A casa da Rua Dona Ana

A especulação imobiliária é, depois da violência urbana, o maior tumor da sociedade paulistana. Claro, sou consciente de que esse mal não atinge só a minha cidade, mas a maioria das cidades brasileiras. No entanto meu foco é aqui em São Paulo.

Todos os dias proprietários de casas são assediados de maneira agressiva por representantes de incorporadoras e construtoras para que vendam seus imóveis para que seus lotes junto com de seus vizinhos virem novos empreendimentos. Para isso eles mentem, ameaçam, colocam familiares e vizinhos uns contra os outros, da pior maneira possível. Não se importam com a cidade, com o meio ambiente e com os laços de amizade das pessoas.

A pilha de escombros de várias casas demolidas na praça Dr. Washigton Pelúcio, Vila Mariana (clique para ampliar)

A casa que apresento aqui fica no mesmo bairro da fotografia acima, a Vila Mariana. Aliás, esses escombros são tudo o que restou de alguns dos seus vizinhos, fotografado pela rua dos fundos. São os frutos podres da implacável e incansável especulação que toma conta especialmente esse bairro e outros como Pinheiros, Pompeia etc.

Localizada na rua Dona Ana a casa da fotografia acima é a única sobrevivente deste lado da via. No total, somando os dois lados foram ao todo 30 casas demolidas, somando o pequeno trecho que muda o nome para rua Batovi. A rua, ainda em paralelepípedos, deixa claro que trata-se de uma via antiga, estreita e de pouco trânsito.

Os proprietários dessa casa, que infelizmente não conheço, são verdadeiros guerreiros. Disseram não aos especuladores e mantiveram sua casa preservada, mesmo ciente de que sofreriam horrores durante o período em que os prédios vizinhos estivessem em fase de construção. Como a ideia da construtora era, também, comprar essa casa, a alteração dos planos obrigou os responsáveis pelo empreendimento a fazerem um minucioso processo de proteção da residência para evitar danos e, consequentemente, um processo judicial que colocasse a obra em risco de paralização.

Abaixo a imagem de como ficou isolada a casa durante a fase das obras:

A casa vista pelo terreno onde sairiam os novos edifícios (crédito: @moguir/via X)

Felizmente os novos edifícios não irão tomar o sol desta casa, pois não há prédios no fundo para complementar o isolamento da casa com um “emparedamento”, ao menos não por enquanto. Contudo serão erguidas torres do outro lado da calçada da rua desta residência e ai, talvez, a casa perca um pouco da luminosidade.

A resistência dos proprietários é um alento nessa busca insana por terrenos com potencial construtivo na cidade de São Paulo. Que sirva de gatilho e estímulo para encorajar outros proprietários a fazerem o mesmo. Abaixo, vídeo de reportagem da TV Record mostrando o movimento de moradores de outro canto da Vila Mariana lutando pela preservação de suas antigas casas, de onde foram despejados.

CHEGA DE PRÉDIOS!

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Respostas de 7

  1. Parabéns pelo post com a matéria de telejornal inclusa, Douglas! Precisamos de outras mais para despertar a consciência de preservação.

  2. Lamentável, e sei que é difícil resistir e que frequentemente os proprietários resistentes são penalizados com as obras e depois a falta de sol. O prédio onde vivo, construção dos anos 50, vem sendo assediado e as belas casas dos arredores foram demolidas e as torres estão tirando nosso sol e tornando o bairro insuportável devido o perfil dos novos moradores e excesso de veículos em circulação.

  3. Não entendi uma coisa: as pessoas da reportagem televisiva foram despejadas?
    De acordo com essa matéria(da tv), elas estão lutando pela preservação de casas históricas da Vila Mariana, para que não sejam demolidas mas sim mantidas, no máximo restauradas, para que abriguem centros culturais e coisas do tipo. Não se falou em despejo.

    1. Não se falou em despejo porque elas já foram despejadas. Não cumpriram nem o término dos contratos de aluguéis vigentes.
      No nosso Instagram tem dois ótimos vídeos sobre esse caso, dá uma olhada.

  4. A rua Dona Ana era linda, mas a tempos muitas das casas haviam virado pensões cheias de quartinhos por dentro, assim como outras da região por exemplo Neto de Araújo, Joaquim Távora e tantas outras.

  5. Morei na Rua Dona Ana de 1981 até 2016, mas meus pais continuaram morando até a casa ser vendida e demolida em março de 2025. Foi muito triste saber que o lugar onde nasci e cresci foi totalmente destruído. Desde então nunca mais retornei para ver como tudo ficou. Agora só me restam algumas fotos e boas lembranças para recordar dos bons tempos dessa rua de paralelepípedos.

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