Na região central de São Paulo, no agradável bairro de Vila Buarque, existe uma charmosa construção antiga, erguida na década de 1930, que transmite uma sessão de paz em uma movimentada via local. O que hoje é sinônimo de harmonia e serenidade já teve seus momentos atribulados, com direito a polícia, caos e até bomba.

Localizado na rua Martim Francisco esse sobrado antigo, era originalmente não uma, mas duas residências. Em algum momento após o ano de 1961 ele foi unificado, pois ao menos até este ano residiam neste local Luiz N. Assumpção e Geraldo de Barros Brotero, respectivamente nos números 665 e 669. Por outro lado, na década de 1930, residia no número 669 Luiz Cintra Ulhôa.
Na segunda metade da década de 1960 o imóvel em questão já pertencia à Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, entidade católica conservadora e tradicional que é mais conhecida pelos paulistanos como TFP.


Foi nesta época, sob a tutela desta entidade, que aconteceu um dos fatos mais curiosos e bizarros da Cidade de São Paulo, já em plena vigência do famigerado AI5: um “atentado” à bomba a essa residência, que causou grandes danos ao imóvel. As aspas eu coloco pelo fato de que o ocorrido até hoje não foi totalmente esclarecido e nenhum culpado foi encontrado.
Era madrugada de 20 de junho de 1969 quando uma forte explosão foi ouvida pelas ruas de Vila Buarque e Santa Cecília. Pouco tempo depois pessoas começaram a sair pelas ruas para ver o que havia ocorrido, foi quando tomaram conhecimento que uma bomba (dinamite) havia sido detonada na simpática casa que pertencia à TFP, que estava parcialmente destruída e com escombros repousando sobre a calçada.
Além do cenário de destruição, uma imagem barroca da Imaculada Conceição sobreviveu a tudo isso, apenas com alguns danos leves. Teria sido um milagre?

O ocorrido causou bastante furor especialmente entre os moradores da região e entidades católicas, no entanto não saiu em jornal algum da época, o que levanta suspeitas que na verdade o que teria ocorrido seria um autoatentado, ou seja, um ato provocado para elevar tensões contra comunistas e inflamar a opinião pública. Naquela época, nesse imóvel, funcionava a presidência do conselho nacional da TFP.
Uma das alegações da entidade religiosa à época foi o fato de se oporem à reforma agrária proposta pelo Presidente João Goulart, mas não faz muito sentido já que Goulart havia sido deposto 5 anos antes, em 1964, e já estávamos na presidência de Costa e Silva, o segundo desde a implementação do regime militar.
Embora possivelmente jamais poderemos saber se foi um atentado ou autoatentado a verdade é que o ocorrido, que não foi reivindicado por nenhum grupo de esquerda ou paramilitar, serviu para fortalecer a imagem da TFP na sociedade paulistana. Cinco meses depois do ocorrido o local já estava reformado por completo e com alterações arquitetônicas que deixaram o espaço mais ou menos idêntico ao que ele é conhecido hoje em dia.

A reconstrução da fachada da casa trouxe uma novidade: a instalação de um oratório, cercado por dois archotes, onde repousa atrás de um vidro (que atualmente é à prova de balas) a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Ela foi transportada de onde esteve guardada desde a explosão para seu novo local numa procissão, sob forte chuva, desde a rua Pará até a Martim Francisco.
Dai para frente o endereço se transformou em um local muito procurado por paulistanos para expressar sua fé e fazer seus pedidos, rezando diante da imagem Nossa Senhora da Conceição que também ficou como uma atração da região. Era comum ver pessoas, principalmente homens, em vigília e oração diante do oratório.
A SUBSTITUIÇÃO DA IMAGEM SACRA
Com a morte de Plinio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP, a entidade entrou em um período crises e disputas pelo poder que acabou até por criar uma dissidência, conhecida como Arautos do Evangelho. Foi pouco tempo depois disso, no início dos anos 2000, que a imagem de Nossa Senhora da Conceição foi substituída pela de Nossa Senhora de Fátima, que tradicionalmente remete ao grupo dissidente, os Arautos.
De acordo com a Agência Boa Imprensa, que divulga notícias ligadas à TFP e outros assuntos ligados à igreja católica, após uma batalha judicial o local foi retomado pela entidade e, em 13 de dezembro de 2024, voltou a receber as vigílias de orações. Na galeria abaixo você confere as duas imagens que ficaram no oratório, sendo respectivamente a anterior e a atual.


Desde a reinauguração ocorrida em dezembro de 2024 não ocorreu nenhum incidente e o local voltou a ser um símbolo de fé de católicos que são vistos constantemente ao pé do oratório, seja para uma breve oração, um pedido, ou mesmo para a vigília. Seja de dia ou de noite sempre há alguém contemplando a figura de Nossa Senhora da Conceição. Se você está em outra cidade ou não tem condições físicas de ir até lá, você pode fazer sua vigília em casa, enviando suas intenções clicando aqui.
Já conhecia essa história? Não? Deixe seu comentário.
Bibliografia consultada:
Folha de S.Paulo – edição de 25/6/1969
O Estado de S.Paulo – edição de 17/12/1970 pp 35
Site – Plínio Corrêa de Oliveira – Link visitado em 23/5/2026
Site – Memorial da Resistência – Link visitado em 23/5/2026
Agência Boa Imprensa – Link visitado em 23/5/2026
Lista telefônica de assinantes – Ano 1961
O Livro Vermelho dos telefones – Biênio 1937-1938

Respostas de 2
O que significa TFP?
Está escrito no texto.