A casa secreta da Marginal Tietê

Em um tempo já distante os dois principais rios que atravessam a cidade de São Paulo, o Tietê e Pinheiros, não só eram limpos como tinham um traçado completamente diferente do que observamos nos mapas de hoje. No início do século passado veio a retificação do rio Tamanduateí e, como o resultado agradou os gestores da época, essa ideia acabou sendo ampliada para os outros que citei acima.

Há um século o saneamento básico e a distribuição de água ainda não era universalizado na cidade e, excetuando-se o centro e algumas outras poucas regiões o restante da capital tinham problemas que não afetavam apenas as residências como também as indústrias.

complexo industrial da IRFM na Água Branca (clique para ampliar)

E uma delas as Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo (IRFM), tinha um grande complexo industrial na região da Água Branca que carecia de água. Inaugurado na década de 1920, o núcleo da Matarazzo no bairro reunia um grande complexo de fábricas do grupo. Tinha refinaria de açúcar, serraria, fábricas de prego, giz, graxa e tantas outras que demandavam um elevado consumo de energia elétrica e água.

Para alimentar tanto a produção de energia quanto água para funcionários e atividades da fábrica em geral, a IRFM teve uma ideia muito eficiente: levar água do rio Tietê até as fábricas. Para isso foi criado uma casa de bombas bem ao lado da marginal do rio, que bombeava a água, filtrava e levava até a casa das caldeiras através de uma tubulação própria.

O mapa abaixo, de 1951, mostra o local onde foi construído a casa de bombas e o local onde ficava o complexo industrial:

clique para ampliar

A casa de bombas foi construída na década de 1930 e junto dela foi erguida uma casa para servir de residência para o funcionário que trabalharia no local e seria o responsável por gerir o funcionamento. A primeira casa de bombas era bem junto ao rio mas, na década de 1940 com a retificação do rio Tietê ela foi reconstruída no local onde se encontra até os dias atuais. O endereço oficial é Avenida Presidente Castelo Branco, 7567.

Para a trabalhar na casa de bombas as Indústrias Matarazzo contrataram Ricardo Piccelli, que foi admitido na IRFM em julho de 1930 e ficou como o responsável da área até o final da sua vida, já nos anos 1970. O curioso é que seu sucessor foi seu próprio filho, Cláudio, que foi admitido em 1972 e trabalhou no local até que o sistema de bombeamento fosse desativado, em 1986, quando as indústrias foram transferidas para o interior paulista.

os crachás de identificação de filho (esquerda) e pai, ambos funcionários da IRFM (clique para ampliar)

Quando isso ocorreu Cláudio, tal qual fez seu pai, continuou vivendo na residência funcional localizada junto à casa de bombas, permanecendo por ali até falecer. Após sua morte seus familiares, esposa e filhos, não receberam orientação de deixar o local e continuaram na casa até o fim de setembro de 2025, quando se mudaram dali após uma intimação de despejo feita pela Prefeitura de São Paulo.

Heide e sua mãe Maria de Arruda Picelli, as últimas moradores do local (clique para ampliar)

Neste artigo não me cabe julgar se a família, a qual conheço, deveria sair ou permanecer na área ou se deveriam ou não receber algum tipo de indenização ou cadastro no sistema de moradias populares. O que me cabe é conta a história do lugar e certificar que o espaço seja preservado e a história contada.

O ESPAÇO EM 2025:

Eu já tinha visitado a casa de bombas a convite da filha do último funcionário da IRFM, a Heide, em 2019. Na época fotografei todo o complexo pela primeira vez junto com o colunista do site e amigo José Vignoli, mas optei em não publicar nada para não prejudicar os moradores. Agora, em 2025, fui convidado a retornar ao local há poucos dias deles se mudarem e resolvi contar a história a todos vocês leitores e leitoras.

O resultado da visita foi um mini documentário onde não só mostrei o local e contei a história, como entrevistei Heide Picelli e sua mãe, Maria de Arruda Picelli. Convido-os a assistir aqui:

O FUTURO: PARQUE E TOMBAMENTO

No dia 2 de outubro, exatamente dos dias depois da saída da família do local, retornei ao espaço junto com o vereador paulistano Nabil Bonduki (PT) e servidores da SP Urbanismo, órgão da Prefeitura de São Paulo. A área foi completamente vistoriada e o poder municipal assegurou que o local não será destruído e, em breve, deverá ser revitalizado. Agora resta esperar e ficar de olho nos acontecimentos que virão.

Enquanto isso o gabinete de Nabil Bonduki já entrou com um pedido de tombamento da área junto ao Conpresp. O objetivo do mandato do vereador e do São Paulo Antiga é que o local seja preservado em suas características originais e transformado em um parque público, com o adicional de contar a história do que foi e para que servia a casa de bombas da Marginal Tietê.

E você já tinha visto esta casa escondida entre as árvores ali ao lado da ponte Júlio de Mesquita Neto? Deixe seu comentário.

Abaixo você confere a galeria de fotos do espaço:

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Respostas de 2

  1. Esse espaço sendo tombado e revitalizado, dará uma aprazível área pra passeios.

  2. Quando falo que a política não é pro bem de todos e sim de alguns muitos não entendem, principalmente os idólatras que nunca melhoram de vida, mas precisam de um ideal medíocr3 como eles.

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