O Palacete da Praça Roosevelt

Quem já foi alguma vez até a Praça Franklin Roosevelt, na região central de São Paulo, possivelmente já notou um belo palacete, infelizmente em ruínas, escondido atrás de um muro. Caso você nunca tenha ido até lá, esta é a imagem que você veria:

Destelhado, com rachaduras e muitas escoras para que algumas partes da estrutura não desabem, o palacete parece escondido de vergonha pela situação lamentável em que se encontra.

Nele as únicas coisas vivas são das plantas que crescem junto às fissuras de sua fachada e o colorido do grafite, onde a frase em destaque é: “Estudar e aprender é o melhor caminho”. A mensagem até soa irônica, partindo do fato de que este imóvel foi por muitas décadas parte de uma importante instituição de ensino.

Mas para entender melhor, vamos conhecer a história desta incrível residência desde o início.

UM ITALIANO EM SÃO PAULO

Nascido em Salerno, Itália, em 1871, Silvério Ignarra Sobrinho é destes muitos imigrantes italianos que vieram para o Brasil em busca de melhores condições de vida e fez fortuna no país, gerando não só riqueza como muitos empregos. Chegou ainda jovem e em 1892 se casou com Maria Augusta de Campos Barros, na cidade mineira de São Lourenço.

Morador da capital paulista ao menos desde a última década do século 19, Silvério fundou junto de outros investidores, na virada para o século 20, a Companhia Paulista de Eletricidade. Essa empresa foi responsável por levar a energia elétrica, então uma novidade, para diversos municípios paulistas, com destaque para São Carlos e Limeira.

Além de atuar no campo de energia Ignarra ficou conhecido também pelo grande leque de empresas que teve, como fábrica de móveis, de geladeiras e até cinemas.

Apaixonado pelo Brasil, casado com uma brasileira e pai de 4 filhos em 1939 renunciou à cidadania italiana ao receber a naturalização como cidadão brasileiro. Faleceu em São Carlos, durante viagem de trabalho em 1 de março de 1946, aos 74 anos.

UM PALACETE PARA UM ITALIANO

As plantas do projeto do palacete, autoria de Julio Micheli

No início do século 20, já devidamente estabelecido como um empresário bem sucedido, Silvério decide comprar um terreno para então encomendar um projeto para sua nova residência. O local escolhido é a então Rua Olinda, atual João Guimarães Rosa, região que começava a se valorizar pois estava sendo construída ali a nova sede da escola alemã, à época chamada Deutsche Schule.

Para o projeto arquitetônico e construção Silvério contrata o arquiteto ítalo-brasileiro Julio Micheli em 1912, que desenvolve e executa. Micheli é famoso por outras obras que executou pela capital paulista, como o Viaduto Santa Ifigênia e o Cotonifício Paulista, entre outros.

Com a planta aprovada pela prefeitura em abril de 1912, a construção iniciou-se imediatamente sendo concluída no ano seguinte, 1913. Curiosamente o mesmo em que iniciam as atividades do novo colégio alemão, seu vizinho.

O palacete em fotografia da década de 1930

A luxuosa residência, uma das poucas catalogadas deste renomado arquiteto era moderna, ampla e confortável, como muitos casarões e palacetes da elite paulistana da época, de endereços como avenida Paulista e Higienópolis.

Possuía originalmente dois terraços, duas salas, sala de jantar, gabinete (escritório), cinco quartos, dois banheiros, cozinha, copa e dispensa, além de um vestíbulo. Na área externa, ao fundo, tinha garagem, lavanderia e uma dormitório funcional. Na frente da residência, no canto do jardim, existia também um coreto.

Silvério Ignarra Sobrinho reside no imóvel de 1913 até 1929. É neste ano que a vizinha Deutsche Schule inicia seu primeiro projeto de expansão, adquirindo ao menos dois imóveis vizinhos, entre eles o palacete. O valor da negociação foi por volta de 330 contos de réis.

UM NOVO PROPRIETÁRIO

A então Rua Olinda em 1958, com destaque para o edifício escolar e o palacete à esquerda, que servia de anexo

Agora nas mãos de um novo dono o palacete é reformado e adaptado para suas novas funções, agora como um anexo do colégio alemão. No espaço são desenvolvidas diversas atividades entre elas sala de professores e salas de aula. É naquele espaço que se instala, entre outras atividades, os cursos de datilografia.

