Numa cidade como São Paulo não é fácil classificar o que é antigo, até porque as coisas mudam em alta velocidade, o tempo vai passando e a memória se apagando até para aquelas coisas que podemos classificar como recentes.

Neste sentido me veio a ideia de publicar este artigo nem tanto pelo estilo do prédio ou sua localização, mas sim para preservar a história do motivo de sua construção e da instituição que o encomendou para tê-lo como sua sede. É a típica história recente que vai se perdendo, neste caso ia se perdendo…

Para aqueles que passam pela Avenida Brigadeiro Luís Antônio, esquina com Alameda Ribeirão Preto, o prédio de concreto ao estilo brutalista é mais um edifício que abriga o Ministério Público Federal. Mas será só isso?

Na foto a sede do extinto Banco América do Sul

Não… Há muita história além da ocupação atual, afinal lá foi a sede, no início da década de 1970, do Banco América do Sul, um banco que se não foi tão grande, teve como um de seus princípios a responsabilidade de dar suporte financeiro através de suas operações bancárias a colônia japonesa desde 1937.

Isso porque neste mesmo ano foi criada a Casa Bancária Bratac de Carlos Yoshiyuki Kato, uma pequena instituição financeira diretamente ligada a comunidade japonesa com sede na Rua Anita Garibaldi, 77 (onde é hoje uma unidade do Corpo de Bombeiros) que depois se mudou para a Praça da Sé, 77 onde funcionavam os escritórios das empresas Bratac (Bratac é a abreviação de Brazil Takushoku Kumiai ou Sociedade Colonizadora Brasileira, uma associação que apoiou a imigração japonesa trazendo imigrantes do Japão e fornecendo-lhes terras e atividade econômica).

Com o crescimento das operações, Carlos Y. Kato e Kunito Miyasaka resolvem transformar a casa bancária em banco o que realmente aconteceu com a criação do Banco Bratac em 13 de janeiro de 1940 e que logo em agosto do mesmo ano teve seu nome definitivamente mudado para Banco América do Sul.

Nas imagens acima os fundadores do Banco América do Sul

Porém podemos imaginar as dificuldades pelos quais a instituição passou durante a II Guerra Mundial quando o banco foi nacionalizado, sua diretoria foi substituída e toda a sorte de percalços acontecera, não só pela situação mundial, mas por pertencer “aos japoneses” cujo país de origem pertencia ao Eixo.

Terminada a guerra, em outubro de 1946, o banco volta às mãos de seus donos originais, seu capital é aumentado através de subscrições e suas dívidas são definitivamente equacionadas em 1949.

Em crescimento sua sede muda para a Rua Senador Feijó, 187 de onde, finalmente de muda para a Avenida Brigadeiro Luís Antônio.

Ilustração de época com o desenho da futura sede do Banco América do Sul

O prédio encomendado pelo banco é de autoria dos arquitetos Ariaki Kato e Ernest Robert de Carvalho Mange, este que foi presidente da Empresa Municipal de Urbanização da cidade de São Paulo. O projeto é de 1965 e foi executado pela Construtora ENGIN Ltda. com seus 18 andares e 16.800m² de área construída num terreno de 2.007 m².

Além da sede do banco propriamente dita, neste endereço, era mantida uma galeria de artes e um auditório onde haviam várias exposições e outras manifestações artísticas patrocinadas pela instituição.

Publicidade da Construtora Engin com destaque ao edifício do Banco América do Sul

Também temos que lembrar que na Alameda Ribeirão Preto, 82 bem ao lado da sede do banco, existe um outro prédio onde os elementos da fachada são idênticos ao prédio da Avenida Brigadeiro Luís Antônio e que era conhecido internamente como “Sede 2”. Neste outro edifício, segundo relato de ex-funcionários funcionavam diversos departamentos tais como Recursos Humanos, FGTS, Jurídico etc.

O Banco América do Sul foi assumido pelo Banco Sudameris em 1998 e assim deixou de existir depois de 58 anos servindo ao público em geral e em especial as empresas e cidadãos ligados de alguma forma a colônia japonesa.

