Um dos bairros que eu mais gosto de passear em São Paulo é Santa Cecília, na região central da capital paulista. O bairro consegue ser uma mistura equilibrada do centrão com Higienópolis, misturando pessoas dos mais diferentes nichos e construções antigas e modernas em um certo equilíbrio, com casas, casarões, palacetes, prédios e, não poderia deixar de mencionar, a Santa Casa de São Paulo. E é por lá que encontrei essas duas preciosidades:

Localizadas respectivamente nos números 222 e 232 da rua Martinico Prado, esses sobrados são duas das mais charmosas construções desta rua de Santa Cecília, que é bem conhecida por ser a mesma onde está localizada o tradicional e concorrido restaurante italiano Jardim de Napoli.
Apesar de serem duas casas de estilos arquitetônicos bem diferentes entre si, são residências relativamente contemporâneas, sendo ambas construídas entre as décadas de 1910 e 1920. Na década seguinte, de 1930, ambas já constavam em listas telefônicas da cidade de São Paulo.

A residência de número 222 (o imóvel à direita na foto que abre este artigo) foi residência de um imigrante italiano chamado Victor Debellis. Pesquisando sobre este pessoa encontro algumas informações sobre ele ser um comerciante estabelecido no bairro da Liberdade, região central de São Paulo, já nos primeiros anos da década de 1920.
Alguns anos mais tarde ainda na mesma década, precisamente em 1928, surgem nos principais jornais de São Paulo, informes anunciando a falência dos negócios de Victor Debellis, tal qual o apresentado este recorte a seguir:

Posteriormente a esses anúncios veiculados na imprensa, o nome de Victor Debellis desapareceu dos jornais. O número de telefone da residência também some das listas posteriores a de 1938.
Na década de 1940 o imóvel troca de moradores e passa a ser residência da família Assis, composta pelo industrial Tancredo Castro Assis e sua esposa, Anne Madeleine Zickwolff Assis, de origem belga. Posteriormente, em meados da década de 1960 o imóvel passa a novos ocupantes, sendo de uso comercial, com o telefone presente na Lista de Assinantes de 1961, apresentado no recorte abaixo:

O número indicado é de uma empresa chamado Chapéus Erna, que foi bastante conhecida em São Paulo entre as décadas de 1960 e 1990. Ao que indica o endereço servia ou de showroom ou escritório central da empresa, já que a fábrica ficava em outra região da cidade.
Abaixo mais duas imagens da residência do número 222, em estilo eclético com alguns traços que remetem ao art déco, e outra de sua vizinha do número 232:



Enquanto isso a residência ao lado, de número 232, não encontrei nenhuma informação sobre os proprietários originais e nem dados telefônicos, não havendo linha na residência nos anos de 1937, 1938, 1961 e 1964. Contudo, encontrei algo curioso. Em 1954 um morador da casa foi detido, acusado de furtar ampolas de morfina de um hospital e revendê-las a viciados.
Abaixo o recorte sobre o caso, veiculado no jornal santista “A Tribuna”. Curiosamente ele foi levado para o presídio da rua do Hipódromo, cuja história já contei por aqui.

Tal qual seu vizinho, o sobrado do número 232 também é tombado como patrimônio histórico de São Paulo e encontra-se em excelente estado de conservação. Atualmente neste endereço funciona uma entidade chamada SIPEB (Associação de Instrução Popular e Beneficência), enquanto no número 222 funciona o excelente espaço de arte independente Casa Vela.