Pastifício Fratelli Secchi

A HISTÓRIA DO MACARRÃO EM SÃO PAULO

Uma das cenas mais tradicionais de São Paulo é a famosa “macarronada com a família aos domingos”, mas o que poucos sabem é que muito dessa tradição nós devemos a três irmãos italianos que criaram uma das mais tradicionais empresas para a fabricação de massas da cidade.

Fundado em 1896, no histórico bairro do Brás, o Pastifício Fratelli Secchi (Pastifício Irmãos Secchi) marcou época em São Paulo como um dos estabelecimentos comerciais mais premiados e também mais bonitos da cidade.

Nascidos em Concordia Sulla Secchia*, cidade pertencente à província de Modena (região da Emilia-Romagna), os irmãos Enrico e Roberto Secchi começaram sua caminhada em terras brasileiras em 1875 quando Enrico Secchi, então com 34 anos, imigrou para o Brasil com um grupo de 50 famílias camponesas oriundas de sua cidade.

Após passarem por cidades do interior do Rio de Janeiro e do interior de São Paulo, foi no ano de 1892 que Enrico e Roberto Secchi tomaram a mesma decisão que a maioria dos imigrantes italianos e se mudaram para a capital paulista, pois a cidade era o sinônimo de prosperidade profissional no Brasil.

Foi nessa mesma época que chegou ao país Attilio Secchi, o caçula da família, a partir dai os três irmãos começaram a importar produtos alimentícios para serem revendidos em São Paulo. 

Naquele tempo as massas como espaguete, capelleti, torteloni, fettuccine e nhoque eram, em sua maioria, importadas de cidades italianas como Nervi di Sturla, Gragano, Quinto Al Mare e Torre Annuziatta. Em São Paulo existiam apenas duas fábrica de massas: Massas Christofani (fundada em 1878), situada na Rua Monsenhor Andrade, e a Indústria – Fábrica a Vapor de Massas Alimentícias (fundada em 1892), na Rua do Gasômetro, ambos no bairro do Brás.

Foi então, em 1896, que Enrico, Attilio e Roberto Secchi também resolveram produzir “macarrão” em terras paulistas e deram vida àquela que seria mais famosa fábrica de massas da primeira metade do século XX.

A empresa começou em um imóvel simples, situado na Rua Miller, com poucas máquinas e apenas 20 funcionários entre homens, mulheres e crianças. A capacidade de produção chegava a 900 kg de massa por dia. Este número pode até parecer alto, mas não era. Os irmãos Secchi recebiam inúmeros pedidos de mercados, armazéns e restaurantes paulistanos, o que fazia da cifra citada insuficiente para abastecer a demanda da capital.

Com os negócios prosperando e a necessidade de atender os muitos clientes, eles resolveram construir um novo local para abrigar sua fábrica de massas. Optaram por manter o empreendimento no mesmo bairro e na mesma rua que tanto gostavam, apenas levando a fábrica para a esquina da localidade. Dessa maneira nasceu um dos mais belos edifícios da cidade de São Paulo.

Situado bem de frente para o Largo da Concórdia, bem no cotovelo das ruas Miller e Ministro Firmino Whitaker, o novo Pastifício Fratelli Secchi foi apresentado para o público em abril de 1904.

O novíssimo edifício do Pastifício Fratelli Secchi, inaugurado em 1904

O edifício ocupava uma área de 1.200 metros quadrados e recebeu o mais moderno maquinário da época: dispunha de três máquinas horizontais para as massas cortadas (modelos novos); dois gradmole, uma moderníssima batedeira industrial e quatro prensas verticais para a fabricação das massas compridas (macarrão). A produção da fábrica foi grandemente aumentada, atingindo nos primeiros meses a fabricação diária de 1.800 a 2.000 kg de massas em 40 formatos diferentes. 

A solenidade de inauguração contou com a presença do Dr. Bento Bueno, secretário de Interior e Justiça; Luiz Piza, secretário de Agricultura; Gherardo Pio de Savoia, cônsul italiano em São Paulo; além de vários industriais importantes da cidade como os condes Francisco Matarazzo, Pinotti Gamba, Giuseppe Puglisi e Rodolfo Crespi, entre outros.

