A segunda morte de Fulvio Pennacchi

Tem um ditado muito popular que diz “vão se os anéis e ficam os dedos”. Conhecendo como herdeiros lidam com o patrimônio e a herança cultural deixada por seus pais poderia ser criado um novo ditado: “vão se os pais, ficam os herdeiros”.

Foi com absoluta incredulidade que recebi, meses atrás, a notícia de que os filhos do grande artista ítalo-brasileiro Fulvio Pennachi estavam tramando o fechamento definitivo da casa museu deixada pelo pai e, na sequência, se desfazer da casa e do acervo. Não me parecia possível nem razoável que isso poderia acontecer.

Na montagem Fulvio Pennacchi e sua residência no Jardim Europa

A alegação inicial, de incapacidade financeira de gerir o imóvel e as atividades museológicas, a princípio soa justa. No entanto penso que, antes de colocar o todo o legado em risco, o mais prudente seria buscar uma instituição (pública ou privada) que aceitasse bancar as atividades e custos do espaço. Mas o que parecia boato realmente aconteceu e o resultado foi muito pior do que se poderia esperar (ou não, tento em vista que herdeiros no Brasil geralmente se movem pelo dinheiro e não pela memória e legado cultural).

Os herdeiros, em sua maioria, foram favoráveis a destruição não apenas da casa, vendida para um empresário qualquer que já disse que irá desfigurá-la, como pelo esquartejamento do acervo que será espalhado por instituições pelo país (nenhuma em São Paulo).

Toda essa tragédia, que com certeza revirou Pennacchi do túmulo, mostra o quanto a elite brasileira dá de ombros para o patrimônio cultural. Além da estupidez dos herdeiros, o qual isento Paulo Pennachi, o único lúcido o suficiente para enxergar o erro sendo cometido, soma-se a ineficiência do Estado e Prefeitura de São Paulo em proteger e manter a casa de pé e o acervo nesta cidade, além da inoperância de políticos que, mesmo sabendo do caso com a mesma antecedência do que eu, nada fizeram.

Um exemplo: visitei Andrea Matarazzo, o qual muito estimo, em fevereiro desse ano e comentei o caso, enquanto discutíamos outros assuntos. Para quem não sabe aqui cabe um adendo: Fulvio Pennacchi foi casado com Filomena Matarrazo, tia de Andrea.

Após contar a situação ao Andrea, ouvi dele que o caso já era de seu conhecimento há algum tempo. E aqui minha crítica: ele não manifestou vontade alguma de usar sua influência adquirida de décadas como embaixador, vereador e secretário para tentar reverter essa tragédia cultural. Sua imobilidade neste caso soou como o melancólico fim de um homem que um dia sonhou em ser prefeito de São Paulo, mas que neste caso silenciou-se.

Cheguei a agendar uma visita à casa de Pennacchi junto com o vereador Nabil Bonduki para ver se ainda poderia ser feito algo, mas já era tarde demais. Importante dizer que há meses os responsáveis pelos órgãos de preservação municipal e estadual, respectivamente Conpresp e Condephaat, sabiam do caso e poderiam ter agido para salvar o patrimônio porém não moveram uma palha sequer.

Além das centenas de obras espalhadas pelo imóvel saliento que a própria residência em si é uma peça de arte, afinal foi o próprio Pennachi que desenhou o casarão nos anos 1940. E, aos que desconhecem o legado de Fulvio Pennachi e sua contribuição para a história das artes no Brasil faço um apelo: leiam tudo que puderem sobre o artista e irão entender o motivo da minha indignação e de tantas outras pessoas.

Sem muito o que se possa fazer daqui por diante, nos resta assistir ao tráfico fim que o destino reservou para a antiga residência de Fulvio Pennacchi e seu acervo. Já os herdeiros, esses estarão bem felizes com as dezenas de milhões de reais que receberão. O dinheiro não é o metanol misturado no uísque, mas também cega.

Descanse em paz em sua segunda morte, Fulvio Pennachi!

Tour virtual – Galeria de fotos (clique para ampliar):

DADOS:

Casa Fulvio Pennacchi
Arquiteto: José Augusto Bellucci
📍Rua Espanha, 312 – Jardim Europa

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Respostas de 5

  1. O que esperar de políticos que como dizia Paulo Ricardo, do RPM, que só pensam em seu próprio bem? Que esperar de familiares que só pensam em seu próprio bem?
    E o que esperar de uma nação que a maioria do povo e de políticos que não receberam nenhuma educação de Moral e civica e OSPB, ou se receberam não sabem pra que serve?
    Eita país sem memória.
    Da nojo.
    Hoje tive que ir no centro de SP, por sinal dizem centro histórico, fiquei assustado, ver ruas como Florêncio de Abreu, José Bonifácio, Praça da Sé entre outras cheias de indigentes, sujas, fétidas, esburacadas e banheiros públicos nas escadarias de viadutos e nas proximidades do metrô.
    O que esperar do futuro, a aí, vou pensar como os herdeiros do Fulvio: pra que preservar numa cidade, e por que não, num país, que não tem memória e não valoriza e preserva o que tem de importante realizado por seus cidadãos.
    Triste uma tristeza tristemente Triste.

  2. Acompanhei o caso de perto e o descaso com o patrimônio histórico e cultural grassa.
    Não só o compressp e o condephaat, sob a gestão dos interesses de direita deixaram de agir; políticos, tanto da direita, como os de esquerda, assim como representantes da comunidade italiana, todos acionados para ajudar na interferência para preservar o legado de Pennacchi, convenientemente deixaram de agir.
    Espantosamente, o próprio Nabil Bonduki, tão cioso com o patrimônio alheio quando o caso rende mídia e sabedor deste caso com meses de antecedência antes do desfecho, deixou de agir neste caso do legado de Pennacchi e pelo que se transpirou como razões, foram suas relações de amizade com os herdeiros Pennacchi.
    Infelizmente a inação deixou seu preço.
    Quem perde é a obra de Pennacchi que tem a sua memória e a sua preservação esquartejadas e relegadas ao esquecimento.
    Tristemente quem perde mesmo é São Paulo.

  3. Curioso que quanto mais se tem, mais se quer. É comum pessoas guardarem pequenos objetos que relembrem memórias de família, como uma medalha, um objeto pessoal, e tantas coisas que valorizem nossas memórias. No meu caso é assim. Outras, no entanto, apagam da mesma memória o que se foi. O que há por trás disso?

  4. Lamentável o descaso dos políticos, como também da comunidade, ignorando tão grande e importante acervo cultural e artística.

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