Em franco crescimento a escola é reconhecida oficialmente pelo governo brasileiro em 1935. O reconhecimento oficial tardio não era um problema, já que a entidade já estava consagrada como uma das principais instituições de ensino de São Paulo.

A entidade passa por mudanças em 1943 quando é forçada a mudar de nome e abandonar o ensino da língua alemã. É neste momento que ela passa a ser chamada de Colégio Visconde de Porto Seguro, em homenagem ao diplomata teuto-brasileiro Francisco Adolfo de Varnhagen.

Isso posto, voltemos a história do palacete. O colégio terá um artigo dedicado exclusivamente a ele em breve.

O INÍCIO DA DECADÊNCIA

O palacete em fotografia atual: abandono e descaso

Em outubro de 1974 uma nova fase de expansão leva o colégio a mudar de endereço radicalmente, saindo da região central de São Paulo e mudando-se para o bairro do Morumbi.

A saída da escola da região foi uma boa notícia para o governo paulista, que buscava um local para transferir a renomada Escola Caetano de Campos, localizada na praça da República, devido aos planos de expansão do metrô que originalmente previa a demolição do edifício escolar. Assim o Governo do Estado de São Paulo adquiriu todo o complexo pertencente ao Colégio Visconde de Porto Seguro, o que incluía o palacete que ainda estava em bom estado de conservação.

Apesar da demolição na praça da República não ter acontecido a escola é transferida de lá, sendo divida em duas, uma ficando onde era a escola alemã e a outra no bairro da Aclimação. A unidade do centro, na Praça Roosevelt, passa a funcionar a partir do ano letivo de 1975.

Abandonado pelo governo paulista, palacete está mantido escorado

Uma vez nas mãos do Governo do Estado de São Paulo o palacete fica fora dos planos para a escola estadual, também não existindo nenhum outro plano de ocupação para ele, ficando vazio. Desocupado começa a ficar esquecido e entra em um lento e incômodo processo de deterioração.

Ao longo de pouco mais de quatro décadas em total negligência, o cenário do que outrora foi uma luxuosa moradia da elite paulistana se transfomou em uma construção em ruínas. Primeiro caiu o forro, depois o madeiramento e o telhado, deixando-o desprotegido de intempéries.

O governo estadual nunca se mexeu para fazer qualquer iniciativa de preservação, talvez torcendo por seu desabamento, o que liberaria o terreno para ser negociado com o mercado imobiliário, em uma região cada vez mais valorizada e carente de terrenos com potencial construtivo à disposição. Apesar das notícias ruins o palacete é definitivamente tombado como patrimônio histórico paulista, pelo Condephaat, em 2022, junto com a escola e mais um outro anexo.

A situação do velho palacete é delicada, como é possível conferir nas fotografias da galeria abaixo (clique para ampliar as imagens).

SÃO PAULO ANTIGA SE MOBILIZA

Cansado de observar este palacete em total abandono e receoso por seu desabamento, o jornalista Douglas Nascimento, autor deste artigo e fundador do Instituto São Paulo Antiga, decide tomar providências para que o imóvel seja restaurado e tenha um novo uso.

Douglas Nascimento e a deputada Ediane Maria (PSOL) em visita ao local.

É assim que procuro a deputada estadual Ediane Maria (PSOL) com o apelo de que ela me receba e atenda meu pedido para tomar providências em prol deste rico patrimônio paulistano. Ela não só me recebeu como rapidamente se prontificou em ajudar a recuperar o palacete, mobilizando seus assessoria.

Rapidamente a deputada entrou com uma ação popular contra o governo estadual, exigindo:
1 – A restauração do palacete e a recuperação de todo o seu terreno;
2 – Que seja aberto um diálogo com a população de como esse imóvel, uma vez restaurado possa ser ocupado.

A ação está em andamento e a mobilização já está colocando moradores, trabalhadores e frequentadores da região em ampla discussão sobre seu uso futuro. A conversa está sendo levada adiante, em especial, pelo Coletivo Ocupa Roosevelt. Há também um abaixo assinado que qualquer pessoa pode assinar para ajudar neste processo. Faça parte dessa luta e clique aqui para assinar.

Tenho certeza de que muito em breve veremos o palacete restaurado e sendo útil novamente para os paulistanos. Abaixo uma reconstrução que fiz, através de inteligência artificial, de como ele poderá ficar.

