A origem dos bondes na capital
A história dos bondes em São Paulo remonta a meados do século 19, quando, em 1872, a cidade inaugurou seu primeiro sistema de bonde de tração animal. Tais veículos, puxados por animais e sem portas, eram simples e funcionais, mas contribuem fortemente para o processo de urbanização paulistana. Com o crescimento populacional acelerado, especialmente nos bairros operários do Brás, Ipiranga, Mooca e Lapa, o transporte coletivo tornava-se essencial para conectar trabalhadores ao centro da cidade.
A virada tecnológica aconteceu em 1900, quando a canadense São Paulo Tramway, Light & Power Company implementou os bondes elétricos. Em pouco tempo, São Paulo contava com mais de 160 km de trilhos. A modernização representou não apenas um avanço tecnológico para a época, mas também um símbolo de progresso e integração urbana.

A era de ouro e o “bonde camarão”
Nas décadas de 1920 e 1930, o chamado “bonde camarão”, com sua pintura vermelha vibrante, tornou-se parte do cotidiano paulistano, quer seja em atalhos nos bairros centrais ou no funcionamento preciso que lia o pulso da metrópole. Esses bondes eram populares, fáceis de identificar, e muitos ainda os lembram com carinho — transitavam entre praças, fábricas e residências com uma cadência que marcou gerações.
Além do transporte, os bondes tinham papel social. Facilitavam o acesso à educação, cultura e lazer. Escolas, teatros e cinemas se usufruíam da mobilidade proporcionada por esses veículos. Por isso, sua presença era vista como mais do que um meio de transporte: representava o direito à cidade.

Declínio e o último trajeto
A partir de 1947, o sistema passou à Companhia Municipal de Transportes Coletivos (CMTC), que iniciou um processo de modernização e, simultaneamente, de substituição. Com a expansão das frotas de ônibus, os bondes passaram a ser considerados obsoletos. Em 27 de março de 1968, o “bonde camarão” realizou seu último trajeto da Praça da Sé até Santo Amaro, encerrando oficialmente uma era.
Porém, o fim de sua circulação não significou o total desaparecimento físico: muitos trilhos permaneceram enterrados sob o asfalto e calçadas por décadas.
Trilhos reaparecidos e patrimônio
Em 2015, durante obras na avenida São João e no vale do Anhangabaú, operários e arqueólogos encontraram os vestígios desses trilhos. Alguns foram removidos, outras preservadas como parte do acervo arqueológico da cidade. Esse reencontro material trouxe à tona uma reflexão sobre o passado urbano sob nossos pés.
O diálogo entre presente e passado ganhou também um caráter simbólico e afetivo. Muitos paulistanos, ao depararem-se com os trilhos descobertos, lembraram de histórias passadas, da presença marcante dos bondes em suas infâncias e da vida que pulsava na metrópole dos primeiros bondes elétricos. O resgate reforçou a importância da memória urbana vivida nos bairros operários, cuja narrativa é frequentemente negligenciada.
O Museu Gaetano Ferolla: guardião dos bondes
Desde 1985, o Museu dos Transportes Públicos Gaetano Ferolla, no Canindé, guarda a história dos bondes paulistanos — desde os primeiros a tração animal (1872), passando pelos elétricos, até os modelos mais avançados, como o “Gilda” dos anos 1947. O acervo reúne sete veículos históricos, cerca de 1 500 fotos, documentos, mobiliário da antiga CMTC e a famosa maquete que recria o ambiente da garagem da época.
O idealizador do museu, Gaetano Ferolla, ex-funcionário da CMTC, foi fundamental na preservação desses veículos. Ele reuniu objetos em uso e lembretes visuais do passado, garantindo que a comunidade paulistana pudesse revisitar esse trevo histórico dos transportes. Temporariamente fechado, o museu deve reabrir renovado ainda em 2025.

