Palacete de José de Souza Queiroz

Passear pelo bairro de Campos Elíseos, na região central de São Paulo, é basicamente uma aula de história e arquitetura. Seus palacetes e casarões, ao menos os que sobreviveram, permitem que através de uma caminhada por algumas de suas ruas, venhamos a conhecer sobre inúmeras personalidades que por ali residiram, como Elias Chaves, Olívia Guedes Penteado, Dino Bueno, etc. Hoje vocês irão conhecer a morada de mais um desses personagens: José de Souza Queiroz.

Na foto Gisela Braun e seu marido José de Souza Queiroz

Décimo segundo filho de Francisco Antônio de Souza Queiroz, ou Barão de Souza Queiroz como é mais conhecido, José de Souza Queiroz nasceu em São Paulo em 1853, estudou na Áustria e bacharelou-se pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Foi grande figurão da sociedade paulistana do final do século 19 e da primeira metade do século 20. Entre suas diversas atividades foi um dos fundadores, em 1889, do Banco do Comércio e Indústria de São Paulo S/A (que futuramente seria conhecido como COMIND), diretor da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e também presidiu, por mais de uma vez, o Jockey Club de São Paulo.

Cafeicultor e proprietário da Fazenda Cresciumal, localizada no município paulista de Leme, de acordo com seus descendentes foi o primeiro fazendeiro a atingir a marca de 1 milhão de pés de café.

A história de José de Souza Queiroz em Campos Elíseos começa na metade da primeira década do século passado, quando já chefe de uma família numerosa (ao todo teria 11 filhos) decide construir uma grande e confortável morada. Ele contrata seu sobrinho, o engenheiro Alberto de Oliveira Coutinho, para projetar sua residência.

clique na foto para ampliar

Inaugurado em 1909, o palacete que serviu de morada a José de Souza Queiroz está localizado no número 1355 da rua Conselheiro Nébias, esquina com a Alameda Ribeiro da Silva. Trata-se de uma suntuosa e confortável residência de dois andares e porão habitável, com duas entradas (social e serviço), contando com ao todo dez quartos que se intercomunicavam e circundavam o hall. No andar superior, além dos quartos, havia uma copa e dois banheiros.

No andar térreo, destacava-se o grandioso hall de pé direito duplo em estilo similar ao da Vila Penteado, sendo que na sua lateral tinha o acesso ao andar superior pela escadaria social ou pelo elevador de cristal. Neste mesmo piso tinha também a ampla sala de jantar (utilizada em festas e ocasiões especiais), sala de almoço, sala de visitas, cozinha, banheiro, escritório do proprietário e da governança, além de um salão onde a família se reunia para diversas atividades, como jogar ou tocar piano.

Abaixo você confere na galeria algumas imagens do interior da residência (clique na foto para ampliar):

O porão do imóvel era bem construído e ventilado além de completamente assoalhado e mobiliado, sendo que ali existiam diversos cômodos importantes do palacete como uma sala de aula para as crianças, dependências e banheiros dos empregados, adega e depósito. Além do palacete a propriedade possuía casa da governanta, lavanderia, horta, galinheiro e cocheira (este último em poucos anos transformado em garagem de automóvel).

Para manter a casa sempre em ótimo estado e asseada José de Souza Queiroz contava com um plantel de oito funcionários: governanta, camareiro, roupeiro, arrumadeira, copeira, cozinheira, jardineiro e motorista (inicialmente um cocheiro). Abaixo é possível conferir as plantas dos três níveis do palacete (clique para ampliar).

Nos detalhes da vida cotidiana da residência destaco a louça de porcelana francesa branca com filetes dourados utilizadas no dia a dia. Todas elas, bem como os copos de cristal, traziam grafados as iniciais do proprietário do palacete, JSQ, além de um desenho de uma abelha, um dos símbolos da nobreza da França. Todas as pelas vieram personalizados da Europa, junto de outras peças como pias, aparelhos sanitários, penicos e demais objetos.

A título de curiosidade apresento dois pratos deste maravilhoso conjunto, que foram colocados à disposição e posteriormente arrematados em leilão no ano de 2024. Abaixo é possível de conferir dois exemplares:

A abelha está colocada acima da letra “S” (clique para ampliar)

José de Souza Queiroz residiu no imóvel de 1909 até falecer em 1944, aos 90 anos de idade. Seus familiares continuaram residindo no imóvel ao longo das décadas seguintes, até que posteriormente, em 1963, o imóvel foi vendido para o Governo do Estado de São Paulo, onde inicialmente foi instalado um departamento da Secretaria Estadual de Saúde conhecido como Escritório Regional de Saúde (ERSA-1 Centro). O imóvel ainda teve outros usos como creche e, por último, a obra assistencial franciscana Fraternidade Toca de Assis.

