Em cidades como São Paulo onde o patrimônio histórico não é visto como prioridade para o poder público, construções de perfil religioso como igrejas, capelas e seminários teoricamente são os mais protegidos. No entanto, isso é apenas como eu disse: teoria.
Na virada do século 20 diversas templos católicos foram demolidas para dar lugar ou a novas igrejas ou novos espaços públicos, como a antiga Catedral da Sé, a Igreja de São Pedro, o Mosteiro de São Bento antigo entre outros. Mas no passado recente, já no século 21, também ocorreram destruições como da capela São Sebastião, em 2001, e a escola paroquial da Bela Vista, em 2015. É desta segunda que vamos abordar aqui.
O INÍCIO:
O desejo de expansão das atividades religiosas do bairro da Bela Vista ante ao crescimento do bairro levou o vigário da paróquia do Espírito Santo, Cônego Adoniro Kraus, a encomendar o projeto de uma nova edificação que serviria como escola paroquial (vide planta abaixo). O lote que receberia a nova casa ficava então no número 170 da rua Frei Caneca.

Aprovado o projeto, em setembro de 1912, as obras tiveram início quase que imediatamente, sendo sua execução muito rápida. A nova edificação paroquial seria inaugurada poucos meses adiante, precisamente em 1º de março de 1913, em uma cerimônia que contou com a presença de autoridades políticas e religiosas, além de fiéis e a população do bairro.
O recorte abaixo, extraído do extinto jornal Correio Paulistano, descreve em detalhes como foi a solenidade e as atividades realizadas naquela data.

De acordo com o descritivo do jornal o local tinha amplas janelas na fachada, sala de espera, sala de aula (com capacidade para até 60 alunos), além de banheiro e porão habitável. Algo de dimensões modestas para os padrões de hoje daquele bairro, mas absolutamente confortável para o início do século passado.
A nota no jornal tem um porém curioso: ao descrever as janelas o Correio Paulistano diz que são apenas duas, quando ao analisar a planta original publicada no início do texto podemos constatar que, na verdade, originalmente eram três. A terceira janela originalmente ficava um tanto recuada das demais, visível atrás do portão e de um breve lance de escadas, conforme a planta abaixo (fachada à esquerda):

Porém, para complicar ainda mais, quando conheci a casa poucos anos antes de ser demolida, eu atestei “in loco” que não eram nem duas nem três, mas quatro janelas idênticas.
As duas imagem abaixo, infelizmente em baixa resolução, foram extraídas de diferentes datas no Google Street View e deixa evidente a quantidade de janelas (clique para ampliar):


O que com certeza aconteceu foi que em algum momento a casa paroquial recebeu uma reforma onde foi feito readequação da fachada e de acesso ao interior. Ao meu ver o imóvel recebeu uma pequena expansão no lado direito, onde foi feito a nova porta de acesso e uma nova janela. Além disso a terceira janela que ficava recuada foi colocada para frente, alinhada com as demais, com a supressão do portão original e da pequena escada.
O acesso à casa, outrora descoberto, foi transferido para o porão que é suficientemente alto para servir de entrada. A reforma deve ter sido realizada há várias décadas atrás pois foi muito bem executada, não deixando pistas sobre as alterações. Muito provavelmente, se eu não tivesse a planta em mãos, teria uma certeza equivocada de que a casa paroquial sempre foi como era no seu fim, com quatro janelas.
O FIM ( E UM DEVANEIO…)
Quis o destino (e a falta de interesse) que a antiga Casa Paroquial da Bela Vista não fosse preservada. Após alguns anos fechada e esquecida, a velha edificação encontrou seu triste fim em setembro de 2015 quando começou a ser derrubada.
Depois de demolida ficou anos com parte de sua antiga fachada servido apenas de muro, sem ter nada ocupando seu lote ou o vizinho da esquerda, que foi demolido junto. Desde então – e ao menos até o ano passado – o local está assim:

Fico aqui na minha fértil imaginação pensando como teria sido bacana se essa antiga casa paroquial, que durou 102 anos, não tivesse sido demolida e recebesse não só o tombamento como patrimônio histórico como uma bela reforma ou mesmo restauração.
Com a ajuda da inteligência artificial resolvi reconstruir a casa, deixando-a muito próxima de como ela estaria se fosse restaurada. Para auxiliar o processo de trabalho da IA, visando obter os melhores resultados, dividi a tarefa em duas.
Primeiro, pedi para a IA remover a árvore deixando a fachada completamente visível, dei comandos explicando como é a vista sem a árvore e ela entendeu perfeitamente. Curiosamente ela inseriu na calçada um homem com uma mochila, algo que eu não pedi, mas que em nada interferiu.

Na segunda e última etapa inseri comandos na inteligência artificial para que fizesse uma completa recuperação da fachada da casa, fazendo uma nova pintura na mesma cor branca e com os detalhes decorativos em um tom de vermelho renovado. Para não ficar artificial demais pedi para que desse um visual de que a pintura tivesse aspecto de pelo menos 1 ano. O resultado foi exatamente o que eu esperava:

Apesar de não ser uma construção de arquitetura relevante, observado a imagem gerada artificialmente podemos observar o quanto perdemos com sua demolição. Lamento demais.
E você, o que achou? Escreva nos comentários.
DADOS TÉCNICOS:
Escola Paroquial da Bela Vista
Endereço: Rua Frei Caneca, 974 (antigo 170) – Bela Vista
Idealização: Cônego Adoniro Kraus
Proprietário: Paróquia Divino Espírito Santo
Arquiteto: Desconhecido
Inauguração: 01/03/1913
Demolição: Julho 2015
Respostas de 5
Frequentei muito a casa paroquial. Nos fins de semana o pessoal exibia filmes para a garotada. Na época, por volta de 1966, a turma toda do bairro, na faixa dos 14 anos de idade, ia em peso, pois era onde rolavam as paqueras. Bons tempos!
Hoje, como herdeiro, sou proprietário de um casarão/prédio próximo, na Rua Itararé. Necessita uma restauração e uma reportagem por parte de vocês. Pois, apesar das ofertas, continuo resistindo em não vendê-lo.
Vou te mandar um e-mail Ricardo!
Fico no aguardo.
Reclamar sobre destruição do patrimônio, cansa, cansa mais ainda observar que destroi-se algo, e nada útil se constrói no lugar. Cansa, não é?
As três janelas originais da fachada podem ser considerada como um elemento estético tradicional de arte sacra: alusão à Santíssima Trindade, tal como na subdivisão rítimica musical em que 1 máxima se dividia em 3 longas, em 9 breves e 27 semibreves. Quando passaram a usar quatro modernas já mudou tudo. A planta parece devidamente bem planejada. O pior é saber que a casa foi demolida.