O Castelinho da Vila Ema

O bairro paulistano de Vila Ema, na zona leste de São Paulo, é uma região bem populosa e bastante agradável, cujas características peculiares a fazem parecer até uma cidade à parte. Suas origens remetem ao final do século 19, precisamente em 1891, quando um trio de investidores comprou uma grande gleba de terras vizinhas as da Vila Prudente.

Victor Nothmann, Cícero Bastos e Manoel Ferreira Redondo foram os compradores, mas algum tempo depois, em 1893, Nothmann comprou a parte dos sócios e ficou sozinho no negócio. Foi neste momento que ele iniciou o loteamento do bairro, batizando-o com o nome da sua esposa, Emma Waegli Nothmann, ou seja, Vila Ema.

Emma Nothmann à direta e, no destaque, seu marido Victor Nothmann

Ao contrário da vizinha Vila Prudente onde os Falchi idealizaram um bairro industrial e operário, Victor Nothmann tinha planos diferentes. Ele focou o loteamento em chácaras, sítios, granjas e casas de campo, sendo boa parte dele negociada para pessoas de origem alemã. Por lá até uma Deutsche Schule chegou a existir.

Passados os anos, conforme o loteamento do bairro prosperava, surgiu a necessidade de um melhor abastecimento de água na região. Afastado do centro e basicamente uma região rural que mal constava nos mapas paulistanos do início do século passado, a Vila Ema não tinha um sistema eficiente de abastecimento de água.

Fragmento de mapa de São Paulo em 1930 (Sara Brasil) com a caixa d’água em destaque vermelho

Em razão disso em algum momento do século 20 (carece de fontes oficiais mas moradores mais antigos afirmam ser na década de 1950) surge a ideia da construção de uma caixa d’água que possa atender as necessidades de abastecimento dos moradores.

E assim surgiu uma das obras arquitetônicas mais peculiares e curiosas de São Paulo, a caixa d´água de Vila Ema, São Lucas e arredores. Seu formato cilíndrico talvez teria passado despercebido, não fosse pela ideia de executar as obras com traços que trazem bastante semelhança com uma torre de castelo medieval. Não à toa foi “batizada” carinhosamente pelos moradores como “Castelinho da Vila Ema”.

Localizada bem ao centro da praça Kalil Alle Mamede a caixa d’água que os moradores costumam chamar de castelinho fica em uma porção mais alta do terreno, bem ao lado de uma quadra poliesportiva.

Sua estrutura é bem reforçada pois parece ser construída em duas camadas, uma externa mais decorativa e outra funcional, mais robusta por dentro. Há algumas janelas estreitas na segunda camada da torre mas ela é visivelmente decorativa. Sua base está instalada sobre uma área elevada e isolada por uma muralha baixa de pedras. No topo existe um alçapão de inspeção.

Pela imagem de drone é possível ver o alçapão para inspeção e manutenção

PATRIMÔNIO EM RISCO

Apesar de ser um importante símbolo para o bairro de Vila Ema e para a história de São Paulo até hoje não foi feito o tombamento da caixa d’água como patrimônio histórico paulistano. Na praça sequer há uma placa identificando ou explicando a história desta edificação.

O resultado desse esquecimento por parte do poder público é o abandono que se agrava dia após dia, seja pela quantidade de lixo acumulada no topo desta construção, da pixação e, principalmente, da falta de manutenção. Esse descaso já começa a deixar a parte interna da estrutura, em sua base, exposta.

Rachadura na base da caixa d’água deixa a estrutura interna exposta, aumentando o desgaste

Essa enorme fissura na parte inferior deixou moradores do entorno e frequentadores da praça onde está a caixa d’água assustados com a possibilidade de um desabamento. Surgiu também um boato na região de que a estrutura seria demolida, mas não encontrei em conversas com funcionários da subprefeitura de Vila Prudente nada que confirmasse alguma ação neste sentido.