NOTAS DO ARTIGO:

*1 – Nos dados genealógicos de Silvério Ignarra Sobrinho, hospedado no portal Family Search, é apontado o ano de falecimento como 1945, no entanto o correto é realmente 1946.

*2 – Seu nome também é grafado como Giulio Micheli.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

* O Estado de S.Paulo – edição de 19/4/1895
* O Estado de S.Paulo – edição de 2/3/1946
* Correio Paulistano – edição de 9/7/1910
* Site do Colégio Visconde de Porto Seguro – link visitado em 3/11/2025
* Diário Oficial do Estado de São Paulo – edição de 18/3/2022
* Family Search – link visitado em 3/11/2025

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Respostas de 18

  1. Triste ver um patrimônio desses ruir, o nosso governador tem que fazer algo por esse local.
    Quem sabe uma praça em volta, uma Secretária do Governo Estadual ou mesmo Municipal.
    Mas não deixem acabar com esse tesouro.

  2. acredito que o estado deveria vender o patrimônio a iniciativa privada para reforma e exploração comercial isentando de IPTU e alguns tributos como incentivo. o estado não deve ficar sustentando problemas como este. em muitos países desenvolvidos funcionam exatamente assim, o patrimônio histórico e de preservação esta na mão da iniciativa privada sendo preservada e explorada comercialmente. este patrimônio na mão do estado so da despesa e traz custos com corrupção e outros problemas. menos ESTADO E MAIS INICIATIVA PRIVADA E ASSIM QUE O PAIS MELHORA.
    INCLUSIVE O PSOL DEVERIA FAZER UMA LEI DE ISENÇÃO DE IPTU PARA TODOS OS IMÓVEIS TOMBADOS DE PROPRIEDADE PRIVADA PARA QUE POSSAM MANTER O PATRIMÔNIO EM CONDIÇÕES.

    1. Um país sem memória,prefeito irresponsáveism e ignorantes,não tem noção que uma cidade conservada é limpa, traz resultado para todos os cidadãos,em qualquer cidade fora do Brasil,o centro é onde se encontra os melhores restaurantes cafés,onde o visitantes procura ficar,com tranquilidade,aqui o desejo é a visão dos governos é a degradação total.

    2. Meus parabéns, a sugestão e a mais inteligente que já ouvi, nada como a iniciativa privada aliado a incentivos do estado para se manter a memória cultural da nossa história.

  3. Esse palacete menor foi a sede do Colégio Comercial Frederico Ozanam, anteriormente chamado de Escola Técnica de Comércio Frederico Ozanam, que funcionou a partir de meados da década de 50 do século passado nesse endereço.
    Estudei nesse prédio, onde fiz o curso de Admissão e o Ginásio Comercial.
    Posteriormente, ao final da década de 60, mudou-se para a Rua Augusta.
    Durante algum tempo, se não me engano, essa linda construção abrigou um órgão do governo do Estado.

  4. Fico muitíssimo feliz e tranquila com essas medidas tão importantes e tão necessárias para uma permanência da CULTURA e das restaurações desses belíssimos e tão suntuosos imóveis CLÁSSICOS da cidade de São Paulo!! Precisa-se mais sensibilidade do GOVERNO e da PREFEITURA para restaurações dessas preciocidades da ARQUITETURA CLÁSSICA!! Belíssimos casarões antigos, com detalhes riquíssimos, são simplesmente esquecidos no meio desses “arranha-céus” marmorizados e frios!!! Eu AMO restaurações!! O BRASIL precisa se aprimorar e se “educar”, para respeitarem TODAS essas CONSTRUÇÕES ANTIGAS belíssimas e arrojadas que existem em várias cidades deste PAÍS!! E tbm respeitar e conservar esses belíssimos e elegantes JARDINS redor da propriedade!!!! A NATUREZA ENOBRECE E EMBELEZA QUAISQUER AMBIENTE!!! Obrigada!

