A história do Cine Metro

Até pouco mais da primeira metade do século 20 não houve em São Paulo uma área tão dedicada à sétima arte como a avenida São João. Repleta de cinemas, muitos deles grandes e luxuosos. E foi por lá que surgiu, em 1938, aquele que foi um dos mais importantes, concorridos e relevantes da capital paulista: o Cine Metro.

O Cine Metro, no dia de sua inauguração, há poucas horas de sua abertura oficial

Localizado no número 791 da avenida São João, o Metro foi inaugurado em 15 de março de 1938 em um acontecimento que literalmente “parou a cidade” aja visto a enorme quantidade de pessoas que se dirigiram até a região, para assistir ao filme “Melodia da Broadway 1938”, com Robert Taylor e Eleanor Powell e grande elenco.

Dizem que o nome do filme e a multidão que compareceu na estreia do cinema foi um dos gatilhos para a avenida São João ganhar o apelido de Broadway de São Paulo. Afinal, com suas salas de cinema sempre cheias e a intensa movimentação de pessoas, circulando entre as salas e os cafés, a região lembrava muito a original de Nova York.

anúncio de divulgação da estreia, veiculado no extinto jornal Correio Paulistano

A nova sala paulistana era grandiosa e luxuosa. De propriedade inicialmente da Metro-Goldwin-Mayer (MGM) do Brasil, o Metro tinha capacidade para 1605 espectadores, acomodados de maneira bem confortável em plateia e balcão. O estilo arquitetônico do cinema seguia o estilo padrão da MGM.

Foi o primeiro cinema paulistano equipado com ar-condicionado, além de ter poltronas todas confeccionadas em couro legítimo. Na galeria abaixo você pode conferir o luxo e sofisticação do local (clique na imagem para ampliar):

No quesito de atendimento ao público a casa tinha um esmero muito superior aos concorrentes, com funcionários vestindo uniformes brancos bem alinhados e elegantes, além de serem treinados a seguir regras de etiqueta. Na entrada do cinema, especificamente na calçada, ficava um funcionário uniformizado como um oficial palaciano (daqueles que vemos em portas de hotéis de filmes estadunidenses), que seguia protocolos específicos para receber as pessoas que chegavam de carro ao local.

Uma particularidade deste estabelecimento era o fato que, por vários anos, foi exigido aos homens que frequentassem o cine Metro que estivesse devidamente trajados com gravata. Essa exigência de vestimenta só foi abandonada por eles em 1965.

Uma multidão diante do cinema em dia de exibição de “As Minas do Rei Salomão” clássico em Technicolor de 1950

No início da década de 1970 o Metro trocaria de dono, sendo negociado para a Cinema International Corporation (CIC) uma empresa do conglomerado estadunidense Paramount. É sob sua administração que o cinema recebe uma ampla reforma sendo dividido em duas salas de exibição, respectivamente Metro 1 e Metro 2.

Mesmo com a decadência dos cinemas de rua da cidade de São Paulo o Cine Metro teve uma vida bem mais duradoura e digna de que muitos de seus concorrentes da avenida São João, que ou encerraram suas atividades ou se transformaram em cinemas de filmes pornográficos, mantendo-se em atividade até fevereiro de 1997. Os dois últimos filmes exibidos foram Coração de Dragão (Metro 1) e Jerry Maguire – A grande virada (Metro 2).

O Cine Metro já com duas salas de exibição, Metro 1 e Metro 2, em 1994

Algum tempo depois de encerrar suas atividades o cinema foi reaberto mas com outra função: a religiosa. Ele passou a ser a sede da Igreja Internacional da Graça de Deus, que fez algumas adaptações no espaço mas manteve parte de suas características de cinema. Os equipamentos de projeção foram substituídos por equipamentos de televisão e transmissão, permitindo que os cultos do pastor R.R.Soares, como o “Show da Fé” pudessem ter exibidos ao vivo, em canais como a TV Bandeirantes.

Se como cinema não resistiu, ao menos temos um espaço histórico de São Paulo que segue em plena atividade. Na rua dos Timbiras fica a antiga saída do cinema, cuja fachada está mais original e preservada que a fachada principal.

Dados técnicos:

Cine Metro
Inauguração: 1938
Capacidade: 1605 espectadores
Endereço: Avenida São João, 791 – República (Centro)
Encerramento: 1997 (como cinema)
Função atual: Igreja evangélica

A fachada do Cine Metro atualmente, convertido em igreja evangélica

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Respostas de 4

  1. o metro era um ícone de SP. qdo criança cheguei a assistir desenho animado na chamada sessão ZÁS-TRÁS no Metro, isso no fim dos anos 70. ótimas lembranças. Parabéns pelo seu trabalho, Douglas.

  2. E era no Cine Metro que nos anos 50, aos domingos pela manhã, era projetada uma programação só de desenhos animados, com filmes de Tom e Jerry.
    Durante alguns anos, o programa de domingo era esse.
    Um domingo por mês, acho que era o 1º, tínhamos o Festival Tom e Jerry, com maior duraação e obviamente mais filmes
    Era maravilhoso e a sala era muito linda, com poltronas de couro marrom e carpetes cor de vinho e desenhos creme, acho que com motivos geométricos.
    Em beleza, só perdia para o Cine Marrocos.

  3. Vocês chegaram a conhecer o Cine Metro que havia no Rio? Também ia assistir a muitos filmes, não só os curtas de Tom e Jerry, mas também, entre outros, Pinocchio (Pinóquio) na releitura de Walt Disney. Teve o mesmo destino do de São Paulo. Era igualmente grandioso e enchia de gente.

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