
O Apartamento Caquinhos, projetado pela COTA760 Arquitetura, partiu da reforma de um apartamento existente localizado no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, Brasil. O projeto reinterpreta elementos tradicionais da arquitetura brasileira para construir um espaço doméstico contemporâneo enraizado na memória, na materialidade e no uso cotidiano.
A reforma marca um novo capítulo na vida dos moradores, um casal jovem que recentemente deixou a cidade de São Paulo para viver no interior, mantendo o apartamento como base quando retornam à cidade. Essa condição transitória orientou a abordagem arquitetônica, conduzindo à criação de um ambiente mais aberto e flexível, capaz de acomodar estadias dinâmicas sem perder a sensação de conforto e familiaridade.


Uma das principais transformações do projeto ocorreu por meio da reconfiguração do layout do apartamento. Demolições estratégicas entre a sala e a cozinha abriram espaço para uma área social mais ampla e contínua, permitindo que a luz natural alcançasse os ambientes coletivos de maneira mais generosa. A cozinha, antes compartimentada, passa a integrar ativamente o cotidiano do apartamento, enquanto a sala ganha continuidade espacial e novas possibilidades de uso.
Os ambientes de estar, jantar e cozinha organizam-se como uma sequência integrada de espaços, reforçando o papel do núcleo social do apartamento. A sala mantém uma paleta mais neutra e incorpora peças de mobiliário já pertencentes aos moradores, criando uma base mais silenciosa que permite à cozinha assumir uma presença arquitetônica mais expressiva.


A materialidade desempenha um papel central na identidade do projeto. Desde as etapas iniciais do desenho, as referências trazidas pelos clientes apontavam para materiais ligados à memória e ao afeto, reinterpretados por meio de soluções contemporâneas adequadas ao uso cotidiano. Dois elementos profundamente associados à cultura arquitetônica paulistana, os cobogós cerâmicos e os pisos em caquinhos, tornaram-se os principais componentes da linguagem do projeto.
Na cozinha, esses elementos se organizam como um núcleo expressivo em tons terrosos que estrutura o espaço. Os cobogós cerâmicos filtram visuais e criam transições sutis entre os ambientes, enquanto o piso em caquinhos introduz textura e reforça o caráter tátil do interior. A bancada em granito vermelho Brasília escovado completa essa composição, reforçando a unidade cromática do ambiente e consolidando a cozinha como elemento central do apartamento.



Ao longo do projeto, os cobogós também funcionam como interfaces espaciais entre diferentes usos. Entre a cozinha e a lavanderia, permitem a passagem de luz natural e ventilação cruzada, ao mesmo tempo em que criam uma separação visual leve. A lavanderia permanece aberta e funcional, com os cobogós ocultando parcialmente o ambiente sem isolá-lo completamente do restante do apartamento.
Essa estratégia reflete o desejo dos moradores por uma casa prática e integrada, onde as funções cotidianas são resolvidas de maneira direta e eficiente sem comprometer a continuidade espacial. A marcenaria sob medida também contribui para a articulação dos ambientes. Posicionada junto à ilha da cozinha, ela funciona como elemento de transição entre a cozinha e a sala de estar. O desenho considera alinhamentos precisos com os cobogós e a bancada em granito, criando encaixes que reforçam a continuidade espacial.

O uso da madeira compensada reforça o equilíbrio do projeto entre rusticidade e simplicidade contemporânea, oferecendo uma solução econômica e durável, ao mesmo tempo em que amplia o caráter acolhedor e tátil dos interiores. No banheiro, o layout foi reorganizado para melhorar a circulação e o uso cotidiano. Ajustes sutis no posicionamento dos elementos permitiram criar áreas de apoio mais eficientes, mantendo coerência com a paleta material do restante do apartamento. Tons quentes e terrosos dão continuidade à linguagem cromática dos espaços sociais, enquanto geometrias simples valorizam as qualidades materiais de cada elemento.
Em todo o apartamento, os pisos em caquinhos e os cobogós aparecem não apenas como acabamentos, mas como elementos construtivos e espaciais que moldam a identidade do projeto. Suas texturas, cores e ritmos evocam referências às casas brasileiras populares construídas entre as décadas de 1940 e 1960, colocando memórias coletivas em diálogo com a vida doméstica contemporânea. Por meio da releitura desses materiais, o Apartamento Caquinhos transforma uma habitação urbana convencional em um refúgio compacto e expressivo. O projeto demonstra como materiais simples e familiares podem estruturar espaços ao mesmo tempo funcionais e profundamente conectados à memória cultural.

Nota: todas as fotografias deste artigo por Leila Viegas
Sobre a COTA760
Nomeada a partir da altitude média de São Paulo, 760 metros acima do nível do mar, a COTA760 reflete o compromisso do escritório em criar conexões significativas entre território e pessoas. Fundado pelos arquitetos Luis Rossi, Nicolas Le Roux e Paula Lemos, todos formados pela FAU-USP, o escritório desenvolve projetos que combinam estética, funcionalidade e responsabilidade ambiental.
Com o uso de tecnologias como BIM, a COTA760 garante precisão, eficiência e controle rigoroso de qualidade em todas as etapas do projeto. Seus trabalhos destacam-se pela atenção aos contextos locais e pela criação de experiências espaciais únicas, capazes de refletir a individualidade de cada cliente.
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