O passado do Brasil e de São Paulo foi intimamente ligado às ferrovias. Foi através delas que o café foi exportado para o mundo, que os imigrantes venceram a Serra do Mar e chegaram a Hospedaria dos Imigrantes, e que muitos acontecimentos históricos do país tomaram vulto.
E nada disso teria sido possível sem a figura do operário ferroviário que por todo o país fez a malha de trilhos se expandir. Foi pensando nisso que em 1956 o então vereador de São Paulo, Ermano Marchetti, propôs a criação de um monumento em homenagem a figura deste valente e desbravador operário brasileiro. Nasceria assim, dois anos mais tarde, o Monumento ao Ferroviário:

Para erigir o novo monumento da cidade foi destinada uma verba de Cr$ 300.00,00 (trezentos mil cruzeiros) e para tal foi escolhido o escultor Ricardo Cippichia, que alguns anos já havia se destacado no cenário das artes paulistanas com a obra Contando a Féria.
O local escolhido para o monumento foi determinado no mesmo projeto em que foi decidida a criação do projeto, sendo determinada a instalação na Praça Renê Barreto, no bairro da Lapa. A escolha deste local em particular foi em virtude de ser uma área de grande concentração ferroviária, com os pátios e galpões da São Paulo Railway e as duas estações da Lapa.
Assim, em 20 de setembro de 1958, era inaugurado o Monumento ao Ferroviário em uma cerimônia que reuniu vereadores, entidades e moradores da região. Para descobrir a escultura nesta inauguração, foi oficialmente convidado Francisco Botana, a época o mais antigo maquinista vivo de São Paulo, com 93 anos.

Infelizmente apesar dos esforços da municipalidade em homenagear a figura do ferroviário, o monumento nunca foi lá muito protegido, sendo dois anos depois já vítima de ataques e furtos. Ao longo das décadas o monumento chegou a desaparecer (e depois retornar) por duas oportunidades.
Uma reportagem do jornal Diário Popular, de 1964, dizia que o monumento e a praça estavam em completo abandono. Anos mais tarde a situação se resolveria com a instalação de uma cerca, que se mantém até os dias atuais. Nessas idas e vindas, algumas partes do monumento foram furtadas e até hoje não foram repostas.

Ao chegarmos ao local, deparamos com o fato da praça de além de ser cercada, sua porta é trancada com um cadeado cuja chaves descobrimos que fica em poder não da subprefeitura, mas com uma moradora do entorno que cuida do local.
É um caso que motiva discussões positivas e negativas. Se por um lado temos o monumento protegido graças a iniciativa de munícipes, por outro lado temos um monumento privado de sua principal função: a observação pública (veja a foto 1 da galeria no final do artigo).
Seria conveniente, ao menos, que o monumento seja deslocado mais para a frente da praça para que seja possível sua contemplação pelos paulistanos e, se possível, a instalação de uma iluminação pública para a visualização noturna.

Na foto acima, para se ter uma noção, você confere uma imagem do monumento poucos anos depois de ser inaugurado. Observem que ele ficava muito mais visível e de fácil observação. É possível notar também os ítens de bronze que ainda estavam no pedestal já tinham sido furtados:
Dados técnicos:
Monumento ao Ferroviário
Idealização: Ermano Marchetti
Autor: Ricardo Cippichia
Inauguração: 20 de setembro de 1958
Constituição: Base de granito, com adornos em bronze. Escultura em bronze.
Localização: Praça Renê Barreto, Lapa
Veja mais fotos (clique na foto para ampliar):




ATUALIZAÇÃO 02/02/2026:
Fomos informados no final de 2025, por um leitor do site São Paulo Antiga, de que a escultura não estava mais na praça e que teria sido furtada. Visitamos o local no último 25 de janeiro e pudemos conferir que realmente não estava mais no lugar (foto abaixo) e que restava apenas a base do monumento.

Uma moradora de diante da praça nos informou que a estátua tinha sido derrubada por ladrões, que só conseguiram levar um braço da obra, que ficou caída no chão. Dias depois um carro de serviço branco, supostamente da Prefeitura de São Paulo, passou no local e recolheu a escultura e desde então não tiveram mais notícias.
Consultei em 26 de janeiro tanto a Subprefeitura da Lapa quanto a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa sobre o paradeiro da obras mas, até o presente momento, não retornaram o contato. Caso alguma novidade venha a surgir, esse artigo será novamente atualizado.
Respostas de 13
O que acontece a este monumento e tantos outros é reflexo cabal da falta de educação (no sentido basal do termo, de saber portar-se e conviver em sociedade) e de cultura do brasileiro médio típico. E antes que os bairristas de plantão atirem pedras nos migrantes e imigrantes que compõem o mosaico paulistano, tem muita gente nascida aqui sem o menor senso e noção de civilidade. E se há uma coisa que é comum a praticamente todos os brasileiros, independente de sua classe social, é a falta de educação.
Concordo plenamente. A falta de educação é total.
Patético.
A certeza da impunidade alavanca a criminalidade.
Muito bonito e expressivo. Já que é tão dificil ver o monumento ao vivo, ao menos podemos apreciá-lo aqui, por imagem.
Êta povo ignorante. A coisa tá feia entre nós.
Se o monumento é uma homenagem aos ferroviários, ele também é uma homenagem ao meu vovozinho, que teve como único emprego, a São Paulo Railway, onde trabalhou como artesão por 50 anos, justamente nas oficinas da Lapa.
Parece um reflexo do descaso e da injustiça com as ferrovias, um meio de transporte de pessoas e cargas excepcional. Muito triste. Muitos ferroviários ajudaram a construir o Brasil e mereciam toda nossa admiração. Como diz Milton Nascimento em Ponta de Areia, “caminho de ferro, mandaram arrancar…”. Triste.
Aliás, segundo o que vemos aqui no site, parece que antigamente os caras estavam certos e tomaram rumos errados, pois antes se apoiava o transporte sobre trilhos e as bicicletas, mas graças a mentalidade de “pogresso” de “nossos” sucessivos governantes, a cidade é mais hostil hoje do que á anos atrás e não só por causa do aumento da população e de carros.
Esse monumento deveria está em Praça Pública aberta e não fechada como se fosse privativo.
É muito bem esculpida a estátua do ferroviário! Linda mesmo!
Vamos lá Estado de São Paulo, faz a tua vez, entra em ação! Prefeitura! Órgão Competente!
Reinaugura esta Praça com sua monumental estátua. São Paulo é o Estado mais rico do Brasil. Não deixa a sua história desaparecer!
Torcendo pra dar certo.
Amo São Paulo❤
Na verdade ele está em praça pública, a praça é que foi fechada. Absurdos que só acontecem no Brasil.
Parabéns pela matéria
Querido Douglas. Eu morei no nr 53 dessa praça.Derrube essa cerca e em 3 meses a vegetação irá desaparecer e o resto do monumento irá para fundição. Olhe as fotos antigas da estátua, a cerca foi colocada exatamente porque furtaram as rodas de trem que tinham no monumento. Suba na estátua, se não me engano, também há marcas de serra na estátua. A chave na mão do morador é a melhor coisa que aconteceu para essa praça e o monumento ainda existe por causa dessa chave. É a comunidade local cuidando da praça. Se você quiser apreciar a estátua, basta pedir para o morador responsável abrir a porta do jardim. Ah, pesquise nos jornais da Lapa, essa estátua foi furtada uma vez e depois apareceu misteriosamente. O caso ficou sem solução até onde eu sei. foi na década de 70.
Aqui neste Brasil ao invés de punir o ladrão e os vândalos, a população que é punida, não tendo nem o direito de saber da história!!!
Ter que pedir a chave para o coitado do morador, incomoda-lo, que vergonha de país!!!
Boa noite à todos, sou morador no numero 20 desta praça a 42 anos, ou seja, vi este patrimônio inteiro, intacto e sem grades e agora vejo nesta degradação. Concordo com o Renato, que também já morou aqui, se a tela for retirada em pouco tempo não haverá mais nada além da enorme árvore que existe e a estrutura da estátua será novamente usada para amarrar barracas de indigentes, como aconteceu no passado. No passado, antes de ser gradeada e um pouco de tempo depois das grades, havia uma senhora moradora da praça, de nome Margarida, que sempre olhou e cobrou da prefeitura as necessidades e manutenções dela, inclusive realizava hasteamento de bandeiras em datas cívicas, onde depois de seu falecimento nunca mais se viu este respeito. Realmente acho que monumentos deveriam ser preservados, respeitados e visitados, mas não neste estado de abandono e falta de comprometimento pela administração pública. Como morador e ex funcionário de empresas do ramo ferroviário (Fresinbra e Cobrasma) ficaria muito orgulhoso em ver este monumento devidamente conservado.