O pouco que sobrou de sua memória está conservado no setor de acervo cultural do Banco Santander Brasil em São Paulo.

Veja mais imagens sobre o Banco América do Sul (clique na miniatura para ampliar):

Nota:

Numa época de muitas consolidações no setor bancário, o América do Sul foi comprado pelo Banco Sudameris, que foi comprado pelo Banco ABN AMRO Real (O banco ABN AMRO havia comprado o Banco Real) que por sua vez foi absorvido pelo Santander que comprou a ABN AMRO a nível mundial. Ou seja, um funcionário do Banco América do Sul que tenha sobrevivido a estes movimentos trocou de empregador quatro vezes sem ter perdido o emprego.

Bibliografia:

Sobre o autor

Educador financeiro, palestrante, pesquisador independente e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - IHGSP. Site oficial: www.vigplan.com.br

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Comentarios

  • Daniel 19/04/2021 at 16:03

    Boa matéria José Vignoli.
    Corria uma história que esse edifício era a prova de terremotos por pertencer a um banco de japoneses. Isso é verdade?

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    • José Vignoli 19/04/2021 at 17:27

      Não encontrei nenhuma referencia a esta possível característica do prédio, mas fica aí um fato ou um folclore envolvendo a construção. Obrigado pela informação

      Reply
  • Marcelo Bruno Rodrigues 19/04/2021 at 16:07

    José Vignoli, eu me lembro quando fizeram uma demolição escondida da antiga agência que havia no final da Rua São Bento, que era em estilo neoclássico. O detalhe é que o prédio parecia todo em estado impecável de conservação, inclusive na pintura da fachada.

    Reply
  • Paulo Clístenes Vieira da Silva 19/04/2021 at 16:27

    A história do Banco América do Sul, embora relativamente curta mas, talvez prestando grandes serviços à comunidade de imigrantes japoneses, deixou um marco na cidade.

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  • FRANCISCO JOSE PENTEADO DOS SANTOS 19/04/2021 at 17:31

    Medonho

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  • Andréa Galafassi 19/04/2021 at 20:57

    Sou prova viva das sucessivas fusões. Entrei no América do Sul em 1989 e ainda sou funcionária do Santander. Portanto, há 32 anos (a completar nesse ano). Foi o melhor banco para trabalhar, apesar de ser o mais atrasado em tecnologia e informática. Saudades.

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    • José Vignoli 20/04/2021 at 12:01

      Andréa, que boa notícia!, Parabéns!
      Você poderia informar o Santander Cultural sobre a nossa postagem? O contato que eu tinha lá não está respondendo e os e-mails para scultural@santander.com.br estão voltando.
      Obrigado

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  • Newton Koga 19/04/2021 at 21:21

    Banco que fez parte da minha vida, pois meu pai trabalhou praticamente a vida inteira nesse banco.
    Fui muito nesse prédio e tb no da Al. Ribeirão Preto.

    Reply
    • José Vignoli 20/04/2021 at 12:03

      Newton, eram outros tempos, onde se entrava numa empresa para nela trabalhar toda uma vida.
      Quais as atividades que eram desenvolvidas no prédio da Al. Ribeirão Preto?
      Obrigado

      Reply
      • Rosely Sanda 21/04/2021 at 16:06

        Parabéns pelo artigo, no prédio da Al. Ribeirão Preto, ficava o pessoal do transporte, RH, Patrimônio (onde trabalhei), comunicação, depto de ações,telefonia e a diretoria. Acho que era isso.

        Reply
      • André de Lima Borba 21/04/2021 at 17:34

        No oitavo andar, Diretoria. Tinha um bar, duas grandes salas de espera, uma recepção e a sala da diretoria.
        Na cobertura, funcionava uma academia ( isso na transição do BAS para o Sudameris)

        Reply
      • Marco Sarmento 22/04/2021 at 16:37

        Na Alameda Ribeirão Preto X Brigadeiro funcionou também por algum tempo a América do Sul Cia de Seguros, posterior Yasuda e atualmente Sompo Seguros com sede na Rua Cubatão desde os anos 90.

