Casarão – Rua Vitorino Carmilo

Pesquisar sobre as casas de São Paulo muitas vezes revelam descobertas surpreendentes e desta vez não foi diferente. Um dos imóveis que muitos perguntam para nós aqui no São Paulo Antiga é sobre esse belo casarão do início do século 20 localizado no número 407 da Rua Vitorino Carmilo, bairro de Santa Cecília:

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Nós já havíamos fotografado-a faz tempo mas sempre deixávamos de lado a pesquisa dela por colocar outras pautas na frente ou por motivos alheios à nossa vontade. Entretanto uma pesquisa sobre outro imóvel na mesma rua nos trouxe de volta a curiosidade de investigar sua história a fundo e adoramos a descoberta.

E para contar a origem desta casa vamos voltar até o ano de 1920 para contar a história de seu primeiro morador, cuja trajetória confunde-se com a memória da indústria alimentícia nacional.

Oscar Salles que aparece na ilustração de um jornal do início do século 20 foi um importante industrial brasileiro de origem mineira, mas que se considerava paulista de coração, que fundou em São Paulo junto com seu sócio Antônio Gonçalves a empresa Gonçalves, Salles & Cia nome daquela que é a mais famosa manteiga do Brasil, a Aviação.

Fundada na capital paulista no ano de 1920 em um pequeno armazém a Gonçalves Salles & Cia logo em seguida adquiriu um laticínio no interior de Minas Gerais onde seria produzida a manteiga em lata Aviação. Com o crescimento da empresa, especialmente no mercado paulista, a empresa amplia seus negócios abrindo uma nova sede, em 1928, no número 7 da Rua Washington Luiz, endereço que curiosamente não existe mais, pois este trecho desta rua foi demolido para dar lugar a extensão da Avenida Prestes Maia.

Furgões da Manteiga Aviação estacionados diante da sede da empresa, na Rua Washington Luiz 5 e 7 (clique para ampliar)

O nome da manteiga, Aviação, rapidamente tornou-se famoso por São Paulo e pelo Brasil por uma combinação, dizia-se na época, de uma série de fatores. Entre eles principalmente dois: a excelente qualidade do produto frente aos seus concorrentes e o nome do marca, associada a algo naquela época que era novo, arrojado e moderno: a aviação.

A marca sempre foi inovadora e em 1930 com a chegada das geladeiras domésticas foi uma das pioneiras no lançamento da manteiga em tablete. Até os dias de hoje a empresa comercializa, entre outros produtos, a manteiga em lata que a fez tão famosa.

Publicidade da Manteiga Aviação veiculada em jornal paulistano no ano de 1931

Atualmente a Gonçalves, Salles S.A Indústria e Comércio tem sua fábrica em São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais. Além da famosa manteiga a empresa produz cafés, requeijão, queijos e um dos melhores doces de leite do país.

VOLTANDO AO CASARÃO:

1 – DA FAMÍLIA SALLES À FAMÍLIA ANDRADE

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Deixando agora a empresa de lado, voltamos à elegante residência da Rua Vitorino Carmilo. Tombado como patrimônio histórico da Cidade de São Paulo, o casarão é quase vizinho de outro importante bem tombado paulistano, a Vila Parque Savoya.

Construída no início do século 20 a residência foi o lar do casal Oscar Salles, sua esposa Jenny Salles Lebert, e seus filhos Nelson e Milton Lebert Salles por longos anos. Abaixo extraímos a página do Livro Vermelho dos Telefones do ano de 1938 com o número telefônico da residência à época.

Contudo não conseguimos identificar até que anos eles viveram neste imóvel, sendo que as menções aos Salles neste endereço desaparecem na década de 1950. Consultando outra lista telefônica de nosso acervo, esta de 1961, foi possível constatar que o casarão já possuía outro morador, de nome A.R. Andrade onde o R é de Ribeiro.

Atualmente, de acordo com a base de dados do IPTU de São Paulo, o imóvel permanece em nome dos familiares de A.R.Andrade. Já a família Salles após vender o imóvel possivelmente mudou para outra elegante casa da região, essa por sua vez já demolida, localizada na Rua Veiga Filho 207. De acordo com a nota de falecimento de Jenny Salles Lebert o enterro saiu deste endereço rumo ao Cemitério da Consolação.

A esposa de Oscar Salles faleceu em 2/12/1958

2 – CASARÃO ATUALMENTE

Em estado regular de conservação o casarão permanece de pé e é um dos mais antigos imóveis do bairro de Santa Cecília. Por ser tombado está tecnicamente protegido, mas sabemos que nem sempre o tombamento é a solução definitiva. O ideal para um bem tombado passa, principalmente, pela sua ocupação.

O casarão mantém preservado todos os seus detalhes originais e o que parece estar mais prejudicado é a parte de pintura. No gradil original dos portões é possível observar que inseriram algumas lanças, possivelmente para dar mais segurança a quem reside ali.

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E falando em residir tivemos a impressão de que o casarão está vazio e que os ocupantes da propriedade vivem na edícula aos fundos, que é razoavelmente grande. Felizmente a propriedade não está abandonada e sempre tem uma pessoa cuidando do jardim, retirando lixo, lavando etc.

O ideal seria ver este imóvel em pleno uso, seja como residência, fins comerciais ou mesmo atividades culturais. Essa beleza de construção merece ser vista e conhecida por dentro e por fora.

Veja mais fotos (clique para ampliar):

Bibliografia consultada:

* Il Moscone – Edição 746 (1944) pp 8
* A Cigarra – Edição 325 (1928) pp 26
* Moscardo – Edição 170 (sem data)
* Diário Nacional – Edição de 12/12/1958 – Obituário
* Livro vermelho dos telefones para o ano de 1938
* Lista telefônica de assinantes para o ano de 1961
* IPTU Cidade de São Paulo – Ano base 2022
* Jornal do Sudoeste – Link visitado em 26/7/2022
* Laticínios Aviação – Link visitado em 25/7/2022

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6 respostas

  1. Morei na Vila Savoya de 1968 a 1969 e meus tios e avós até fins dos anos 1970.
    Esta casa na esquina da Ria Ribeiro da Silva com a Vitorino, tinha uma família de idosos, e um gigantesco (pelo menos parecia quando eu era criança) cão pastor alemão que latia desesperadamente quando alguém passava na calçada.
    Lembranças boas. Obrigado…

  2. Moro bem perto. Sei que na casa vive o caseiro e dois cachorros. O último dono foi o Sr. Antônio falecido, ficou para dois filhos. Sei que um dos filhos faleceu e começou a disputa pela casa pelos seus netos.

  3. Eu mito aqui na frente e sempre tive curiosidade para saber de quem era o casarão. Sou arquiteto e da janela da minha cozinha consigo ver o imóvel. Morro de vontade de morar ali. Kkkkk

  4. Nem eu sabia desta casa do meu avô. Sabia que tinham morado em uma casa em São Paulo mas eu não sabia o endereço. Parabéns pela pesquisa! Me recordo que tiveram casa na Veiga Filho…

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