PREMIAÇÕES:

Desde sua fundação e mais ainda após a inauguração do imponente edifício, o Pastifício Secchi era reconhecido como o melhor fabricante de massas do Brasil. Para isso a rigidez na higiene e nas normas de segurança do trabalho deram aos irmãos vários prêmios importantes:

Vitrine de produtos Fratelli Secchi na exposição de Milão em 1906

Medalha de bronze na Exposição Nacional Italiana (Turim 1898); Primeiro lugar na Exposição de São Paulo (1902); Grande Prêmio em Saint Louis (EUA) na Exposição Universal (1904); Diploma de honra na Exposição Internacional de Milão (1906); Grande Prêmio na Exposição Nacional do Rio de Janeiro (1908); Primeiro prêmio na Exposição de Higiene do Rio de Janeiro (1909).

DÉCADA DE 1910:

Os irmãos Secchi realizaram uma nova reforma em seu pastifício no ano de 1910. Com a aquisição de pequenos imóveis vizinhos, o prédio teve sua área aumentada para 2.400 metros quadrados.

Nesta segunda fase a empresa fabricava 66 tipos de massa segundo o anuário industrial de 1910: “O pessoal operário é composto de 60 pessoas, entre homens e crianças, com um ordenado mensal na média de 200 réis os adultos e 100 réis as crianças. A produção diária atual é de 5.000 kg de massas, e é vendida diretamente pelos fabricantes em todo o Brasil. Todos os operários estão seguros contra os acidentes do trabalho”.

Vista dos fundos da fábrica

Utilizando a farinha produzida pelos moinhos das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo, a excelência das massas produzidas pelos irmãos Secchi fizeram tanto sucesso que também foram vendidas para Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Bahia e Pernambuco. Fora do Brasil também fizeram sucesso sendo fornecedores de massas para Companhia Italiana e Companhia Francesa de Navegação. 

Dentro do pastifício também eram fabricadas as caixas, em estilo europeu, que embalavam as encomendas das massas vendidas em todo o país.

A direção técnica da fábrica era regida por Roberto e Attilio Secchi, ficando a cargo de Enrico os demais serviços de superintendência dos negócios do estabelecimento. Foi nesta mesma época que os três irmãos tornaram-se importadores e revendedores de excelentes vinhos lambrusco italianos.

AS MUDANÇAS NAS DÉCADAS DE 1920, 1930 e 1940:

A primeira grande mudança no comando do pastifício aconteceu em 1921, quando Enrico Secchi, então com 70 anos, resolveu se aposentar e deixar o pastifício sob o comando dos irmãos. 

Em 1925 morre Attilio Secchi, o mais novo dos três irmãos empreendedores. Dessa maneira seu filho Henrique (Enrico) Secchi Sobrinho, no início da vida profissional, assumiu seu lugar. Roberto Secchi faleceu no ano de 1928, e em março de 1931 morreu Enrico Secchi.

Na galeria abaixo: a primeira imagem mostra uma das áreas da fábrica, na seguinte funcionários e proprietários posam para a fotografia.

O pastifício ficou apenas com Henrique Secchi Sobrinho no comando, já que Enrico Secchi (seu tio) só teve filhas (elas acabaram se casando com jovens que se tornaram empresários de outros ramos do empreendedorismo paulistano).

Mesmo com as mudanças forçadas pela lei natural da vida, o Pastifício Secchi continuou como um dos mais importantes durante os anos 1930 e 1940. A influência e o respeito que o sobrenome Secchi alcançou no mercado era tão grande que Henrique Secchi Sobrinho foi um dos fundadores do Sindicato das Indústrias de Massas Alimentícias e Biscoitos, no ano de 1941, e depois foi presidente da entidade já no final da década.

DÉCADA DE 1950 – O FIM

Apesar da fama e da influência do sobrenome Secchi no cenário das empresas de produtos alimentícios, o lendário pastifício passava por dificuldades financeiras e administrativas desde o meio da década de 1940. A primeira metade da década de 1950 viu o fim da empresa.

Noticiado pelo jornal Estado de São Paulo, em outubro de 1954, a Justiça de São Paulo decretou a falência do Pastifício Secchi após uma série de cobranças judiciais de funcionários com salários atrasados e também da cobrança de um empréstimo feito junto ao Banco do Estado que não foi pago. Aliás, foi o próprio banco que entrou com o pedido de falência da empresa.

O QUE EXISTE NO LUGAR HOJE EM DIA ?

Por Douglas Nascimento

O suntuoso edifício do Pastifício Fratelli Secchi era apenas mais uma das belas construções que existiam ao redor do Largo da Concórdia, uma área do Brás sempre muito ativa e movimentada. Por ali existiam cinemas, teatros, hotéis e, claro, várias fábricas como as da Matarazzo, Moinho Ferla etc.