O imóvel é tombado como patrimônio histórico do Estado de São Paulo pelo CONDEPHAAT, com grau de preservação integral das edificações, ou seja, são admitidas intervenções que permitam a adaptação dos espaços a eventuais necessidades atuais.

Abaixo mais imagens antigas do palacete, com destaque para o jardim, entrada e o hall da residência. Observe na última fotografia a escadaria e o elevador de cristal (clique para ampliar).

Notas:

*1 Fräulein Henriette Curlein, de origem alemã, era a governanta do palacete e preceptora dos filhos do casal Souza Queiroz e Gisela Braun. Era muito querida e admirada por todos, sendo que acabou sendo agregada pela família por decisão de José de Souza Queiroz.

*2 As fotografias antigas que ilustram essa primeira parte do artigo são do acervo do Álbum da Família de Jose de Souza Queiroz, arquivo de Nelson Penteado. Já as plantas foram extraídas da tese de doutorado de Maria Cecília Naclério Homem, apresentada em 1992 na FAU-USP.


O PALACETE HOJE EM DIA:

clique na foto para ampliar

Um dos mais emblemáticos e curiosos palacetes do bairro de Campos Elíseos, foi construído em estilo eclético e influência art noveau e poderia ser melhor aproveitado. Ele está há décadas sem um restauro significativo e já apresenta consideráveis sinais de desgaste.

O Governo do Estado de São Paulo não quis se responsabilizar por mantê-lo em boas condições e em 2013 colocou o imóvel à disposição, através de um leilão com lances iniciais em R$14.452.000,00. O imóvel foi arrematado mas até o momento não consegui apurar o nome do arrematante.

Nos últimos anos nota-se que ocorreu pintura do muro e gradis do palacete, bem como a recuperação das pintura da fachada. No entanto pouco se sabe sobre a situação do interior do imóvel, que durante o período em que esteve sob a tutela da Toca de Assis estava em mau estado de conservação (o que pude constatar na única vez que entrei lá, creio que em 2009).

Aqui era o portão social do palacete, posteriormente suprimido.

Uma curiosidade do palacete, visto na fotografia acima é sobre o antigo portão social, que era localizado na esquina e pode ser visto na primeira fotografia do imóvel, lá no início do artigo. Segundo informações de familiares este portão nunca era utilizado e uma das poucas vezes que se abriu foi para a saída do cortejo fúnebre de José de Souza Queiroz, em 1944. Por isso, posteriormente, o portão foi suprimido e nem parece que existiu. Não há informações sobre quando esse portão foi removido, mas já na década de 1960 ele não existia mais.

Atualmente o palacete tem dois acessos, sendo apenas um deles utilizado. Trata-se da entrada que originalmente era de veículos e se transformou em uma espécie de novo acesso principal. Há também um portão de ferro bem estreito, original, mas que não é utilizado há muitos anos.

DADOS TÉCNICOS:

Palacete de José de Souza Queiroz

Localização: Rua Conselheiro Nébias, 1355 – Campos Elíseos
Ano de construção: 1909
Projeto: Engenheiro Alberto de Oliveira Coutinho
Estilo arquitetônico: Eclético com influência art noveau
Situação: Tombado (Resolução SC 20 de 23/4/2013
Área total do terreno: 3642 m²
Área construída: 1600 m²

GALERIA DE FOTOS (clique na miniatura para ampliar):

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Respostas de 4

  1. Eu fico imensamente encantada com seu trabalho de catalogar e informar quem admira a arquitetura antiga sobre esses palacetes e casas . Parabéns pelo seu empenho e trabalho.
    Quanto ao palacete de José de Souza Queiroz, ele é aberto a visitação? Porque é maravilhoso.
    Queria muito ver um governo empenhado em restaurar esses patrimonios históricos, tão incríveis e importantes do nosso país.
    Temos tantas histórias pra contar , tantas histórias a conhecer, e essas paredes, escadas , jardins, contam muito.
    Mais uma vez , PARABÉNS

  2. Parabéns pelo seu trabalho.
    Magnífico ver alguem fora da arquitetura se interessar tanto pelas preciosidades ainda existentes embora abandonadas…
    Ele foi meu tataravô Pai de Elvira Isabel de Souza Queiroz minha bisavó casada com Manfredo Meyer.
    Desse casamento tiveram 18 filhos, uma delas minha avó materna.
    Continue nesse caminho maravilhoso das arquieturas a serem resgatadas !!!!

  3. Excelente o trabalho realizado, o registro histórico de histórias que ficariam perdidas e que farão toda diferença quando tivermos políticos de conscientes para protegem o patrimônio da cidade. Talvez algum dia!

  4. Espetacular essa sua exposição de um imóvel histórico de famílias paulistas e seculares. Parabéns!

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