A história do Relógio de Níchile

Há um século saber as horas no momento exato de necessidade, não era lá algo tão simples de se fazer. Relógios de pulso eram artigos raros e os de bolso, majoritariamente importados, eram caros. Restava assim os relógios nas casas e os construídos em torres de igrejas, edifícios e estações ferroviárias como a Luz. Essa história iria mudar completamente em São Paulo com a ideia de um visionário paulistano: Octávio de Níchile.

Acima Octávio de Níchile e um de seus relógios, este na Praça Antônio Prado centro da capital paulista

Foi em outubro de 1930 que Níchile anunciou à imprensa paulistana sua grande invenção: a criação de relógios públicos, sem custo ao erário municipal, instalados em diversas localidades estratégicas da cidade tais como praças, largos, estações ferroviárias e locais de grande movimento de pessoas. O recurso para tornar esses relógios viáveis viria da arrecadação dos anúncios publicitários veiculados no próprio instrumento.

O projeto desenvolvido pelo próprio empresário era simples e genial. Tratava-se de uma base trapezoidal em cimento armado, revestida com azulejos, que por sua vez sustentava uma grande coluna de ferro fundido trabalhado que em seu topo ostentaria um relógio de face dupla, sendo estes iluminados com luz elétrica para que pudessem ser vistos à noite. Os relógios seriam mantidos pelos anúncios instalados em diversas partes do monumento e administrados pela empresa Eco Ltda do próprio Octávio de Níchile e seu sócio Raphael Perrone.

A iniciativa agradou imediatamente a gregos e troianos. A prefeitura não teria custos com a construção do relógio ou mesmo com sua manutenção e a população teria um novo instrumento para se manter informada das horas. Então rapidamente iniciou-se a construção de uma série deles, sendo dois deles inaugurados já em 1930 respectivamente no Largo do Arouche e na Estação Roosevelt (atual Brás).

Acima os dois primeiros relógios instalados, respectivamente na Estação Roosevelt (atual Brás) e no Largo do Arouche

A rápida aceitação pela opinião pública estimulou o empresário a planejar a instalação de novos relógios espalhados em outros pontos vitais de São Paulo e até em outras cidades. Foram inaugurados posteriormente outros cinco entre 1933 e 1936, nas seguintes localidades:

LOCALDATA DE INAUGURAÇÃO
Praça Ramos de Azevedo23/12/1933
Praça da Sé24/01/1935
Praça Antônio Prado05/04/1935
Santos (SP) Gonzaga09/07/1936
Guarujá (SP) PitangueirasPosterior a 1935, data não disponível

Contudo, por diversos motivos, parte dos relógios não tiveram uma longa existência. O primeiro a ser demolido, em 1933, foi justamente o primeiro a ser inaugurado, no Largo do Arouche. A razão ali foi uma transformação urbanística que deu ao charmoso largo paulistano a concepção urbanística que se mantém até os dias atuais.

Posteriormente foram demolidos o da avenida Rangel Pestana (Estação Roosevelt) igualmente em 1933 e o de Santos, em 1940. Os demais desaparecidos: Sé, Praça Ramos e Pitangueiras não possuem registros de data de suas respectivas demolições.

Praça da Sé em meados da década de 1940, destaque para o relógio na parte inferior da foto (clique para ampliar)

O SOBREVIVENTE:

Felizmente de todos instalados pelo menos um sobreviveu: trata-se do relógio instalado na Praça Antônio Prado, na região central de São Paulo, talvez por ser justamente o mais bem localizado de todos eles, junto de diversos pontos históricos e turísticos da capital paulista, como os edifícios Altino Arantes e Martinelli.

O relógio da Praça Antônio Prado, o sobrevivente (clique para ampliar)

Inaugurado em abril de 1935 na gestão do então prefeito Fábio Prado, o relógio completou 90 anos em 2025 mas carece de maiores cuidados. Nos últimos 15 anos o que se viu nele foi uma rápida deterioração e o furto de partes, como a placa de inauguração que ficava na base da coluna. Apesar de estar em uma área pública ele é particular, pois pertence ainda aos descendentes de seu idealizador.

Após a aplicação da Lei Cidade Limpa, que é bastante benéfica à São Paulo, os anunciantes foram afugentados, com receio de que colocar suas publicidades no espaço poderia acarretar em multas. Entretanto na época da aplicação da lei a própria prefeitura deixou claro que a regra não se aplicava aos espaços publicitários do relógio, mas talvez não tenha sido bem divulgado. Atualmente o relógio encontra-se em estado razoável de conservação, mas com seus mecanismos desligados.

O QUE FAZER PARA RECUPERAR O RELÓGIO?

A Praça Antônio Prado onde se encontra o último relógio público de Níchile (clique para ampliar)

Hoje em dia, mais que um relógio, o Níchile é um monumento e patrimônio histórico de São Paulo. Resquício de um passado da cidade que quase desapareceu por completo. A prefeitura, especialmente a atual gestão, que diz estar recuperando o centro, precisa de uma vez por todas tomar alguma atitude concreta em prol de sua preservação.

Eu vejo dois caminhos possíveis: o primeiro a desapropriação do relógio com justa indenização aos seus proprietários e em seguida abrir uma concorrência pública para alguma empresa o administrar, utilizando os espaços disponíveis para publicidade para expor propagandas suas ou de terceiros. O segundo, liberar uma verba ou emenda parlamentar aos proprietários para que possam zelar melhor pelo espaço, prestando contas ao município.

Por fim lamentável ver tantas empresas grandes no entorno do Relógio de Níchile que não são capazes de colaborar com a manutenção deste espaço, como o Banco Santander, Banco do Brasil e a B3. Abaixo, vídeo que gravei sobre o relógio:

Bibliografia consultada:

* A Gazeta – edição de 13 de outubro de 1930
* A Gazeta – edição de 25 de dezembro de 1933
* Correio Paulistano – edição de 1 de outubro de 1930
* Correio de S.Paulo – edição de 18 de abril de 1934
* A Tribuna – edição de 1 de fevereiro de 1936
* O Estado de S.Paulo – edição de 5 de outubro de 1930

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Respostas de 3

  1. Gostei esta publicação com muitos novos conhecimentos. Vivi no Brasil (especialmente cidade de São Paulo) desde novembro 1959 a agosto de 1982. Mas nunca esquecer a ciade maravilhosa que vivi minha juventude, trabalhei desde novembro de 1959 a 1982, onde estudei, casei e temos 3 filhas nipo-brasileira.

  2. Quer dizer que a idéia de instalar relógios em pontos estratégicos da cidade surgiu em fins de 1930 e, em cerca de 3 anos, o primeiro relógio instalado já havia sido removido? E outros mais seguiram o mesmo destino? É inacreditável!
    A justificativa de que eles(os relógios) atrapalhavam uma possível melhora urbanística não se sustenta. Em tão pouco tempo, os urbanistas da prefeitura chegaram à conclusão de que os belos e eficazes marcadores de hora atrapalhavam o progresso? É no mínimo estranho, não acham? Ainda se fosse apenas um, mas todos? Patético! Aposto como teve gente que acreditou.
    E nas imagens antigas da cidade aparecem logradouros bem limpos, como na estação do Brás. Que beleza!
    A Lei Cidade Limpa deveria ser para isso: a limpeza e conservação de calçadas e sarjetas, assim como monumentos públicos, como estátuas e praças também. Coibir propagandas, a meu ver, não confere uma cidade aprazível. É a minha opinião.

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