E se o Largo da Concórdia continua agitado e movimentado até os dias atuais o mesmo não se pode falar das belas construções que existiam por ali. A exceção feita pela Estação Brás (ex do Norte e Roosevelt) e pelo Cine Oberdan, quase nada sobreviveu, nem mesmo o próprio pastifício.

O mesmo lugar nos dias de hoje

No exato lugar foi construído na segunda metade da década de 1950 este edifício residencial, cujas dimensões são até bem próximas àquela que o pastifício possuía. Inclusive a fachada central da do prédio bate exatamente com o centro da fachada da extinta construção.

Isso nos dá duas conclusões: ou o prédio fabril foi colocado abaixo e o construtor do novo teve o cuidado de erguer algo muito similar, ou o prédio antigo serviu de base para o novo, ou seja, este edifício é uma reforma do antigo Fratelli Secchi.

Não conseguimos referências para vaticinar em 100% nenhuma das duas teorias, portanto vamos torcer que algum descendente da família Secchi ou do construtor do prédio nos escreva com alguma luz sobre o caso.

SOBRE ENRICO SECCHI:

Como dissemos no início desta matéria, a família Secchi era originária da cidade Concordia Sulla Secchia, pertencente à província de Modena, na região da Emilia-Romagna. Eles eram quatro irmãos, porém um, Riccardo Secchi, não emigrou para o Brasil.

Enrico Secchi

Enrico Secchi foi – sem sombra de dúvida – o mais famoso dos três que vieram para São Paulo.

Nascido em 1851, Enrico Secchi era um homem com grande visão comercial, mas também um apaixonado pela alta cultura, pela comunidade italiana e pela cidade de São Paulo (em especial o bairro do Brás). Foi casado com Angela Vilches Secchi e pai de quatro filhas.

Muito querido em toda capital, ele viveu até os 80 anos quando faleceu em outubro de 1931 e foi enterrado no Cemitério da Quarta Parada. 

Podemos listar em sua vida:

* Líder de uma pequena comunidade italiana na cidade de Porto Real, ainda nos tempos do Brasil Império, na divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro

* Conselheiro da Câmara de Comércio Italiana em SP

* Condecorado como “Cavaliere” pela (então) monarquia italiana

* Doador e depois tesoureiro do Hospital Italiano Umberto I

* Presidente do Circolo Italiano em 1923, sendo o responsável pela compra do imóvel na Avenida São Luiz (derrubado nos anos 1960 para dar lugar ao atual Edifício Itália) e criador da biblioteca do Circolo

* Um dos primeiros doadores para a fundação do Colégio Dante Alighieri

* Bem feitor da “Casa de Auxílio do Brás”, entidade que prestava ajuda material e de documentos para famílias mais necessitadas do bairro

* Membro da diretoria da primeira Sociedade de Previdência Privada de São Paulo, criada em 1924

Nota *: Nota: Concordia Sulla Secchia, além de ser a cidade da família Secchi, é também a cidade da família Ragazzi. Os Ragazzi chegaram ao estado de São Paulo no final do século 19 com Aldeciso Silvestrini Ragazzi, bisavô do autor deste texto.

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Bibliografia:

O Correio de S.Paulo – Edição 1243 (1897) pp 2
O Correio de S.Paulo – Edição 1305 (1902) pp 10
Correio Paulistano – Edição de 4/5/1903 pp 2
Correio Paulistano – Edição de 5/4/1904 pp 2
A indústria no Estado de São Paulo em 1901 – Júnior, Antônio F. Bandeira
Os Italianos no Brasil – Ceni, Franco
Do outro lado do Atlântico – Trento, Angelo
Breno Lerner, História e Gastronomia – Link visitado em 12/1/2022

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7 respostas

  1. Muito interessante o histórico! Os imigrantes italianos foram os precursores da industrialização em SP!

  2. Massas Da Roz em Leme-SP iniciou a produção em 1901 e continua em atividade até hoje.

  3. A comunidade italiana sempre a frente pioneira da industrialização de São Paulo, é uma pena que essa indústria de grande sucesso na época, não tenha resistido !

  4. Similar? Nossa, detonou tudo. Um horror. Era tão lindo. Uma pena as pessoas acharem q tudo “velho” deve ser destruído e colocado um quadrado no lugar

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