O charme na cultura contemporânea
A estética nostálgica dos bondes deixou marcas na cultura moderna. Cineastas, fotógrafos, designers e desenvolvedores têm se inspirado nesse legado. Em um exemplo curioso, um cenário em um jogo eletrônico ambientado em metrópole antiga incluiu trilhos abandonados e reminiscências charmosas — e até figurou o título Money Coming como referência ao ambiente urbano retrô.
Resgate urbano e coletiva identidade
O reencontro com os bondes — seja pelos trilhos reaparecidos, pelos acervos do museu ou pelo imaginário cultural — traz à tona a importância dos transportes como elementos estruturantes da vida urbana. Eles narram processos de industrialização, inclusão social, transformação do espaço e, sobretudo, a capacidade de preservar memória através dos objetos.
Quando um trilho aflora, não é apenas metal sob os pés: é um testemunho de vidas, trajetos e histórias em que São Paulo se fez moderna e plural. O desafio hoje é manter esse patrimônio vivo, integrando-o à cultura pública, às narrativas educativas e aos espaços de memória da cidade. Esse diálogo entre passado e presente nos lembra que os trilhos, mesmo invisíveis, continuam a moldar nossa trajetória urbana.
Respostas de 13
Lembro muito de minha mãe contar histórias sobre os bondes. Sou de 1965, e em 1968 como consta na matéria, que foi a última viagem do bonde, minha mãe contava que foi pega de surpresa, estava comigo no colo me levando ao posto de saúde para tomar vacina, e ela aguardando no ponto, o bonde não chegava, alguém passou por ela e avisou que não tinha mais bondes.
Ela contava que foi chorando para casa, as lágrimas escorriam, pois o bonde fazia parte da vida de muitas gerações em São Paulo.
Obrigada por compartilhar conosco, a história dos bondes na cidade de São Paulo!
Será que há interesse em se fazer uma linha histórica como a que até hoje continua em operação no Rio entre Santa Teresa e o Centro?
Já foi tentado, na gestão da imbecil da Martha Suplicy, ela descartou essa possibilidade, mas colocar um espantalho muito maior do que um bonde na Praça Patriarca, ela soube.
Sou de 1956 e assisti da janela do meu quarto com os olhos marejados o último bonde passar a um quarteirão de casa. Fiquei muuuito triste pois usava o bonde para ir ao clube Banespa quase todos os finais de semana e, durante a semana, pra ir à escola (atual Escola Estadual Mário de Andrade) e no caminho sentia aquele cheirinho delicioso dos doces quando passava perto da fábrica da Lacta.
Os bondes podem voltar no Centro como VLTs, (Veículos Leves sobre Trilhos), sua versão moderna e integrar estações do Metrô, CPTM, terminais da SPTrans e diversos equipamentos urbanos, espero que isso realmente aconteça e renove o Centro com um urbanismo mais decente!
Douglas, na matéria acima aparece que Em 27 de março de 1968, o “bonde camarão” realizou seu último trajeto da Praça da Sé até Santo Amaro, encerrando oficialmente uma era.” Porém, como a matéria do Estado De São Paulo do dia seguinte à viagem relata que que o trajeto foi do Instituto Biológico a Santo Amaro, conforme abaixo:
Chegada a hora, a festividade agitou a Vila Mariana bem diante do prédio do Instituto Biológico, ponto inicial da então última linha sobrevivente de bondes da cidade, a ˝Instituto Biológico – Santo Amaro˝. Ao todo um cortejo composto de 12 bondes partiria dali até seu ponto final, com eventos previstos nas paradas do Brooklin e Piraquara, com chegada ao fim do trajeto prevista para às 20:00hs.
Infelizmente não tive este prazer andar de bondes ! Quando bonde foi desativado tinha só 6 anos de idade , caso nossos governantes na aquela época poderia modernizar o sistema de bonde invés de acabar com ela! Agora plena século 21 parece vão voltar um tipo de bonde moderno que chama VLT, no centro de são Paulo. Na cidade de Santos já tem duas linhas funcionando que deu certo!
Eu sou de 1950 e utilizei muitas vezes os bondes para ir ao colégio, o Grupo Escolar Visconde de Itauna, no bairro do Ipiranga. Eu morava na Rua Oliveira Alves e descia até a Rua Silva Bueno para pegar o bonde fábrica. Gostava de pegar o bonde aberto, pois dava para enganar o cobrador e não pagar a passagem. Coisas de moleque! Claro que às vezes não dava certo. Do ponto onde eu pegava o bonde até o Grupo, eram somente 5 quadras. Era muito divertido e um tanto barulhento. Mas era ótimo. Infelizmente, hoje só ficou a saudades. Saudades daquele São Paulo inocente onde as crianças brincavam nas ruas sem se preocupar com a violência, porque ela não existia num grau como de hoje.
Parabéns ao idealizador do Museu, pois muitas coisas da história são esquecidas. Vejo agora de o história antiga esta trazendo esta memória e formando um acervo.
Lembro que ia com minha mãe de bonde na feira na Lapa, partindo da Av São João (anos 1960). Recentemente em obra na Rua Maria Antônia, próximo Mackenzie, estavam os trilhos sob o asfalto. O operário dessa obra reparou que os dormentes eram de uma madeira nobre.
Eu acho que praticamente todos os trilhos ficaram encobertos por asfalto, quando cobriram os paralelepípedos!
Quando trabalhei no cia de gás eliminando vazamentos na rede histórica de ferro fundido que alimentava os lampiões, as equipes possuíam mapas com as linhas de bonde pois sempre haviam que cortar dormentes de madeira que estavam perfeitos… madeira realmente nobre que dava muito trabalho, para conseguir chegar nos tubos enterrados. Pari, Brás, Cambuci, Pinheiros
Em 1959 estudava no Grupo Escolar Prudente de Moraes na Avenida Tiradentes no Bairro da Luz. Como havia me mudado para a Moóca, meu transporte principal e mais barato era o bonde Luz – Rubino de Oliveira que fazia ponto final na esquina da rua Rubino de Oliveira com a Av. Celso Garcia. Após, seguia à pé, durante meia hora, pela rua do Hipódromo até o no. 1642 onde morava. Foi assim até concluir o curso primário. Tempo bom que não volta mais.
Nasci no Ipiranga em 1960 e lá morei até os 6 anos e lembro muito bem de subir até a Silva Bueno para tomar o bonde, morava na Municipalidades e sempre tomava o Pça. João Mendes que voltava com Fábrica. Uma vez, estava com meu pai, na João Mendes, já prá voltarmos prá casa, quando encontramos o cantor Demétrius que me deu uma palhinha de seu sucesso A Bruxa, foi um show particular e fomos embora no próximo bonde! Tudo bom demais!