Um prédio, seus inquilinos e suas histórias

Cada prédio do centro de São Paulo tem sua história, mas a beleza de alguns nos causa uma curiosidade maior.

Este até que não é tão grande e não fica localizado nas tradicionais Boa Vista ou XV de Novembro, mas a suntuosidade e solidez que transmite esconde também uma rica história.

Vamos começar pelo nome da rua que antes de se chamar 3 de dezembro* era curiosamente conhecida como, “Trecho da Rua Boa Vista” e o número, num sistema diferente de hoje, não era 50, mas sim 14, abrigando, pelo registro mais antigo encontrado, de 1915, um depósito de bebidas. 

publicidade de 1915

Sem dúvida o centro ia se transformando e se valorizando e aquele lugar passou a merecer uma atenção dos empreendedores da época, o que resultou na construção de um novo edifício, afinal nas proximidades já existiam e continuavam a surgir prédios suntuosos refletindo o progresso e a importância que São Paulo vinha tomando.

Uma vez concluído – e tudo indica, era um prédio para aluguel – a primeira empresa a se instalar, em 1926, foi a “Lar Brasileiro – Associação de Crédito Hypothecario” que emprestava dinheiro para compra, construção ou reforma da casa própria em prestações mensais de 60 até 360 meses. Sim, tal modalidade não é uma novidade… Esta empresa acabou ficando lá por pouco tempo, pois em agosto do mesmo ano, já passou a funcionar no prédio da Sul América, recém-construído.

Na foto, a fachada do prédio

Sem registros de ocupação até 1929, temos então um novo usuário, desta vez o Banco do Café, uma instituição que existia desde 1890 sob a denominação “Banco de Crédito Rural Internacional” e que funcionava anteriormente na Rua Quintino Bocaiúva, 54 (Casa das Arcadas). Assim, em abril de 1929 eram informados os acionistas e o público em geral, que o banco passaria a funcionar em novas instalações, na Rua 3 de dezembro, 14. A inauguração oficial das novas instalações só se deu no sábado, 10 de agosto de 1929, pelo seu presidente Flaminio Levy. 

O banco era forte, tinha ações negociadas e participava ativamente do mercado, porém o “crash” da bolsa de Nova Iorque em 24 de outubro de 1929 e suas mais graves consequências sentidas até 1933 fizeram que neste mesmo ano o banco entrasse em liquidação. Esta liquidação, diferente de tantas outras, se deu de forma amigável e consensual, com créditos que ainda, em 1938, estavam à disposição de alguns acionistas.

Desta forma, já em 1934 o endereço fica vago e são noticiadas algumas esporádicas exposições de arte o que indica que o prédio de fato ficou sem uso, porém, em 1938, se tem a notícia de que lá se instalara um promissor italiano chamado Alberto Bonfiglioli (Bolonha 1897 – S. Paulo 1967) que seria o fundador do Banco Auxiliar de São Paulo S/A e proprietário dos famosos produtos alimentícios CICA. Quem não se lembra do extrato de tomate Elefante? Ele é mais antigo do que o leitor possa imaginar…

A fachada do edifício com o letreiro de Alberto Bonfiglioli na fachada (clique para ampliar)

Mas o grupo Bonfiglioli crescia e acabou se mudando, em 22 de junho de 1948, para sua nova sede na tradicional “rua dos bancos”, a Rua Boa Vista.

Mais uma vez o prédio da Rua 3 de dezembro fica vazio, mas logo, no final da década de 1940 acabou sendo ocupado por uma tradicional instituição bancária que também teve muita importância no mercado bancário brasileiro, o First National Bank of Boston, depois conhecido como Bank of Boston e finalmente como Banco de Boston. Lá o banco permaneceu até a inauguração de seu suntuoso prédio com vistas para o Anhangabaú em 1960.

A entrada do edifício já com a identificação do Bank of Boston

Por ser um endereço importante na São Paulo da época, outro banco viria ocupar o prédio, desta vez o Banco do Estado de São Paulo, BANESPA que lá manteve uma agência pelo menos até o início da década de 1980.

O centro mudou muito, as organizações bancárias também mudaram e hoje pouco ou nada de importante do setor bancário se encontra no centro da cidade. 

Neste prédio, cheio de histórias, sobraram, nas suas colunas, apenas as marcas das antigas placas de bronze que orgulhosamente indicavam as atividades lá exercidas. 

Hoje resta uma placa plástica indicando o funcionamento de um restaurante por quilo, um triste retrato das transformações pelo que o centro de São Paulo vem passando e que, obviamente não serve refeições preparadas com produtos da CICA. 

detalhe da fachada do edifício (clique para ampliar)

BIBLIOGRAFIA
* A Gazeta – edição de 5/12/1917
* Diário Nacional – edição de 10/8/1929
* Diário da Noite – edição de 15/8/1929
* Correio Paulistano – edição de 31/12/1938
* O Estado de S.Paulo – edições de 30/5/1927, 6/6/1928, 2/4/1929, 18/8/1933, 11/01/1934, 289/12/1941, 12/12/1946 e 27/10/1947
* Enciclopédia da indústria Brasileira. Ed. Brasiliense, 1959 – 1º. Vol. Pág.256 – Col. José Vignoli
* Cinquant’anni  di  lavoro degli  italiani  in  Brasile,  Societá  Editrice  Italiana, S. Paolo, Brasile, 1937 – Col. José Vignoli
* Il Moscone – 1938 Ed. 506
* “Eis São Paulo” – Editora Monumento S.A., 1954 – Col. José Vignoli

NOTA *
A Rua 3 de dezembro teve sua denominação determinada por Ato No. 2.264 de 24 de dezembro de 1923. Anteriormente era conhecida como “Trecho da Rua Boa Vista”. “3 de dezembro é a data da publicação do “Manifesto Republicano” lançado em Itú no primeiro número do jornal “A República” dirigido por Quintino Bocaiuva. Fonte PMSP- As Letras Hipotecárias emitidas pelo Banco do Café nos valores de 100 mil Réis e 500 mil Réis representavam dívida do banco para com os investidores que recebiam juros de 7% ao ano em pagamentos semestrais (janeiro e julho). Impressão da American Bank Note Company. De fato, nunca foram lançadas.

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10 respostas

  1. Bonfiglioli, um cidadao da minha querida cidade Bolonha!
    Bonfiglioli em Bolonha ainda produzem redutores para motores eletricos.

  2. Um prédio muito bonito, pena que não está sendo usado adequadamente.

  3. Colunas coríntias frontais.  Muito bonito o conjunto arquitetônico.  E o que os Americanos chamariam de “Greek Revival”  , porém mistura um pouco de Italianate.

    Sobre o Banco de Boston ( Bank of Boston, NA ).  Foi adquirido pelo então Fleet Bank, NA de Providence, RI. O qual anteriormente adquiriu o falido Bank of New England, o Shawmut Bank, o Bay Bank, New Bedford Institution of Savings ( este banco cresceu em funcao das fortunas de mercadores no período de caca as baleias ). 

    O Executivo principal do Fleet, Chad Gifford,  não era lá muito bem quisto pela comunidade local ( até amigos passaram pelo facão).  Eventualmente, o Fleet sucumbiu sob a aquisicao do Bank of America, sediado em Charlotte, NC.   

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