O ano de 2021 começou com uma notícia triste especialmente para os amantes da fabricante de veículos Ford. A empresa estadunidense anunciou em 11 de janeiro que irá encerrar suas atividades produtivas no Brasil.

O fato não é desagradável apenas para os fãs da marca, pois com o fechamento das fábricas brasileiras e mudanças nas operações da América Latina, cerca de 5000 pessoas serão demitidas tanto em nosso país quanto na vizinha Argentina.

O curioso é que a Ford não faz muito tempo completou um século de atividades no Brasil, cujas operações se iniciaram já no distante ano de 1919 em um pequeno armazém industrial do centro de São Paulo, no bairro de Santa Ifigênia.

Em uma cidade que constantemente derruba suas construções para erguer novas, será que este imóvel ainda existe ? A resposta felizmente é: SIM.

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Localizado no número 452 da Rua Florêncio de Abreu esta construção da fotografia acima abrigou a primeira unidade de montagem da Ford no Brasil. No galpão de dois andares montavam-se os carros Ford Modelo T e caminhões Ford Modelo TT que vinham desmontados para o país.

A Ford vinha de encontro a sua famosa concorrente estadunidense General Motors, que por aqui era conhecida à época como “Cia. Geral de Motores do Brasil” e sua aterrisagem em solo paulistano logo fez a marca a vender ainda mais veículos por aqui, tornando rapidamente o edifício da Rua Florêncio de Abreu pequeno para as aspirações da empresa no país.

O mesmo local nos anos 1950 quando ali funcionava uma importadora (Crédito: Divulgação)

Isso fez com que pouco tempo depois, em 1920, já totalmente formalizada no país a Ford transferisse suas operações para o bairro vizinho do Bom Retiro em instalações grandiosas localizadas na Rua Sólon. Lá permaneceria por décadas até mudar-se em 1953 para a Vila Prudente, área que aliás já foi demolida anos atrás para a construção do atual Mooca Plaza Shopping.

Nós já contamos aqui no São Paulo Antiga a história da fábrica da Ford no Bom Retiro. Ficou curioso? Clique aqui para ler!

Voltando ao edifício da Rua Florêncio de Abreu, podemos notar que ele sofreu profundas transformações desde que passou a abrigar o popular Shopping 25 de Março.

Na verdade ele é apenas parte do total de edificações que abrigam este conhecido centro comercial. Paredes foram derrubadas e imóveis vizinhos unificados, sendo que hoje podemos dizer que ai na antiga Ford é, na verdade, o fundo do tal shopping.

Detalhe da fachada (clique para ampliar)

Na parte exterior foram feitas algumas alterações bem visíveis, como as portas de entrada substituídas por outras mais modernas e na parte superior da fachada é possível notar que o telhado subiu, sendo construída uma parede entre o frontispício original e sua forma atual. A fachada, pelo menos, foi preservada e podemos observar os belos “Leões de São Marcos” que estão ladeando o antigo brasão há muito tempo apagado.

CURIOSIDADE:

Em 1924 a Ford do Brasil foi uma das grandes expositoras da Exposição de Automobilismo daquele ano, que ocorreu no Palácio das Indústrias o então grande centro de exposições da capital paulista.

A imagem abaixo divulgada pela Ford é um exemplo de imagem que não envelheceu bem, e mostra como o racismo sempre esteve presente, mesmo que indiretamente, em nossa sociedade.

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Na foto vemos um homem branco de paletó e gravata conduzindo um trator Fordson representando o progresso, puxando um carro de bois com um homem negro em pé, vestido de maneira simples e segurando uma placa com os dizeres “a ironia do progresso”. Esse trator circulou assim mesmo várias vezes por São Paulo divulgando a exposição, entre o final de setembro e o início de outubro.

Ironicamente ou não, hoje a Ford deixa de produzir no Brasil.

Sobre o autor

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, é presidente do Instituto São Paulo Antiga e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP).

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Comentarios

  • Marcelo 11/01/2021 at 22:49

    Espero que o imóvel não seja demolido.

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  • Ana Cândida Becker 12/01/2021 at 09:44

    Parabéns (e obrigada) pelo artigo. Saúdo a saída da Ford como símbolo do processo e do pensamento da queima de combustíveis fósseis ou do motor à explosão, mesmo que por queima de álcool e(dada a monocultura advinda da sua produção. Os salões do automóvel serão mais tarde importantes incentivadores do design brasileiro com concursos nos quais nomes como do Eng. Eduardo da Silva Magalhães surgiu.O inesquecível Gurgel tentou por décadas apoio para desenvolver o carro elétrico.
    Mas infelizmente o fato é de grande preocupação.
    A desindustrialização do País e divórcio com a Verdade (aquela verdade filosófica milenar que o homem criou como ciência E como religião) formam um cenário que precisa ser rapidamente combatido interna e externamente. No âmbito nacional a retomada da Lei de Direito à Informação, além de estrito respeito à de Direitos Humanos e no Internacional o debate das duas instâncias, somada às iniciativas voltadas à preservação do planeta.
    A Ford, neste sentido, não cabe mais aqui.

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  • Mauricicio Moura 12/01/2021 at 10:10

    Sempre excelentes suas postagens Douglas, Parabéns!

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  • Antonio Costa 12/01/2021 at 11:01

    Douglas, voce sabe se ha acao de tombamento na Florencio de Abreu? A rua tem potencial se permancer como esta.

    Grato

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  • dalva maria ferreira 12/01/2021 at 11:38

    Pois é, Douglas… o mundo vai se desmantelando diante dos nossos olhos. Sorte que ainda fica pelo menos o registro digital de toda essa história. Feliz 2021, para quem sobreviver incólume…

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  • luciogomesmachado 12/01/2021 at 12:13

    Ótimo!

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  • Ricardo Fernandes 21/01/2021 at 18:32

    Meu pai trabalhava na Willians que mais tarde passou a ser Ford. Meu primeiro carro foi um Ford comprado na Sonervig, concessionária Ford fundada em 1929. Pena ter vendido o carro junto com o manual. Só sobrou lembranças do conforto dos carros da Ford.

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