Cine Piratininga

Houve uma época em que ir ao cinema era um acontecimento muito diferente do que é hoje. Quando a TV ainda não existia ou ainda era um artigo de luxo nas residências e aparelhos de DVD ou mesmo streaming eram coisas de ficção-cientí­fica, as salas de cinema eram a grande diversão.

Pessoas frequentavam cinema para assistir desenhos, episódios do Tarzan e, claro, longa metragens. E foi na primeira metade do século XX que São Paulo teve o auge de suas salas de cinema, onde especialmente em bairros populares como o Brás existiam inúmeras salas de cinema, as quais atualmente não resta mais nenhuma funcionando. E é sobre uma destas salas que falarei, o Cine Piratininga:

Cine Piratininga na década de 1940 (clique para ampliar)

Ao se falar de Cine Piratininga é preciso antes explicar que no mesmo quarteirão houveram em períodos distintos duas salas com esta denominação. A primeira, inaugurada em 1910, ficava na rua com o mesmo nome e foi criada por Fernando Taddeo um heróico desbravador de salas de cinema em São Paulo e não durou tanto tempo por inúmeros problemas estruturais. A outra sala, destaque deste artigo, está na Avenida Rangel Pestana.

Construído na década de 1940 com projeto arquitetônico do fantástico Rino Levi, o cinema fica sob edifício homônimo e ocupa um local que outrora foram dois outros cinemas menores, Mafalda e Brás-Bijou. Era uma sala gigantesca e luxuosa que orgulhava-se poder acomodar com conforto cerca de 5000 mil pessoas o que fazia dele o maior cinema do Brasil e com toda certeza um dos maiores da América Latina.

O Cine Piratininga foi um local onde muitos dos moradores do Brás frequentavam quase todos os finais de semana e não era raro estar completamente lotado.

Ao redor do cinema um fabuloso comércio se sustentava com lojas, padarias, teatros, hotéis e hospedarias, além da estação de trem do Brás (ex-Roosevelt) que é bastante próxima. O Piratininga marcou sua época, fez história, e como quase tudo que é do passado paulistano foi sendo esquecido até desaparecer por completo.

Década de 70 já como estacionamento

As atividades do Cine Piratininga encerraram em meados da década de 1970, quando já em franco processo de decadência a sala não atraia espectadores. Em decorrência virou um estacionamento que existe até hoje.

Que a decadência do Brás e seu entorno foi um processo fatal e irreversí­vel todos sabemos, as razões são muitas e os responsáveis também, mas algo poderia ser feito para preservar o antigo patrimônio histórico da região que é riquí­ssimo e que está, no pouco que ainda existe, caindo aos pedaços.

Em 2005 organizei um passeio fotográfico pelo Brás e Belenzinho que partia da Vila Maria Zélia e terminava na feira da Cantuta – conhecida também como feira boliviana – no Canindé e, quase no final do passeio, chegamos ao que restava do cine Piratininga.

Pedi ao funcionário da empresa de estacionamento que me deixasse fotografar o local por dentro o que não foi permitido, mesmo assim fotografei a fachada do prédio e dias depois voltei por lá e estacionei meu carro sendo assim foi possível tirar uma fotografia de dentro, sem ser notado.

A foto abaixo dá pra ter uma boa noção das grandes dimensões da antiga sala:

Vista de uma área da plateia e da área de projeção (clique para ampliar)

É impressionante como aquilo se deteriorou, na foto do iní­cio do artigo já faltava uma letra, ficando “PIRATININ A”, e a infiltração na marquise da antiga entrada do cinema já merecia uma interdição da prefeitura porém, mesmo assim, a fachada que restava trazia uma certa nostalgia a região, especialmente aos mais antigos e saudosos e admiradores da região como eu.

Disse “lembrava” acima porque as letras de concreto que ficavam na fachada histórica não está mais lá, foi removida. A alegação de um dos responsáveis pelo estacionamento foi o receio de uma multa pela Lei Cidade Limpa, o que é improvável já que inscrição fazia parte do projeto original da marquise. Vejam na imagem abaixo como está agora:

PIRATININ A – (clique na foto para ampliar)

É realmente muito entristecedor saber que em nossa cidade são escassos os movimentos em favor de nosso patrimônio histórico e cultural. É até compreensível o cinema ter virado um estacionamento, mas é inaceitável a remoção do letreiro de concreto, um ato de pura ignorância.

