Uma pequena vila escondida na Baixada do Glicério

Sempre digo que o bairro da Liberdade tem duas faces: uma é a área turística, dominada por lanternas japonesas, restaurantes orientais, ruas cheias e muita atenção por parte da prefeitura. A outra, na baixada do Glicério, repleta de lixo nas ruas, abandono, assaltos e descaso. É como que se a parte baixa do bairro fosse uma realidade paralela, fora da jurisdição paulistana.

Caminhando recentemente pela região com a minha estimada amiga Rosseline do perfil do Instagram Baixada do Glicério Viva tive a oportunidade de conhecer alguns “cantinhos” da região que eu não conhecia tão bem e, graças a isso, pude adentrar nessa pequena vila que agora é um cortiço:

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Ok, talvez em um primeiro momento você veja a fotografia acima e diga “pô, que coisa velha e caindo aos pedaços”, mas sinceramente eu recomendo que tenha uma visão mais sensível para enxergar a relevância dessa velha vila de uma maneira mais profunda.

Com o tempo a vila sofreu diversas modificações e hoje a casa que é voltada para a rua foi transformada em um bar cujo dono, muito gentil, nos permitiu a visita na parte interna. É uma vila que sofreu muito com a passagem do tempo e hoje apresenta-se em um estado ruim de conservação, porém ainda servindo bravamente de residência para pessoas humildes que vivem no espaço.

Nas duas imagens abaixo você confere as mudanças recentes na fachada externa, respectivamente em 2023 e 2024, com a supressão da entrada original para os fundos da propriedade, no canto direito.

Conhecida informalmente no passado como Vila Spera trata-se de originalmente um conjunto de dez residências construídas em 1910 possivelmente por Francisco Spera que foi o primeiro proprietário do conjunto. Eram oito residências dentro da vila e mais duas na porção que dá para a rua do Lavapés, onde está localizada.

Da originalidade lá do início do século 20 sobrou muito pouco, mas ainda é possível identificar o ano de construção grafado na fachada entre as casas 2 e 3. No resto tudo foi transformado para atender as necessidades de seus moradores. Vendo a fotografia abaixo, aliás, arrisco dizer que me trás uma certa lembrança da vila do Chaves, pelo formato da residências.

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Normalmente as pessoas, o poder público e até alguns (poucos) pesquisadores não dão atenção a estas casas e vila com cortiço, alegando serem reles “casas velhas e caindo aos pedaços” contudo são muito importantes pois contam não só a nossa história, como também mostram os tipos de moradias que temos espalhados pela cidade.

Não sei se a casa tem um dono no documento ainda, mas caso não tenha seria importante o poder público regularizar a propriedade aos que usam essa moradia e, se possível, providenciar melhorias para que as pessoas tenham mais dignidade no seu dia a dia. Uma vila como essa pode sim ser uma confortável moradia popular.

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Respostas de 21

  1. Se eles fizessem uma vaquinha e assentassem piso de tijolo solido, ao inves do cimento, daria um aspecto melhor. **********************************************************************************
    E seria bom se eles investissem mais um pouco em jardinagem, e mantendo uniforme as fachadas das casas. Esta muito desfigurado. ********************************************************************************
    Outro aspecto interessante, e que eles nao precisam temer o avanco das incorporadoras. Busquem, no Youtube, The Life-Sized City – Montreal – S02 E0 ***********************************************************
    Prestem atencao entre 12:20 min e 15:10 min, quando se aborda a preservacao de um entorno-bairro chamado Milton Parc, em Montreal atraves de intervencao comunitaria local. *************************************************************
    Ate entao, os incorporadores puderam avancar, na tentativa de absorver seis quarteiroes, em 225 casas, porem, uma vez organizados, salvaram 640 edificacoes do avanco de incorporadoras. ************************************************Criou-se assim uma comunidade , “Milton Parc Community”, que barrou o avanco de incorporadoras, salvando-se 1500 habitacoes em varios tipos de moradias, atraves de uma associacao cooperativa.************************************************ No Estatuto, quintais, jardins frontais, e vielas pertencem a comunidade. E a premissa e que a venda ou aluguel jamais devera seguir forcas especulatorias.

  2. Eu penso que muito do descaso para com a região abordada, deve-se pelo fato de as casas antigas terem sido abandonadas pelos proprietários e/ou herdeiros. Daí para a chamada invasão é 1,2…E isso vale também para outras paragens antigas da cidade, como o Bixiga, exemplificando.
    Não acredito que uma região centralizada como a do Glicério não tenha coleta de lixo regularmente. Então, se o lixo se amontoa ou se espalha, o morador e o frequentador colaboram para tal. E isso acaba por acarretar os outros problemas apontados: assaltos, abandono, descaso…

    1. Me lembra a vila do Chaves, e conta muito bem a história e mostra sem filtros a passagem do tempo. Lugar incrível, que poderia ser preservado, uma pena !!!! Gosto desse jeito decadente, mas ruínas podem ruir !!

      1. Lembrei -me do Chaves também.
        A São Paulo antiga tem uma aura de mistério e magia que me encantam!
        Seria muito bom, se fosse restaurada e melhorada, para segurança e conforto dos moradores e também para que não morra no esquecimento seja marginalizada.

  3. Gostei demais deste trabalho – jornalístico, histórico e técnico. Vou “preencher a ficha” para receber mais matérias.
    Parabéns !

      1. Que matéria linda, morava nessa vila um amigo meu que já se foi, meu coração está cheio de alegria, parece que estou entrando lá,eu morava na rua da glória, uma pensão, e meu amigo Michel morava lá na vila, isso era na data de 83,85, que bom rever esse lugar,me lembrou de muitas coisas boas da minha infância, obrigada por este momento único.grata

  4. Morei nesta vila na década de 70,por sinal nesta casa pintada de amarela, ótima vizinhança, crianças brincando no pátio,cada um deixava seu automóvel estacionado em frente a sua casa,como deixaram deteriorado este local que era tão bonito.muito triste saber que virou um cortiço.

    1. Vcctem fotos da Vila na época que morou ? Seria interessante ter imagens de um período do local. Se tiver, o cabal poderia ver7f7car como compartilhar

  5. Nao deixe de ver a vila itororó, entre martiniano de carvalho e 13 de maio, no bixiga

  6. É um pedaço da história de um bairro que ficou esquecido, que precisa ser olhado com mais cuidado, lembrando que no passado deveria ser muito mais humanizado e agradável,

  7. Com o aumento de população que é normal creio que um futuro breve o Glicério sofrerá mudanças com as incorporadoras comprando terrenos e construindo novas residências e atraindo o comércio , bancos shopping para o local devido sua localização com fácil acesso para o Ipiranga e Litoral .

  8. Bom dia, gostei muito do artigo escrito pelo senhor, realmente existem coisas nesta cidade, e centro velho que não se explica, abandono e depois que resolveram fazer esses abrigos na cidade e bom prato, não sou contra, mais não tem organização, e tem muitas pessoas encostadas nisto, não querem trabalhar e nem estudar, às autoridades fazem vista grossa, porém, a situação já está um verdadeiro caos, ex presidiários que não poderiam estar soltos, tudo nas ruas, não é somente a Liberdade outros lugares ainda piores Bela Vista, uma lástima, Praça da Sé, e vai por aí, sucesso amigo continue escrevendo grande abraço ao amigo gostei muito.

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