Aqui nasceu a mais longeva escola de samba de São Paulo

A Liberdade é um bairro da região central da capital paulista que há décadas recebe dois tratamentos completamente distintos por parte da prefeitura. Onde existe a forte presença da comunidade oriental, temos presença do poder público, ruas limpas, segurança, etc. Porém, acabou a última luminária, caminhando para a baixada do Glicério é como se virasse outra área, com lixo, violência e descaso.

Não por acaso a área que sofre discriminação é justamente onde há forte presença da população negra. E é justamente nessa parte da Liberdade que a manifestação artística e cultural brasileira mais brilhou, com o surgimento da primeira escola de samba paulistana. E foi dentro de uma casa:

clique na foto para ampliar

Construída em 1912 essa casa localizada no número 955 da rua da Glória não à toa tem uma placa do programa “Memória Paulistana” que é ofertada pela Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SMC). Afinal foi nesse local que Deolinda Madre (*1909 +1995), mais conhecida como Madrinha Eunice, fundou a Sociedade Beneficente Esportiva da Escola de Samba Lavapés.

A escola surgiu após Madrinha Eunice, ainda bem jovem, ter visto outras manifestações festivas no Rio de Janeiro (RJ) e no bairro paulistano do Brás e sentido que ali poderia ser feito algo parecido. As manifestações religiosas em Pirapora do Bom Jesus (SP) também a influenciaram. Assim, em 1937, reunindo amigos e familiares nesta casa da Liberdade era criada a Escola de Samba Lavapés.

Escultura de Madrinha Eunice na Praça da Liberdade (Crédito: J.Cornelius)

A escola fundada por Madrinha Eunice foi peça fundamental na profissionalização e oficialização do carnaval de São Paulo, ao contribuir para a união de todas as escolas de samba da cidade. Entre outras contribuições relevantes da escola, destaque para a criação da primeira comissão de frente feminina paulistana.

Lavapés segue ativa até os dias de hoje, sendo que em 2019 teve uma pequena adição ao seu nome pelo seu novo presidente, o ator Aílton Graça, passando a ser chamada de Lavapés Pirata Negro. Os ensaios da escola atualmente são realizados no bairro do Jabaquara.

A CASA:

No frontão o ano de sua construção: 1912 (clique para ampliar)

Com mais de um século de existência a casa já teve alternância entre momentos melhores e piores que o atual. O estado de conservação é satisfatório mas requer cuidados, como uma nova pintura que valorize a fachada e destaque o frontão, onde se encontra as iniciais de seu primeiro morador, MP, bem como o ano da sua construção. Infelizmente ambos estão parcialmente danificados, mas ainda sendo possível a recuperação.

Sendo tombada como patrimônio histórico municipal pelo Conpresp a casa merecia melhor atenção e cuidados por parte da prefeitura de São Paulo. Mesmo sendo um bem particular, a casa tem relevante importância para a história do samba, da cultura negra e do próprio município e deveria ter ao menos uma recuperação da fachada custeados pelo poder público.

Afinal o tombamento encarece reformas e manutenções e seus proprietários podem não ter condições financeiras para tal empreitada. Vemos o emprego de verba pública em tantas coisas desnecessárias mas o que precisa ser feito não é realizado. Será que se a casa estivesse na parte “bairro oriental” da Liberdade a conversa seria outra? É possível.

Compartilhe este texto em suas redes sociais:
X
WhatsApp
Facebook
Telegram
Threads

Respostas de 4

  1. Douglas, as memórias de patrimônios em grande parte, são sempre tratadas com descaso!
    Falta apenas uma pequena revitalização da fachada.

  2. Cá com os meus botões: o fato de a “parte oriental” do bairro ter mais atenção, mais segurança, etc, isso não teria a ver com os próprios moradores e/ou comerciantes locais? Por exemplo: se ainda existem as luminárias típicas pelo bairro, isso quer dizer que, geração após geração, elas sofrem manutenção, zelo, dos mesmos habituais. Aliás, quem decidiu isso, que o bairro da Liberdade teria essas características? Não teriam sido os próprios primeiros habitantes de origem oriental? Não sei. É uma pergunta.
    Sou leigo, mas não acredito que a prefeitura invista recursos num bairro dividido. Acho eu que tem muito mais a ver com a união das colônias mesmo, para que a chama não se apague, sabe? Tudo bem, tem a parte municipal, a parte da chamada sub- prefeitura, mas…que tem um peso(leia-se zelo) considerável dos japoneses, coreanos e chineses, eu acredito que sim.
    A “outra parte” do bairro. a parte “pobre”, para me fazer entender, carece dessa união. E isso faz toda a diferença.

  3. Parabéns pelo empenho em preservar a memória desta grande cidade, infelizmente abandonada pelo poder público e massacrada pela especulação imobiliária!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Siga nossas redes sociais:
pesquise em nosso site:
Newsletter - São PAULO ANTIGA
Leia no seu e-mail

Digite seu de e-mail para assinar este site e receber notificações de novas publicações na sua caixa postal.

Junte-se a 2.451 outros assinantes
ouça a nossa playlist:
Substack - O Amigo da Cidade