DADOS DO CINE PIRATININGA:
Inauguração: 26/03/1943
Arquiteto: Rino Levi
Localização: Avenida Rangel Pestana, 1540 – Brás
Exibidor: Serrador
Capacidade total: 4313 lugares – Sendo 2607 na plateia, 1706 no balcão e nas frisas

Foto de abertura: Acervo de Caio Quintino

Galeria de fotos (clique para ampliar):

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43 respostas

  1. É uma vergonha o que fazem com os prédios antigos de são paulo. Douglas, conheci o cine piratininga na minha juventude, minha vó tinha um casarão na rua das carmelitas, 54 quase esquina com a 25 de março, não mais existe foi desapropriado por causa do metro e eu ia com minhas tias ao cine piratinhinga vi a imagem e o que foi feito é uma vergonha, espero que NOVA PREFEITURA, tome uma providência e não deixe destruir o passado dos paulistanos e preserve , os predios, cinemas, ruas, enfim tudo o que se diz respeito ao nosso querido e velho são paulo, parabens pela sua pesquisa, nos meus aureos tempos brinquei muito noparque D. Pedro, hoje desgastado pela destruição da iguinorância do ser humano, continue pesquizando, abraços Cristina

  2. Eu nasci e vivi toda minha infância e juventude no Brás, todos os domingos iamos na matine, era uma festa, que alegria, infelizmente o Cine Piratininga e o Bairro do Brás, ficou na Saudades… Pilar.

  3. Oi gostaria, tambem, de saber se tem como entrar em cntato com o Proprietario. Ou se tem alguem interessado em tentar uma visita nos interiores do cinema.
    Julia.

  4. o Piratininga já foi retratado no Dvd da Zizi Possi Per Amore, a Vila Maria Zélia e a Rua Joli também…como diria uma frase do irmão dela José Possi Neto especialmente para o DVD “Por alguns momentos achei que eu nunca havia existido!Se eu soubesse que as coisas desapareceriam assim, tão facilmente, eu teria dedicado mais tempo a me lembrar delas!” o Bras foi destruído, tenho 23 anos nasci na rua Júlia Bresser, perto da Bresser com a Silva Telles, minha família inteira é do Brás desde quando meus bisavós vieram da Itália…é triste não ter história, morei também no Pari, e o Pari também está sendo destruído…sabe o que da mais raiva…o Paulistano não conhece a história dos seus antepassados, mas vai para o Nordeste conhecer o Pelourinho…

  5. frequentei muito o cine Piratininga pois o meu tio avó foi gerente deste cinema por 40anos “o Sr. Ferreira e Da. Mercedes” tenho contato com uma das filhas . É muito triste.Abraços. Regina

  6. tristeza e muita saudade. Quantos programas ~Jovem Guarda o Rberto Carlos gravou lá? 2, 3 . Eu assiti todos.

  7. Incrível.
    Minha família é do Brás. Ouço meus pais e meus tios falarem muito dos cinemas e de toda a vida noturna e cultural que existia no Brás nas décadas de 40, 50 e início da década de 60.
    Infelizmente nem eu, nem minha irmã, nem primos, que nascemos e vivemos na região do Brás e Pari até o final da década de 90, não pudemos conhecer nada daquilo que nos contam. Na nossa infância, tudo já estava sendo destruído e deteriorado e morar ali foi uma insistência quase heróica da família.
    Atualmente nenhum de meus familiares mora mais lá e cada vez que passo pelo bairro bate uma saudade, misturada com a raiva de ver toda a região desfigurada.
    A desordem e o descaso venceram por ali.
    []’s

  8. Sou do Brás, da Rua Piratininga. Pelo que ouvi comentar, tiraram as letras da fachada do cine Piratininga por causa da Lei Cidade Limpa, do Kassab, onde se limitou o tamanho dos logos de qualquer imóvel comercial da capital. Uma pena.

    1. Olá Reginaldo,

      Se removeram por isso, foi pura ignorância. O letreiro era de concreto e estava incorporado à construção e, portanto, não seria incluído na lei.
      Ou fizeram por desconhecimento da lei, ou excesso de zelo. Ou então aproveitaram a oportunidade para arrancar aquilo que já não queriam.

  9. Curiosamente comer uma bela salada de beterrabas resgata uma memória oufativa e me lembra o Cine Piratininga.
    Estive lá assistindo a Jovem Guarda e depois bem no final de sua existência como sala/teatro, num congresso onde conhecí os bastidores do cinema, principalmente a parte onde ficava a orquestra, que era uma espécie de porão, cochia, não sei como chama. O cheiro daquele lugar em especial, era igual ao da beterraba.