        Reply
      • M Lumi 25/04/2021 at 21:27

        No 8 andar refeitório da diretoria e sala de reuniões, o 7 e 6 andares diretoria, 5 andar expansão, 4 andar patrimônio, 3 andar recursos humanos, 2 andar jurídico, 1 andar ??

        Reply
  • Jah Leen 19/04/2021 at 22:07

    Trabalhei no Sudameris de 1995 a 2003 e vivi o momento desta aquisição ! Realmente existiam inúmeras obras de arte de artistas descendentes japoneses e japoneses . O outro prédio pelo o que me recordo era a área administrativa e TI do América do Sul , mas não tenho certeza .

    Reply
  • Hélio Inoue 20/04/2021 at 01:23

    O correto é Alameda Ribeirão Preto, e não Alameda Rio Claro como consta

    Reply
    • José Vignoli 20/04/2021 at 12:08

      Hélio, obrigado pela observação. Será corrigido. Espero que, apesar disso, o artigo tenha lhe agradado.

      Reply
  • Marcelo Miaque 20/04/2021 at 06:27

    Que saudade…..na Alameda Rio Claro tbm pertencia ao Banco.Ali funcionava o Departamento Pessoal,Fgts,Jurídico entre outros…era a Sede 2.Trabalhei no Departamento Pessoal

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  • Amilton Santana de Almeida 20/04/2021 at 07:39

    Fui funcionário do Banco América do Sul (1973/1999), e nunca pensei que um dia ele iria ficar apenas na história, para mim ele foi tudo de melhor que tive na vida na esfera profissional.

    Reply
  • Almir 20/04/2021 at 13:32

    Um banco de japoneses para japoneses. Encontrar um funcionário que não tinha olhinhos puxados dentro da empresa era raríssimo. Super discriminatórios.

    Reply
    • Newton Hiroki Koga 22/04/2021 at 11:10

      Aí q vc se engana.
      Ele não discriminava ninguém, tanto q havia muito ocidentais também.
      Se quiser te apresento um monte de ocidental q trabalhou lá e era feliz.

      Reply
    • marco 25/04/2021 at 19:27

      Caro , voce se engana eu sou brasileiro e trabalhei 11 anos nesta gloriosa instituição financeira . Nunca sofri nenhuma discriminação por parte de qualquer membro oriental da empresa , reveja seus conceitos

      Reply
  • Camila 20/04/2021 at 19:18

    Meu pai trabalhou no BAS até a aquisição pelo Sudameris e passou um período no prédio da Brigadeiro. E eu, muitos anos depois, trabalhei no prédio da Alameda Ribeirão Preto, quando tinha virado sede do Conselho Regional de Enfermagem. lá, meu pai disse, funcionavam departamentos administrativos, salas de reunião e o setor de depósitos noturnos. entre 2008 e 2009 houve uma reforma no prédio, e o vão livre foi fechado com vidros para se tornar sala de espera com ar condicionado =(

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  • Leandro Camilli 20/04/2021 at 19:36

    Belo artigo! No prédio da Alameda Ribeirão Preto, 82, hoje funciona o Conselho Regional de Enfermagem.

    Reply
  • Marco Sfair 20/04/2021 at 21:08

    Jose Vignoli , parabéns pela reportagem fantastica , trabalhei em Curitiba/Pr e Florianopolis/Sc foi uma verdadeira erscola

    Reply
  • Toshiyuki Koga 21/04/2021 at 09:44

    O nome da Alameda é Ribeirão Preto. Era o Centro Administrativo do Banco e chamado de séde II.
    Sou ex-funcionário e tenho muita saudade nessa época.

