A história do “Prédio das moedas”

Caminhar pelo centro de São Paulo com um olhar dedicado aos detalhes das construções é algo fascinante e muitas vezes mesmo que os detalhes sejam grandes, nem sempre prestamos a devida atenção neles.

Um caso interessante é o prédio que fica na Rua João Bricola, 59 quase esquina com Rua Boa Vista de onde se tem uma visão privilegiada da fachada que chama a atenção por ter treze enormes reproduções de antigas moedas que circularam no Brasil em diferentes momentos.

Foto: Douglas Nascimento (clique para ampliar)

Quem teria tido a ideia de colocar a reprodução das moedas na fachada? Será que a ordem em que estão colocadas é a original? Nos parece que não, mas além deste aspecto visual, que outras histórias guardariam esta construção? Muito mais do que podemos imaginar.

O sistema bancário brasileiro no decorrer do tempo foi se transformando não só por conta da sequência de crises pelo qual passamos, mas também por conta de sucessivas fusões e aquisições entre bancos que resultaram nesta concentração que vemos hoje, porém as “fintechs” vieram para desafiar os monstros do sistema bancário nacional. O mundo gira…

Voltando no tempo, funcionava naquele endereço a sede de uma empresa de venda de tecidos, comércio forte no passado (vide artigo sobre o Palacete Barros), a “Tecidos J. Rodrigues S/A”. Posteriormente esta empresa se mudou para a Rua João Adolfo, 67 e não sabemos se sobreviveu por muito tempo após a morte de seu proprietário em 1954.

 O fato é que naquele endereço iniciou-se a construção de um edifício que serviria como matriz do Banco Itaú. Mas será o mesmo Itaú que conhecemos hoje? Será que estamos falando do mesmo banco Itaú controlado pelas famílias Villela e Setúbal? 

Voltando ao prédio, num sábado 25 de fevereiro de 1956 dá-se a inauguração, noticiada na edição de domingo do Estadão, informando ter sido inaugurada a nova sede do Banco Itaú S/A com a presença de diretores da instituição, do então secretário da fazenda, Carvalho Pinto e do Cardeal arcebispo metropolitano de São Paulo d. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota que além de presidir a cerimônia cortou a fita inaugural.  Naquele momento o Banco Itaú era controlado pelas famílias Balbino de Siqueira e Meirelles e o seu presidente era José Balbino de Siqueira. Estava oficialmente inaugurado o “Edifício Banco Itaú”.

Fonte: Acervo / Estadão

O banco que possuía por volta de seis agências em São Paulo e outras poucas unidades pelo país não ocupava todo o prédio uma vez que ainda em 1958 anunciava que estava disponível para ser alugado o 10º. andar com 468 metros quadrados de área.

Em 1964 o país passou por uma grande reformulação em seu sistema bancário inclusive com a criação do Banco Central e é neste momento que o Banco Itaú se une ao Banco Federal, este sim controlado pelas famílias Villela e Setúbal e como resultado desta união passou a se chamar Banco Federal Itaú. Daí por diante outras operações foram sendo realizadas como a compra do Banco Sul Americano (1966).

A cada incorporação o nome do banco ia ficando maior sendo que em 1967 sua denominação era Banco Federal Itaú Sul Americano S/A, mas esta prática se tornaria inviável em termos de marketing se a cada nova fusão ou aquisição a razão social fosse incorporando um novo nome. Depois da aquisição do Banco da América (1969) passou a se chamar Banco Itaú América para então depois se tornar simplesmente Banco Itaú como conhecemos hoje (vale lembrar que mais recentemente com a fusão com o Unibanco, oficialmente o banco se chama Banco Itaú Unibanco).

Já em 1967 a sede do Banco Itaú se muda para novas instalações na Rua Boa Vista,176 num novo edifício que sofreu um incêndio, com vítimas, em 19 de abril quando parte do banco já estava funcionando lá apesar do prédio não estar oficialmente inaugurado.

Mas o que seria então do edifício da Rua João Brícola? Segundo relato oral, mas de boa fonte, a diretoria do Banco Mercantil de São Paulo estava procurando um local para instalar o que seria sua “Agência Central” e estava de olho na loja do térreo onde funcionou a original agência do Banco Itaú. Neste momento, 1969, o prédio pertencia ao empresário J.J. Abdala e com ele foi fechada a locação da loja e das sobrelojas quando então o Banco Mercantil de São Paulo manteve naquele endereço sua agência central até a conclusão do Edifício Mercantil-Finasa na Rua Líbero Badaró, 393 para onde se mudaram em fevereiro de 1978.

Em 1970 o local era ocupado pelo Banco Mercantil

Mais uma vez ficava vazio o prédio, porém mais um banco lá se instalaria, desta vez o Banco Savena, banco de propriedade de Antônio Luiz Lang que entre outros negócios era o dono da revenda Volkswagen Savena. Tendo comprado em 1980 o Banco Expansão e mudado seu nome para Banco Savena, o mesmo teve vida curta, pois já em 1983 sua rede de agências foi vendida para o Bradesco que finalmente comprou o banco em 1984.