  10. FREQUENTAVA ESTE CINE DESTE 1977 QUANDO PASSAVA FILMES PRONOS DA EPOCA E KUNG FU, EM NOVEMBRO DE 1980 ELE FECHOU PARA REFORMA POR QUE CAIAM PLACAS DE REVESTIMENTO DO FORRO QUANDO CHOVIA, NESSA EPOCA A IGREJA UNIVERSAL ALUGAVA ESTE CINE PARA OS PRIMEIROS CULTOS, REINAUGUROU EM JANEIRO DE 1981 SEM AS CADEIRAS DAS LATERAIS, PARA EM CASO DE INCENDIO O PESSOAL PODER EVADIR SE MAIS RAPIDO SEGUNDO O GERENTE DA COMPANHIA SERRADOR, FECHOU DEFINITIVAMENTE EM ABRIL DO MESMO ANO, UM ANO APOS ESTAR FECHADO, DESABA O GRANDE TETO FICANDO ALGUNS ANOS ATÉ SE TRANSFORMAR NUM ESTACIONAMENTO, UM DOS ULTIMOS FILMES APÓS A REFORMA E NA TENTATIVA DE SE TORNAR UM FILME COMUM FOI “SUPER HOMEM”.

    1. Oi Bia, entrei no Piratininga em 1996 para fazer umas fotos que estão no meu Fotoblog e o Teto ainda estava lá, depois de 2 meses ai sim tudo desabou numa noite de chuva deixando os moradores do predio ao lado apavorados pelo enorme barulho. Abs

  11. Inicialmente cumprimento os responsáveis por este site de memória de SP. Em 1968, no dia 15 de março, a equipe de programação da Rádio América, da qual eu fazia parte, com Newton Miranda e Sergio de Freitas, realizou um grande show com ídolos da “Jovem Guarda”, Roberto Carlos à frente. Inesquecível, para cerca de tres mil pessoas. Lembro bem do gerente, o Sr. Ferreirinha, que não dava a mão a ninguém, por motivos de higiene, já se antecipando aos cuidados de décadas depois com a gripe suína. Era uma grande casa de espetáculos,que destino inglório, se tornar um estacionamento…
    José Paulo de Andrade

  12. Quando jovem eu passava de onibus e realmente havia um letreiro na fachada em que estava escrito: Cine Piratininga 5000 lugares – o maior cinema do Brasil

  13. Depois é “chique” ir à Europa admirar as construções antigas. Como não valorizar o que é nosso? Eu tive a oportunidade de conhecer 2 cinemas antigos antes de seu desaparecimento. Fico muito triste com o descaso de certas família brigando pelos seus espólios e do Poder Público que faz cara de paisagem com o desaparecimento da história de São Paulo. Quando a mansão Matarazzo ruiu, eu chorei… 🙁

  14. depois de comer uma pizza n/ pizzaria av.chiq, eu ia comprar jornal a gazeta esportiva ficava muinta gente esperndo o jornal domingo a noite as 22 horas vinha o jornal.

  15. So de pensar me dar vontade de chorar, eu tinha uma pastelaria em frente da cine piratininga, a pastelaria chamava Pastelaria Piratininga. No ano 1973 a parede de frente caiu e tinha parada de onibus em frente quase matou gente. estou vivendo no canada agora, que saudade….

  16. presto serviço em um condominio proximo que possibilita uma otima visão superior. Estava tentando descobrir o que foi a construção que vi sem entender o que poderia ter sido, a principio imaginei logo uma arena etc. gladiadores, lutas algo do tipos, é triste ver algo destruído e ainda sendo usado como estacionamento nos dias de hoje.

    Agora sei de que se trata, muito triste, gostaria de ter vivido o antes e o depois …

  17. lendo estes comentarios afirmo que voltei ao passado,
    meu pai joao dare foi operador cimatografico deste ci-
    nema,ali conheci o Sr. ferreira e a Dna. mercedes o
    Olavo que era o indicador,pena que nao preservamos o
    passado de uma cidade e muito triste.

  18. Nasci e vivi no Brás toda minha infância e juventude… do resto que sobra do antigo Cine Piratininga, deveria reformar e fazer do imovel um museu, SERIA : MUSEU DO ANTIGO BRÁS…. tenho certeza que todos que viveram no Brás antigo iriam adorar.. AI ESTA MINHA SUGESTÃO… obrigada.