O que ocorreu, na verdade, foi a visita de um engenheiro da prefeitura, João Luis Maranhão Biscaia, a pedido da Defesa Civil e da SIURB para a produção de um laudo sobre a caixa d’água. Neste laudo, disponível para consulta aqui, ele deu duas hipóteses para o objeto: demolição ou reforma. O primeiro com orçamento em R$300.000 e o segundo em R$1.500.000 (valores estimados). Ou seja temos dois caminhos possíveis para o futuro da caixa d’água.

Arruamento de 1958, com a caixa d’água destacada em vermelho

Decidi procurar alguns vereadores que atuam na região para saber se algo pode ser feito em busca da preservação. Apenas o vereador paulistano Toninho Vespoli (PSOL) respondeu. Ele garantiu total compromisso de seu mandato não só pela restauração da caixa d’água, como providenciar um estudo e pedido de tombamento. O vereador também tomou conhecimento, através do São Paulo Antiga, do total abandono da quadra poliesportiva que existe ao lado, sem aros, traves e bastante desgastada e prometeu agir.

É muito triste que não exista nenhum bem histórico tombado nessa região, algo que deixa claro que as autoridades municipais desprezam a cultura de localidades distantes do centro da cidade. Oxalá que o primeiro bem tombado por ali venha ser esta caixa d´água, ou melhor, o Castelinho de Vila Ema.

Os moradores da região se mobilizaram pela preservação da caixa d’água e criaram um abaixo assinado para pressionar a Prefeitura de São Paulo a restaurá-lo. Se você leu este artigo até aqui seja solidário com o movimento e, assim como eu, assine-o. Basta clicar aqui.

Veja mais fotos aqui nesta galeria (clique na foto para ampliar):

NOTA: a última foto desta galeria é uma sugestão feita por inteligência artificial mostrando como poderia ficar a caixa d’água depois de restaurada.

Assista ao vídeo:

Compartilhe este texto em suas redes sociais:
X
WhatsApp
Facebook
Telegram
Threads

Respostas de 7

  1. Farol do Jaguaré é um local muito interessante e a casa do bandeirante.perto da Usp

  2. Parabéns a todos que estão empenhados para resolver essa situação.
    Acho super importante tombamentos históricos, pois com isso, mostram com suas construções a história da formação dos bairros, a época, e seus fundadores. Todas as informações devem ser registradas em placas explicativas, fixadas nas construções, para que todos conheçam a história do bairro que moram ou visitam.
    Nenhuma história deve ser esquecida e muito menos apagada por abandono e descaso.

  3. se me pagar R$ 200.000,00 eu mesmo faço a Demolição um absurdo cobrar R$ 300.000,00 para demolir uma história o cara vai com uma retroescavadeira e faz isso em minuto depois e só jogar o entulho no ecoponto

  4. A subprefeitura não fez questão nenhuma de conservar, agora vem com os valores extremamente fora da realidade para reformar e demolir. Desculpe a franqueza mas tem algo muito errado nisso. Precisamos de uma praça funcional para todos , aparelhos de ginástica arrumados , a quadra com traves e tabela de basquete e com alambrados novos e . balanços, barras para treinamento e uma iluminação que afaste chances de assaltos.

  5. Muito interessante seu trabalho. Se puder ajudar divulgando-o avise-me obrigado. Abraços!

  6. Uma vergonha o descaso deste patrimônio na região da Vila Ema. Já basta terem destruído os casarões onde hoje esta localizado os condomínios ” Parque Rhomaz Saraiva 1 e 2″, e os da antiga estrada da Vila Ema, atual Avenida Vila Ema.

  7. Mais um patrimônio da cidade de São Paulo, que está precisando de ser protegido.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Siga nossas redes sociais:
pesquise em nosso site:
Newsletter - São PAULO ANTIGA
Leia no seu e-mail

Digite seu de e-mail para assinar este site e receber notificações de novas publicações na sua caixa postal.

Junte-se a 2.451 outros assinantes
ouça a nossa playlist:
Substack - O Amigo da Cidade