Anúncio do Banco Savena em 1982

Daí para frente o imóvel conheceu a decadência e esvaziamento pelo qual passou o centro de São Paulo abrigando as mais diversas e nem tão relevantes atividades, porém estamos vendo este quadro mudar uma vez que a Bolsa de Valores – B3 está fazendo uma grande reforma no imóvel e deveremos ter – esperamos – boas surpresas em breve.

É importante salientar também que o prédio é tombado como patrimônio histórico da Cidade de São Paulo.

CURIOSIDADES:

1 – Um prédio bonito atrai os olhares até mesmo quando se encontrava em situação de abandono. Tanto é que o edifício quando estava em seu pior momento serviu de cenário para a gravação da série brasileira 3%, disponível na Netflix. A imagem abaixo foi extraída de um dos episódios e mostra o seu saguão:

Reprodução Netflix (clique na foto para ampliar)

2 – As moedas dispostas na fachada representam vários períodos da história monetárias brasileira com um total de 13 reproduções. Entretanto, embora não seja possível afirmar que em algum momento essas moedas mudaram de posição ao longo destes 65 anos, a ordem de algumas delas não estão dispostas de forma 100% correta, ou seja, respectivamente em suas caras e coroas.

Abaixo fizemos uma representação de como as faces das moedas se ligam entre si em ordem e logo abaixo suas explicações:

DESCRITIVO DAS MOEDAS:

A – 100 Réis (verso) níquel (1871-1875), 200 Réis (verso) níquel (1871-1874) e níquel (anverso de ambas / Brasão do Império)
B – 2000 Réis (anverso / D.Pedro II) prata (1886-1889) e seu respectivo verso
C – 300 Réis (anverso / Carlos Gomes) cupro-níquel (1936-1938) e seu respectivo verso
D – 2000 Réis (anverso / Duque de Caxias) bronze e alumínio (1936-1938) e seu respectivo verso
E – 400 Réis (anverso / Figura da República) cupro-níquel (1918-1935) e seu respectivo verso
F – 20 centavos (anverso / Rui Barbosa) bronze e alumínio (1948-1956) e seu respectivo verso

Bibliografia consultada:

* O Estado de S. Paulo – Edições de 11/5/1947, 29/6/1947, 13/11/1949, 26/2/1956, 11/12/1956, 14/6/1957, 15/3/1958, 9/2/1978, 4/5/1982 e 28/11/1984
* Correio Paulistano – Edição de 11/12/1956
* Catálogo de bolso de moedas do Brasil – Império e República – Arnaldo Russo, São Paulo, 1984
* História das instituições financeiras – Série “Pesquisa e divulgação” Vol. 1 – Estrela Alfa Ed., São Paulo, 1972
* A história dos Bancos no Brasil – Alexis C. T. de Sique – COP Editora Ltda., Rio de Janeiro, RJ, 2007

Compartilhe este texto em suas redes sociais:
Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no twitter
Twitter
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no linkedin
LinkedIn
Siga nossas redes sociais:
pesquise em nosso site:
ouça a nossa playlist:

9 respostas

  1. Correto, a Bolsa de Valores – B3 adquiriu o edificio.

    Tem um lindo Saguao Social ou Lobby com andar mezanino cercando a entrada , tal como um Foyer. O candelabro original ainda la se encontrava. \

    Nao entendi a aquisicao da BOVESPA, afinal o pregao sequer existe.

    Na minha opiniao, seria um perfeito hotel boutique.

    Mas se a B3 pagou e levou, por boa coisa sera.

  2. Legal essa história. Trabalhei em frente quando da criação da BM&F. Nessa época estava vazio. Bom saber que está sendo reformado. Bela matéria.

  3. Aqui em Brasília, quando fizeram a filial do Mercado Municipal de São Paulo, cuja existência foi efêmera, puseram na entrada da W2 Sul a porta de entrada do antigo Banco Auxiliar de Sao Paulo, que também contém moedas gigantes ornamentais.

  4. Sou numismata desde os meus 13 anos e já tinha percebido essa disposição das moedas, mas creio que elas foram colocadas de uma forma um tanto que desordenada de forma proposital.
    Não longe dali, também há moedas no prédio da CEF na Praça da Sé.
    Saudades quando eu e meu irmão fazíamos passeios nos idos de 1988 no centro velho de São Paulo

  5. Quando eu era criança, costumava passear com meu pai e irmãos pelo centro da cidade e lembro de ficarmos fascinados com essas moedas gigantes.Eu acho até que outros prédios por ali tinham moedas semelhantes, não só esse. Ou será que não?

  6. Olá Douglas! Se recordar é viver, te agradeço por mais esse momento de vida que me trouxe muita alegria e ainda traz excelentes recordações. Trabalhei neste local, no então Banco Mercantil de São Paulo. Foi meu primeiro emprego, eu ainda era estudante do Curso de Magistério e só dispunha de “meio período”, para trabalhar. Surgiu esta oportunidade através de uma amiga que também trabalhava no Banco Mercantil. Fiquei por três anos, até terminar o Magistério. Foi um período de muita aprendizagem e de encantamento por frequentar o “centro da cidade”, que sempre me encantou. Grande abraço e obrigada por mais essa linda matéria!

  7. Eu já visitei esse prédio há muitos anos atrás, no subsolo tinha um cofre com uma porta bem pesada e espessa. Foi encantadora a visita.

Deixe um comentário!