  19. A situação desse imóvel é muito triste e muitos outros estão nessa situação… O Brás e o Pari são bairros muito presentes na minha vida. Conheci o piratininga nos idos de 1988 ao fazer um trabalho sobre Degradação de áreas urbanas para a Escola Técnica Federal de SP. Ao entrar no antigo cinema não há como ficar impressionada com a altura das colunas e ficar imaginando como devia ser mágico esse lugar. Minha mãe e meus irmãos chegaram a frequentar o Piratininga e disseram que era “o acontecimento” ir ao cinema na década de 50 e que esse cinema era bárbaro…É muito triste ver essa situação e a avenida Celso Garcia vai pelo mesmo caminho…
    Parabéns pela matéria.

  20. Estudei 4 anos na antiga Escola Tecnica Getúlio Vargas que ficava no inicio da Rua Piratininga. Quando possível cabulava aulas e ia ao cine Piratininga assistir filmes na decada de 50. Ficava maravilhado com o estilo daquele CINEMA. O que restou? Naaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaada.Hamilton DAngelo Abs

  21. Na infância, eu morava na Móoca. Fui muito ao cine Piratininga e a outros do bairro. Assistia às matinês e aos filmes. havia um mais curto e o mais importante depois… quem lembra como isso funcionava? Apesar da destruição desse patrimônio, agradeço a São Paulo Antiga pelo registro e fotos. Muito importante esse trabalho de arquivo histórico.

  22. Sugiro uma matéria sobre o extinto e saudoso cine Odeon, da rua da Consolação. Sou um fã de carteirinha de suas reportagens sobre esse São Paulo antigo, que não volta mais…

  23. Minha esposa, Kátia, assistiu alguns filmes no Piratininga, em fins da década de 70: Mazzaropi( aquele contra o capeta, ou algo assim), um dos Trapalhões( ela não se lembra qual) e também um com a cadela Lassie.

  24. Olá Douglas! A primeira foto desta matéria foi retirada de algum blog?

    1. Olá Antonio, como vai ? Honestamente não sei dizer.
      Recebi por email um anexo com várias imagens de cinemas com os créditos de acervo “Caio Quintino” que mencionamos no final do artigo.
      Mas se esta informação não estiver correta é só avisar que procedo com a alteração ou remoção.
      Abraços!

  25. Passei minha infância na MOOCA, e fui varias vezes no Cine Piratininga com minhas tias Josefa e Neuza, lembro de ter assistido Independência ou Morte com Tarcísio Meira e Gloria Menezes e varios filmes do Mazzaropi.
    Na região da MOOCA também tinha o Cine Roma que ficava na Av. Alcântara Machado, o qual também frequentei muito.
    Quanta saudades…………….

  26. Realmente Lamentável nasci no Bairro do Brás e frequentemente ia ao Piratininga estudei no Romão Puiggari que é ao lado uma Época Brilhante seu comentário e me fez fazer uma Viagem aos Anos 60/70 Parabéns.

  27. Uma pena mesmo o que fazem com a memória artística e cultural de São Paulo. Morei ao lado do antigo Cine Pax, que funcionou na Rua Mauricio de Castilho, 20, Ipiranga, até a segunda metade da década de 1960. Desde a década de 1980, o prédio foi alterado para dar lugar a uma confecção. Fui bastante no Cine Anchieta, na Rua Silva Bueno. O Ipiranga, em idos tempos abrigou diversos cinemas de bairro. Havia também o Cine Maracanã, na Rua Salvador Simões e um outro na Rua Coronel Diogo. Foram tempos ótimos, que infelizmente, não voltarão mais.

  28. tenho 73 anos , nasci e fui criado no BRÁS,frequentei muito este cinema , inclusive assisti show do Caubi , foi em matinê. Mas o que mais marcou foi o Brasil tinha sido CAMPEÃO DO MUNDO 1958 E fizeram o filme BRASIL CAMPEÃO DO MUNDO fui eu e um sobrinho , entramos na seção das duas era seção corrida , quando eram umas 8 horas estava o lanterninha com meu cunhado nos procurando , assistimos ter seções seguidas..kkkkkkkl

  29. Nossaaa… Hoje sem querer conheci este local onde fui estacionar meu carro na região e logo questionei o dono do estacionamento: aqui era um teatro de Arena? Não respondeu ele aqui era o Cine Piratininga, fiquei impressionado como algo cultural da cidade, escondido ao fundo, suas escadarias e portões de ferro estragados e se deteriorando com o tempo, achei muito legal, não conhecia e sinceramente nem sabia que ali existiu um Cine chamado Piratininga, por outro lado triste pelo espaço Cultural sua estrutura ainda em pé abandonado.

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