembramos o apagamento histórico que foi a destruição da São Paulo colonial, movimento iniciado ainda nos últimos anos do século XIX e que tomou proporções ainda maiores no século XX, imaginamos que com a criação de órgãos de proteção ao patrimônio e mecanismos jurídicos de defesa estas ações seriam encerradas. Ledo engano.

Antigas construções paulistanas como essas apenas só se conhecem hoje em dia através de pinturas

Espalhados pela capital paulista ainda se encontram exemplares da São Paulo do período colonial e imperial que resistem à própria sorte ou simplesmente sobrevivem por estar em áreas que não atendem – no momento – aos interesses especulativos do mercado imobiliário.

São exemplos vivos os três seguintes casos:
* Casa de 1899 – Rua Cônego Araújo Marcondes, Limão
* Sítio Mirim – Avenida Assis Ribeiro, Ermelino Matarazzo
* Casa – Rua Coronel Tristão, Freguesia do Ó

Exceção ao Sítio Mirim que pertence à Prefeitura de São Paulo e eventualmente receberá restauro, os dois outros imóveis são particulares, não tombados e correm o risco de desaparecer a qualquer momento, quase não deixando rastros físicos de como eram as moradias paulistanas até o limiar do século XX.

Haverá sempre a relativização, usando casos como o Solar da Marquesa de Santos, na Sé, ou a residência de Veridiana da Silva Prado, na Vila Buarque, como bons exemplos de moradia em São Paulo do século XIX. Porém tratam-se de casas da elite daquele período e bem distantes do padrão de moradia de grande parte dos paulistanos comuns, estes que eram a maioria da cidade.

Sobrado de 1896, na Mooca, demolido em 2012.

Essa elitização da preservação é uma constante até hoje em órgãos como DPH e Condephaat cujos burocratas pouca ou nenhuma atenção dão aos patrimônios que estão fora da região central de São Paulo. A consequência disso é que se a São Paulo do século XIX hoje se apresenta com pouquíssimos exemplares, a arquitetura das primeiras décadas do século XX é a que tende a desaparecer em seguida, especialmente nas região de subúrbio e periféricas.

E até mesmo edificações religiosas sofrem esta sina destruidora, como é o desta importante capela paulistana demolida em 2001 e que é tema deste artigo.

2 – AS ORIGENS DA CAPELA DE SÃO SEBASTIÃO

Rara fotografia da capela, de meados dos anos 1980 (clique para ampliar) / Divulgação

A data de origem da capela é bastante difícil de comprovar. Há quem defina seu surgimento no ano de 1872, quando a região ainda fazia parte da Fazenda Santana pertencente à Companhia de Jesus. No entanto documentos públicos demonstram que o terreno da capela foi doado por particulares a igreja em 1894.

Quanto à denominação São Sebastião, contudo, é muito provável que só tenha sido atribuída a capela décadas mais tarde, nos anos 1920. Isso se deve ao fato de que não há registros prévios deste nome antes desse período e também que São Sebastião é conhecido como padroeiros dos soldados e da infantaria e a Força Pública só se estabeleceu na região em 1917.

A capela estava localizada na Avenida Água Fria onde esta se encontra com a Avenida Nova Cantareira, no bairro da Água Fria.

Mapa de 1924 mostra o local onde ficava a capela (clique para ampliar)

Através de extensa pesquisa conclui que a primeira capela foi possivelmente demolida e posteriormente reconstruída nos anos 1920 ou ao menos sofrido uma grande reforma. Essa possibilidade fica evidente a partir de notas encontradas em jornais paulistanos da época, onde é mencionado o preparo de festejos para arrecadar fundos para a construção “de uma capela digna do santo escolhido como padroeiro”:

Nota publicada no jornal “O Combate” em 08/03/1927

A chamada “Congregação de São Sebastião” era algo relativamente novo naquele momento, sendo que ela foi criada por membros da força pública após o estabelecimento da Academia do Barro Branco logo em frente. À época chamada de “Vila Militar da Força Pública”, teve sua obras iniciadas no final do ano de 1917.

Durante o ano de 1927 são encontradas diversas publicações em vários jornais paulistanos conclamando os paulistanos a se dirigirem à região do Barro Branco para participar de eventos, tômbolas e festividades com o intuito de arrecadar fundos para a nova capela.