    Reply
  • André de Lima Borba 21/04/2021 at 17:31

    Show de bola essa história. Trabalhei na manutenção do Sudameris entre 1996 e 2004.
    Estive a frente de vários processos internos que envolviam essas mudanças.
    Vi o Sudameris comprar o América do Sul, ser comprado pelo Abn anto bank e posteriormente tudo sendo adquirido pelo Santander. Velhos tempos, grandes histórias.
    Uma história relevante, foi a retirada do grande símbolo do BAS do topo desse edifício da Brigadeiro.
    Fizemos com mão de obra interna, com poucos recursos e com toda a população de bancários trabalhando no local.
    Foi penoso mas cumprimos as ordens, a missão.

    Grande abraço, valeu pela lembrança

    Reply
  • Ricardo Almeida Costa 21/04/2021 at 19:05

    Trabalhei no BAS DE 1983 a 1999 iniciando em Sorocaba e passando por Americana e finalmente saindo, ja do Sudameris, em Belo Horizonte. Era uma família. Primeiro emprego e uma escola tanto pelo lado profissional quanto da ética e vida em familia. Muitos exemplos e saudades.

    Reply
  • Margareth 22/04/2021 at 00:45

    Só uma correção, o outro prédio, que era chamado de Sede 2, ficava na alameda Ribeirão Preto,82 e abrigava a diretoria e departamentos depois de construída .

    Reply
  • Andrea Gomes 22/04/2021 at 10:06

    Em 1987 iniciei minha carreira no mercado financeiro no Banco América do Sul ….evolui passando por todas as aquisições até Santander…..aprendi muito por ali durante 30 anos!!!!….hj já em outra IF sou grata e feliz pela minha história e trajetória!
    Obs.: a rua lateral da Sede II (assim chamavam) era Al. Ribeirão Preto pelo que me recordo e não Rio Claro)

    Abraço e parabéns pelo artigo

    Andrea Gomes

    Reply
  • Newton Hiroki Koga 22/04/2021 at 11:12

    Bela matéria José Vignoli. Parabéns !!!

    Reply
  • Lauro Moreira 24/04/2021 at 00:44

    Excelente contribuição histórica e valoriza empreendedores, e no caso, aos imigrantes Japoneses que tanto contribuiram para a nossa sociedade. Parabéns

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  • Denise 25/04/2021 at 21:52

    Muito boa e interessante sua matéria!! Trabalhei no Banco América do Sul de 1985 até 2015.Porém, não conhecia a história de construção do prédio. Parabéns e obrigada pela divulgação do material.

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  • SILVIA HELENA BARBOSA DOS SANTOS MENDONÇA 26/04/2021 at 20:57

    Adorei ver as fotos fui funcionária do Banco, fui admitida em 02/01/1990 sai em junho de 2018 , sou aposentada desde 2017 como Santander, atualmente sou correspondente bancaria, temos um grupo no WhatsApp dos ex-funcionários do BAS com mais de 80 pessoas.

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  • Renato 29/04/2021 at 17:39

    Fui funcionário do banco de 1987 a 1991, trabalhando no 11o andar do prédio da Brigadeiro. Ali era a Secad/Secred (setor de cadastro / setor de crédito), onde eram aprovados financiamentos, possibilidade de empréstimos e tal. Eu trabalhava no período da manhã e, no meio de uma centena de funcionários, era um dos poucos não-orientais do local. Mas isso jamais foi um problema. E, muito pelo contrário, fiz grandes colegas lá. O fato é que eu fui demitido nos altos dos meus 19 anos, após virar representante do banco no Sindicato dos Bancários e encabeçar uma greve em agosto de 1991 (dizem que foi a primeira da instituição)….Mas, apesar da limitação dos gestores, o banco tinha bons benefícios, como divisão nos lucros e 14o salário.

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  • Frederico Rpdrigues 04/05/2021 at 08:25

    bom dia!! Entrei em 1989 no América do Sul, para carregar malotes na madrugada! Sai em 2000 como advogado. Trabalhei na compensação e no Jurídico. Ótimas recordações!! Grandes amizades!!

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