Presídio do Hipódromo

Na história de São Paulo diversos presídios e cadeias são conhecidos dos paulistanos como marcos históricos. Ainda que soe mórbido esses edifícios contam capítulos tristes que não podemos esquecer. Desses ao menos dois deles, Carandiru e Tiradentes, não existem mais. No entanto um terceiro não só existe como pode estar com os dias contados. Trata-se do presídio da rua do Hipódromo.

O presídio em fotografia da década de 1940 (clique para ampliar)

Embora eu não tenha encontrado uma data precisa para sua inauguração, é certo que foi construído entre o final dos anos 1930 e início dos anos 1940. É neste período que surgem na imprensa as primeiras reportagens envolvendo o presídio, com notícias envolvendo criminosos e suas respectivas detenções neste local.

Localizado no então já populoso e movimentado bairro do Brás, nas primeiras décadas de seu funcionamento o presídio era destinado para a detenção de pessoas comuns que cometiam delitos como furtos e roubos e crimes mais graves, como assassinatos. Posteriormente passou a receber também prostitutas. Caótico e em péssimas condições estruturais o presídio era conhecido como um espaço que pouco poderia contribuir com a correção do preso, uma vez que com o crescimento da população prisional ganhou o apelido de “depósito de presos”.

Diário da Noite – 8/12/1949

A história deste presídio paulistano iria piorar muito mais no final da década de 1960 onde, já envelhecido e carente de reformas, começou a receber não só criminosos, mas prisioneiros políticos. Aos poucos, já no início da década de 1970, tinha se transformado em um aparato da repressão da ditadura militar.

Pelas celas do Presídio do Hipódromo passaram pessoas como o ex-deputado federal José Genoino, o ex-ministro Nilmário Miranda, jornalistas como Ivan Seixas e Amelinha Teles, o teatrólogo Idibal Pivetta e ainda, entre tantos outros, a cantora Rita Lee, que foi presa grávida por porte ilegal de drogas. Segundo disse em depoimento à Agência Pública, o ex-deputado estadual Adriano Diogo, que foi detento político no local, o diretor do presídio era ligado ao temível “Esquadrão da Morte” e não eram raras chacinas quando ocorria rebelião

Em 1973 com a desativação do Presídio Tiradentes (era localizado diante do Batalhão Tobias de Aguiar) o presídio do Hipódromo recebeu ainda mais prisioneiros transferidos, ficando superlotado. Apesar de existir separação entre detentos comuns e políticos as condições do local eram por demais insalubres. As celas recebiam, em média, 15 a 20 presos.

O presídio em 2025 (clique na foto para ampliar)

Esse cenário só mudaria em 1979, com a Lei da Anistia, onde o presídio deixou de abrigar prisioneiros políticos em suas dependências. Anos mais tarde, precisamente em fevereiro de 1986, o governador de São Paulo publicaria o decreto 24.789, que mudava o nome do local de Presídio do Hipódromo para Cadeia Pública do Hipódromo e transferia a administração da Secretaria de Segurança Pública para a Secretaria de Justiça. Mesmo assim continuou sendo um local precário e insalubre até seu fechamento, ocorrido apenas em 1995.

A ESCOLA PROFISSIONALIZANTE QUE NUNCA VEIO:

Após quase uma década desativado, foi anunciado em 2003 que o antigo presídio receberia uma ampla reforma que o transformaria em uma escola profissionalizante, através da Fundação do Bem Estar do Menor (Febem). Ao custo de R$1.3 milhão de reais o local abrigaria de 200 a 300 jovens do sistema de semiliberdade.

Contudo o projeto inovador jamais saiu do papel e o local acabou funcionando mesmo como apenas mais uma unidade da Fundação Casa, até fechar definitivamente em 2021. Desde então o local está vazio.

O PRESÍDIO COMO ESPAÇO DE ÁUDIO VISUAL:

O ator porto-riquenho Raul Julia em cena do filme “O Beijo da Mulher Aranha” gravado no Presídio do Hipódromo

Durante sua história o presídio também serviu para usos mais, digamos, leves. Foi por ali que diversas produções de cinema e televisão que ambientavam de alguma maneira um ambiente prisional foram gravados.

O primeiro deles foi o filme “O Beijo da Mulher Aranha” que teve diversas cenas gravadas no espaço, que ainda funcionava como cadeia. Posteriormente, após seu fechamento, a TV Record executou algumas reformas e pintura do espaço para a gravação de cenas da novela “Louca Paixão”. O espaço ainda recebeu produções da TV Globo e Netflix, além clipes musicais de artistas como Gloria Groove e Supla.

Abaixo uma cena curta no presídio extraída de capítulo da novela “Louca Paixão” de 1999:

VENDA E TOMBAMENTO:

Todos esses anos fechado não trouxeram nenhuma ideia positiva para o governo paulista executar naquele espaço. A decisão tomada pelo governador foi a que menos a população da região desejava: a venda do espaço. E o pior a venda foi em um valor que não só é uma afronta aos cidadãos como chega a ser vergonhosa.

Avaliado por cerca de R$28 milhões a área de 4,4 mil metros quadrados foi vendida por R$11,1 milhões, ou seja, por menos da metade do que realmente vale. O valor do metro quadrado na região situa entre R$ 5,8 mil a R$ 6,4 mil. O novo proprietário seria a empresa Veritas Capital, que ainda não divulgou seu plano para a área.

Para o vereador Toninho Vespoli (PSOL) o tombamento é essencial

Em visita ao Presídio do Hipódromo, junto com o jornalista Douglas Nascimento, do São Paulo Antiga, o vereador paulistano Toninho Vespoli (PSOL) mostrou-se indignado não apenas com a situação degradada da edificação como pelo valor irrisório da venda e a indefinição sobre o futuro. De acordo com Vespoli seu mandato irá solicitar ao Conpresp o tombamento da antiga cadeia paulistana.

Em uma região absolutamente de mecanismos culturais como o Brás chega a ser um escárnio aventar qualquer possibilidade de demolição do velho presídio. Que seja encontrada uma solução para que o espaço não só tenha uma finalidade digna como seja identificado como parte da memória paulistana.

Bibliografia consultada:

* Diário da Noite – Edição de 8/12/1949
* Correio da Tarde – Edição de 7/5/1951
* Folha de S.Paulo – Edição de 14/2/1999
* Assembleia Legislativa (ALESP) – Link visitado em 8/10/2025
* Diário Oficial do Estado de São Paulo – Volume 113, número 201 – 22/10/2003
* Memorial da Resistência – Link visitado em 8/10/2025
* Agência Pública – Link visitado em 8/10/2025

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Respostas de 3

  1. Local serviu como prédio da repreensão da revolução de 1964. Todos os locais como esse foram demolidos para apagar da memória pública os anos de chumbo que duraram vinte anos.

  2. Excelente documentário, deve ser mantido em alguma publicação com registro de época e também sobre a livre negociação de um bem público por valor irrisório. Quem manda em quem nessa terra cheia de abusos.

  3. Douglas, mesmo com o abandono de um prédio público, que é histórico, o valor defasado da sua venda, mostra o descaso da coisa pública.

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