Tenha sido a capela reconstruída ou reformada o fato é que desde 1927 a congregação passa a ter atividades do calendário católico, o que prossegue com muita frequência por algumas décadas. Um dos grandes responsáveis em manter a capela em boas condições e ativa é o Coronel Joviniano Brandão, brilhante figura da Força Pública, católico praticante e grande admirador da arte sacra.

Após a morte de Brandão, em 1944, a capela deixa de ter seu grande mantenedor passando a sofrer um lento processo de degradação.

Fotografia aérea de 1958 mostra o local da capela (clique para ampliar)

3 – DO INCÊNDIO AO FIM

Em meados da década de 1950 o local sofre um incêndio que deixa suas instalações um tanto comprometidas. Apesar do ocorrido a capela sobrevive, porém desativada, acelerando seu processo de decadência por décadas até chegar em um estado tão deteriorado que poderia vir a ruir por si só.

Como é possível conferir nas duas imagens a seguir a situação da velha capela era lastimável no final dos anos 1990. Tratava-se de uma edificação em ruínas que aguardava seu fim seja demolida ou desabando por si só.

No final dos anos 1990 a situação era desoladora (clique para ampliar).
Fotografias: Fabio Dianno / Divulgação

E em 2001 o que era previsível aconteceu: a capela foi demolida pelos proprietários do terreno para a construção de um centro comercial, que acabou por virar uma agência bancária. Naquele momento a Capela de São Sebastião já se encontrava em processo de tombamento pelo Condephaat, o que não foi levado em consideração pelos donos da área.

É neste momento tardio que moradores da região iniciam um grande movimento com o objetivo de não só preservar o que restava do lugar como também tentar a reconstrução do pequeno tempo da Avenida Água Fria. O que se viu foi uma batalha entre as duas partes para definir o futuro do terreno da capela. No entanto a vontade dos proprietários do lote acabou por prevalecer.

As ruínas da capela já demolida, em 2001 (clique para ampliar) Foto: Ana do Val / AE

4 – O LOCAL HOJE EM DIA

Sai de cena uma referência histórica e religiosa da região para dar lugar a uma construção de gosto arquitetônico um tanto quanto duvidoso, que por sua vez abriga uma agência bancária.

O local da capela atualmente: agência bancária (clique para ampliar)

Cerca de dois meses depois da demolição do local o Conpresp determinou o tombamento das ruínas remanescentes, exigindo ainda a apresentação de um projeto para a revitalização destes. O Banco Bradesco à época contratou o escritório do arquiteto Paulo Bastos, que desenhou e executou o projeto.

Tapete de piso hidráulico que restou da igreja junto à entrada da agência (clique para ampliar)

O resultado, por sua vez, é algo muito menor do que os moradores da região esperavam e aquém da capacidade de um banco de tão grande porte como o Bradesco. Foram preservadas partes do piso hidráulico, degraus e pedras, além da instalação de uma placa meramente simbólica e pouco explicativa sobre o que existia no local antes da agência bancária.

Totem de identificação sobre a capela mostra pobreza de informações

E assim mais um pedaço de nossa história, tenha sido ela originada no Brasil império ou república foi apagada.

Em países da Europa e nos Estados Unidos é bastante comum que igrejas abandonadas sejam adaptadas e convertidas para outros fins. Há casos onde estas edificações religiosas se transformaram em escolas, delegacias, hospitais e até museus. Mas em se tratando de Brasil tudo é mais difícil.

Veja mais fotos atuais da capela na galeria a seguir (clique para ampliar):

Bibliografia consultada:
* A Vida Moderna – Edição 00320 – 1917 – pp 10, 11 e 19
* A Vida Moderna – Edição 00324 – 1917 – pp 11 e 18
* O Combate – Edição04344 – 08/03/1927 – pp 3
* Diário da Noite – Edição 00715 – 07/03/1927 – pp 4
* O Estado de S.Paulo – 24/08/2001 – pp C6
* O Estado de S.Paulo – 17/02/2006 – pp ZN8
* Geoportal – Link visitado em 07/01/2021
* Site Malcom Forest – Link visitado em 02/01/2021

Nota:
*1Anteriormente, de acordo com o pesquisador Malcolm Forest, a área da capela serviu no passado com pouso de tropeiros que dali rumavam para o sertão de Minas Gerais. Sendo assim, é bem possível que estes tropeiros tenham erguido esta capela na região, já que sua autoria não é conhecida.

