Desde os primeiros anos do século 20 São Paulo já estava predestinada a ser uma das maiores cidades do país. Se por um lado muitos achavam que o Rio de Janeiro, então capital federal, continuaria liderando como a maior das maiores, o desenvolvimento paulistano ia a todo o vapor e em 1960 tomou de vez o primeiro lugar da Cidade Maravilhosa.
Esse crescimento levou prefeitos, legisladores e urbanistas a tecer os planos do que seria São Paulo no futuro, de modo a transformar radicalmente aquela velha cidade, ainda com alguns traços arquitetônicos coloniais, em uma metrópole arrojada e moderna.

De todos os prefeitos paulistanos focados em uma transformação urbana, Francisco Prestes Maia (*1896 +1965) foi o que mais se dedicou a causa, cujo legado é conhecido através de seu “Plano de Avenidas de São Paulo” que contou com a colaboração do engenheiro João Florence de Ulhôa Cintra.
Foi em seu primeiro mandato como prefeito de São Paulo (1938-1945) que o ex-aluno da Escola Politécnica da USP pode colocar em execução uma parte de seus projetos previstos no plano de avenidas, que até hoje é considerado como um dos documentos cruciais do urbanismo brasileiro. Contudo um de seus projetos – que jamais saiu do papel – poderia ter transformado radicalmente a paisagem urbana de uma importante região paulistana: a zona norte.
A CIDADE DOS RIOS
Nas primeiras três décadas do século passado, São Paulo ainda era uma cidade com inúmeros rios a céu aberto, coisa que hoje se restringe aos poluídos Pinheiros, Tietê, Tamanduateí e alguns outros córregos. Na era de Prestes Maia o Tamanduateí já havia sido retificado, como conhecemos hoje, em 1928. Mas Tietê e Pinheiros ainda eram “indomados” e repleto de curvas cujo plano de avenidas previa suas retificações.

Porém São Paulo tinha uma série de clubes que faziam dos rios seus grandes espaços de competições, treinos e lazer e ver seus rios virarem meros coadjuvantes do sistema viário paulistano era algo que incomodava essas entidades, que previam que tal obra poderia significar sua extinção.
Assim clubes como Esperia, Tietê, Corinthians e tantos outros pressionaram a prefeitura a pensar em uma solução que não acabasse com suas atividades de regatas, que era largamente realizada especialmente no rio Tietê.
O PARQUE NÁUTICO
E então foi desenvolvido um projeto que transformava parte da antiga área do curso original do rio Tietê, uma vez retificado, em um enorme parque náutico paulistano, com muito verde, áreas de lazer, e uma grande raia para competições esportivas, com 2500 metros de extensão. Tudo isso em uma área servida por transporte público abundante, como trens, bondes e ônibus.

A área seria desfrutada por todos os clubes que tivessem atividades de regatas e prometia ser uma das maiores praças esportivas do país, mas infelizmente jamais saiu do papel. Com a mudança de prefeito e das prioridades para São Paulo o parque náutico acabou se tornando apenas uma grande ideia no papel frustrando os clubes e praticantes de atividades desportivas náuticas.
Hoje neste espaço existem três grandes construções: o terminal rodoviário do Tietê, o Shopping Center Norte e o Lar Center. Como teria sido o desenvolvimento da região sem estes espaços disponíveis? Jamais saberemos.
Respostas de 7
Que pena que não foi realizado, pois São Paulo é uma cidade árida e até as pequenas fontes foram destruídas.
Podemos lembrar que água é um bem restrito nesta metrópole, a população de rua pede água aos passantes e usam as esmolas para comprarem água, pois não há disponível e os bares nem sempre fornecem.
Isto sem falar que aqui em São Paulo,e em outras cidades brasileiras também, os corregos são considerados como valas de esgoto e são tampados como é o caso do Anhangabau e muitos outros.
Bom dia Douglas, tudo bem?
Olhando o mapa, achei que o clube seria do Shopping D até onde está o Canindé hoje, porque a Rodoviária do Tietê está do outro lado rio. Me corrija se eu estiver engando, mas foi como eu entendi o mapa. Parabéns pelo artigo!
É na outra margem do rio, observe a Penitenciaria do Estado ao lado, atual Presidio Feminino, de fato é na regiao onde hoje ficam a Rodoviária do Tietê, Shopping Center Norte, Lar Center, Expo Center e etc.
E lembrar que o rio Tietê era limpo.
Toda essa várzea foi aterrada com lixo durante décadas. O melhor projeto para a várzea do Tietê foi do professor Saturnino de Brito, que se tivesse sido adotado teríamos uma cidade muito diferente.
Na verdade, o projeto do Saturnino era pouco diferente do Plano de Avenidas. Ambos previam um lago central, avenidas marginais, e algumas praças e parques em torno do rio. Ambos também previam construções nas margens do rio. A diferença do projeto do Saturnino era o canal ser um pouco mais sinuoso. O problema foi que nenhum dos dois projetos foi executado na totalidade. O clima rodoviarista de meados do século XX só permitiu a canalização do rio e a construção das marginais. Todo o resto ficou no papel. Teríamos maior sorte se a retificação tivesse ocorrido entre 1900-1930, em que o urbanismo era menos megalomaníaco e mais ligado à criação de ambientes agradáveis. Toda intervenção urbana realizada em São Paulo de 1930 a 1970 foi pavorosa.