  5. Amei a matéria. É sempre bom saber que ainda temos pessoas capazes de olhar e ver quantas maravilhas temos nesta cidade e que devem ser preservadas.
    Tenho 83 anos e passeio à pé pela cidade só para ver estas belezas sempre.
    Com relação a este casarão estive recentemente lá e fiquei inconformada.
    Quando em 1974, trabalhado no CAETANO DE CAMPOS, e, informada do incrível processo para derrubar o MAGESTOSO PRÉDIO e a PRAÇA da REPÚBLICA, nos reunimos e publicamente conseguimos impedir tal destruição.
    Sou guardiã do documento original que foi entregue diretamente ao PRESIDENTE da REPÚBLICA em 1975 que abraçou nossa causa e nos ajudou a preservar estas duas maravilhas.
    Estou à disposição para todas as informações que se fizerem necessárias.

  6. Reformas o casarao palacete russevel e bom peservar o patrimonios antingos casas casaroes palacetes castelos historias de sao paulo o banco bovespa brasil unesco reformar casa casarao antidos patrimonios publicos e particular

  7. Parabéns por sua iniciativa. Espero que seja possível recuperar este patrimônio da cidade de São Paulo . Fico contente também, por ver a nobre deputada tomando providências. Vamos acompanhar.

  8. Parabéns pela iniciativa, Douglas, e TB pelo seu site. Espero que o governo do Estado (com esse governador tenho sérias dúvidas) arregace as mangas e a recuperação do palacete se concretize. Abraço, Ivo Branco, cjneasta.

  9. Pessoas como você é que fazem a diferença numa cidade. Não ficam apenas na crítica ou no lamento e como estão envolvidas com os problemas coletivos trazem novas ideias para pensar a cidade. Parabéns pelo seu trabalho.

  10. Maravilhosa reportagem, sempre é bom saber sobre a história de São Paulo, seus moradores que tanto lutaram para que essa cidade crescesse. Infelizmente em ruínas como muitas outras obras magníficas.
    Não reformaria, usaria o dinheiro para reformar, aparelhar melhor os hospitais de São Paulo que estão depreciados.
    A história foi linda, as pessoas já passaram e aproveitaram a grandeza e o luxo.
    Vamos melhorar nossos hospitais com essa verba deputada. Mais dignidade na nossa saúde, infelizmente quem está doente em um corredor de hospital sem condições mínimas de cuidado, não vai conseguir se beneficiar de uma obra linda e cara.
    Primeiro a saúde com dignidade depois sim aproveitar as belezas que a nossa cidade oferece.
    Não adianta pessoa doentes com espaços lindos. Mais uma vez parabéns pela reportagem.

  11. Olá,
    Douglas, para béns pela iniciativa. Apoiado e assinado! Vou compartilhar com pessoas que lá estudaram.

    Sobre Julio Micheli, uma pequena contribuição:

    “em São Paulo, atuou como arquiteto, engenheiro e urbanista e deixou muitas construções importantes para São Paulo. Como urbanista, contando como apoio da Seção Municipal de Engenharia, foi responsável pelo primeiro plano embrionário de urbanização da cidade. Ampliou e organizou as Ruas Libero Badaró, Amaral Gurgel, 25 de março, Avenida Tiradentes, a Avenida Anhangabaú, etc. e realizou o calçamento de um sem número de ruas, muitas delas bastante conhecidas de todos nós, como as Ruas Consolação, General Jardim, D. Veridiana, Galvão Bueno, São João, Conselheiro Carrão e Major Diogo, etc.
    Em junho de1905, Micheli realizou obras na Avenida Paulista, entre as atuais Avenida Brigadeiro Luís Antônio até a Praça Amadeu Amaral, inclusive onde era o terreno de sua casa.

    Abraços,

    Luciana

  12. Que tristeza , estudei na escola estadual de primeiro e segundo grau Caetano de Campos nas décadas de 80 a 90, conheci esse palacete por dentro, fazíamos teatro ali, o saudoso diretor Lucas Pardo, sempre falava em reformar e entregar aos alunos um lugar seguro e descente, mas a prefeitura nunca se interessou. Triste ver essa decadência.

  13. acredito que o estado tem prioridades como saúde, educação e segurança, portando deveria ser vendido todos os bens históricos e de preservação para iniciativa privada, tudo que esta nas mãos da iniciativa privada funcionam e não trás despesas para os governos e sim receitas. agora não sei se a visão do PSOL e a mesma, sempre em votações que são para melhorar eles são contra..

  14. Curiosidade nessa escola estudou Conde: Chiquinho Matarazzo entre outras personalidades da Elite Paulistana

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