Compartilhe este texto em suas redes sociais:
Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no twitter
Twitter
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no linkedin
LinkedIn
Siga nossas redes sociais:
pesquise em nosso site:
ouça a nossa playlist:

15 respostas

  1. Seria cômico se não fosse trágico! Nessa época morava na Água Fria e tentamos em vão conseguir qualquer comnpromentimento de quem quer que fosse para preservar o que já era quase um montede escombros!E assim a lenda se escorre e a fecudá-la decorre …e a História de uma nação vai ralo abaixo…

  2. Caramba, que história triste! Isso que ainda conseguiram salvar alguma coisinha. Tem tanta coisa em SP que some por completo.

  3. Enquanto os políticos e burocratas tiverem tratamento diferenciado, permanecerão impunes ad æternam.

  4. Moro na região, e o que foi feito pelos proprietários do local foi um absurdo.

    Quanto à idade da Capela, talvez a última tenha sido reconstruída na data em que vc menciona no texto, porém, é sabido que o local era usado como paragem de tropeiros que se deslocavam para Minas Gerais, isso no século 18, mas não sei que tipo de construção era.

  5. Pela localização que no mapa era chamado de “Estrada do Cantareira”, a igreja talvez ficava no mesmo local de alguma capela, cruzeiro ou marco, pois a estrada (hoje avenida) era ponto de chegada ou partida de tropeiros e viajantes para Minas Gerais e além, pois aí até os meados dos anos 1800 era talvez algum ponto extremo da cidade próximo ao pé da Serra da Cantareira (olha como no final dos anos 1950 ainda era uma região pouco habitada). Talvez não tinha vestígios anteriores a igreja, porque poderia ter sido uma construção frágil, de madeira ou taipa ou mesmo temporário feito pelas próprias comitivas que se preparavam pra sair ou descansavam e se alimentavam depois de uma viagem.
    E a construção do banco pode ter acabado de vez por todas por encontrar algum vestígio arqueológico do Brasil Colônia que poderia estar abaixo do solo da igreja (cacos de louças, talheres, resto de fogueira, ossos, etc).

    1. Exato Dan, o dano da construção da agência é muito maior que apenas a demolição da igreja. Existe uma grande possibilidade de restos arqueológicos estarem por ali.

  6. Triste história, mas não deixa de ser lamentável ter surgido uma mobilização popular somente às vésperas da demolição, depois de quase 50 anos de ruínas.

    Fiquei com uma dúvida: os proprietários eram particulares? Pois no início você menciona uma doação do terreno à Igreja.

  7. Na Parada XV, na esquina da Praça Jauarapa com a Rua Jeribatuba também havia uma pequena capela, também já demolida.

  8. Como sempre este site é ímpar, qualidade mil!

    Esses Bancos não tem jeito mesmo, aquela história de “ok, vamos fazer algo pra que a população não pense que desmerecemos antigas construções” no fim fizeram um belo “qualquer coisa” só pra saírem bem na fita. O Bradesco poderia sim ter sido mais respeitoso ao colocar mais explicações direcionadas aos turistas e moradores da cidade que poderiam passar por lá. E de maneira proveitosa o Banco deveria decorar o local com retratos reais emoldurados, uma maquete de boa qualidade representando a região e o quarteirão na época que a Igreja estava em pé, certeza que a experiência e imersão ajudariam as pessoas a serem transportadas para esse momento da história. Mas, como sempre, o que importa é derrubar e modernizar sem nenhum retorno para os moradores.

  9. Bela postagem; envolvendo muita pesquisa, muitos dados, mapas e fotos: antigas e atuais. Revejo, no detalhe de uma das fotos atuais, a bucólica guarita da entrada do quartel do Barro Branco. Voei no tempo, despertou meus dias ginasianos (longínquos anos de 1965-66, onde aos sábados jogávamos futsal na quadra do quartel). E claro, as ruínas lá estavam, encravada na confluência das avenidas Água Fria e Nova Cantareira, as ruínas abandonadas da capela de São Sebastião. Também descubro no mapa de 1924 a estrada da Cachoeira, antiga denominação da atual av. Sezefredo Fagundes; ela sim, antiga rota às Minas Gerais desde os tempos coloniais do chamado Ciclo do Ouro, onde bandeirantes paulistas protagonizaram seus feitos históricos, alguns muito contestados pela historiografia atual.

Deixe um comentário!

%d blogueiros gostam disto: