Villa Goulart

Já parou para imaginar quantas histórias interessantes de pessoas e casas de São Paulo simplesmente desapareceram porque não foram registradas ou documentadas em tempo hábil? Provavelmente centenas delas, senão milhares. Ao menos aqui no São Paulo Antiga tento fazer com que algumas delas sejam salvas do esquecimento eterno, como esta que apresento neste artigo: a Villa Goulart.

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Localizada na rua Major Diogo 566, Bela Vista, meio que escondida entre dois imóveis de gosto duvidoso e atrás de um jardim meio que mal cuidado, esse palacete resiste ao tempo como meio que preocupado de que sua história não passasse despercebida pelo tempo. Confesso que passo com uma razoável frequência por essa rua e já tinha visto o imóvel, mas como sempre tem algum caminhão estacionado na sua frente demorou para que eu pudesse, finalmente, fotografá-lo com calma.

E foi numa caminhada pela região em um domingo cedo que registrei fotos dele e, sobre uma janela, uma pequena placa de identificação escrita em português mais antigo me despertou ainda mais o interesse pela história que poderia estar escondida ali.

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Construída em 1934 o palacete batizado de Villa Goulart é uma das poucas casas antigas sobreviventes dessa rua, que vem perdendo o pouco que resta para prédios de apartamento minúsculos e pouco arejados como seu vizinho da direita. Aliás, sua ampla área livre e o jardim, que já teve dias melhores, são uma raridade em uma via que é especialmente caótica neste trecho.

O sobrado que tem um estilo eclético encontra-se em estado regular de conservação e parece funcionar como depósito de alguma empresa, aja visto que o recado que está fixado na porta principal de entrada e que faz menção a um almoxarifado. Uma pesquisa nos arquivos municipais me dão o retorno de que ao menos meados da década de 1960 o imóvel não pertence mais a um “Goulart”, mas a duas pessoas de sobrenome Almeida, cujo primeiro nome irei preservar.

Na foto, vista parcial da fachada (clique para ampliar)

O palacete da Villa Goulart é tombado como patrimônio histórico pelo Conpresp na delimitação da Área do Bixiga, cuja preservação estende-se a outros imóveis da mesma rua Major Diogo, como o extinto Café Guarany, desde 2002. No entanto é preciso maior rigor da Prefeitura de São Paulo, através do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) quanto a manter o imóvel em condições adequadas à sua relevância histórica.

Mas afinal quem foi o Goulart que dá nome à este aprazível palacete antigo?

O ZELADOR DO PARQUE TRIANON

O primeiro morador do palacete, cujo sobrenome batiza o local, foi Antônio Goulart, que residiu com sua mulher e filhos por décadas. Funcionário público municipal, Goulart exerceu um cargo muito curioso durante sua vida: foi o zelador do Parque Trianon, na avenida Paulista. Pesquisando nos diversos jornais paulistanos em circulação na primeira metade do século 20 é possível encontrar diversas menções à sua pessoa, seja sobre seu cotidiano de trabalho e até pedidos de aumento de salário.

Antônio Goulart também usava sua residência para reuniões de comitês eleitorais do bairro da Bela Vista, uma vez que era membro do diretório local do extinto Partido Republicano Paulista (PRP). Ele também exercia funções militares e detinha a patente de capitão. A Villa Goulart era registrada como sede do acantonamento norte da Bela Vista da Legião Paulista.

Não foi possível determinar a data de falecimento de Goulart, no entanto de acordo com listas telefônicas antigas, em 1961 o telefone da residência estava no nome de sua filha Sophia Orciouli Goulart, sendo que alguns anos mais tarde o palacete trocaria de proprietários. Abaixo você confere os telefones da Villa Goulart respectivamente em 1937 e 1961:

Abaixo você confere uma galeria com mais fotos da Villa Goulart, faço destaque as imagens do andar superior, sobre a janela do quarto, onde existe interessante adornos que parecem ser embarcações. Para ampliar a imagem basta clicar sobre ela.

Bibliografia consultada:

* Correio Paulistano – edição de 24/2/1920 pp 1
* Correio Paulistano – edição de 2/10/1925 pp 3
* Correio Paulistano – edição de 24/2/1927 pp 10
* Correio Paulistano – edição de 24/4/1941 pp 4
* O Combate – edição 19/11/1921 pp 1
* Lista telefônica de assinantes – Ano de 1961
* O Livro vermelho dos telefones – 1937-1938
* IPTU do Município de São Paulo – Exercício de 2025
* Bairro da Bela Vista – Minuta da resolução de tombamento, links consultados aqui e aqui em 29/8/2025

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Respostas de 3

  1. O palacete é mesmo muito bonito, me admira sua cuidadosa pesquisa, levando o leitor à viajar na história.
    Parabéns!

  2. Sim, uma bela construção!
    Na imagem do google, tem um poste bem à frente do portão de pedestres, algo que o autor, acertadamente, nos privou de ver. Ótimo!
    Mas com certeza, o primeiro proprietário tinha outras fontes de renda para conceber um casarão desses, autoral e rico em detalhes(o que encarece a mão-de-obra, como sabemos). Fora a localização, que já era valorizada à época.
    De lamentar as poltronas velhas, os latões, as tábuas…um ar de desleixo.

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