A história do Parque D. Pedro II e sua triste transformação

Posso imaginar um desavisado turista visitando São Paulo que, curioso em conhecer os parques da cidade, entre num ônibus cujo destino seja o Parque D. Pedro II. Ao desembarcar no tal “parque” o turista ficaria realmente desorientado, afinal de contas, de parque só sobrou o nome…

É incrível como, com o passar do tempo, aquele que era um belo parque, retratado exaustivamente e mostrado como um orgulho da cidade foi se transformando em estacionamento de automóveis e finalmente num terminal de ônibus que foi se “sofisticando” a ponto de ser hoje um importante centro irradiador de diversas linhas de ônibus da cidade.

Na foto o Parque D. Pedro nos anos 1970 – Imenso terminal de linhas ônibus

A região era conhecida como a Várzea do Carmo e por estar periodicamente alagada pelas águas do tortuoso Rio Piratininga, que depois teve seu nome mudado para Rio Tamanduateí, não deixava de ser uma incômoda limitação para o crescimento da cidade para o leste. Já no início do século XIX “… um certo engenheiro Florêncio Moreira elaborou um projeto para sua retificação.”.

Lavadeira trabalhando na Várzea do Carmo em 1910 (Foto: Vincenzo Pastore)

Com as lavadeiras disputando um melhor lugar para lavar as roupas, o antigo mercado construído em 1867, a área passou pela primeira intervenção urbanística em 1872 por determinação do presidente da província, João Teodoro quando substituiu os terrenos “…paludosos e miasmáticos… por um dos passeios mais aprazíveis e saudáveis, a Ilha dos Amores….”. De fato, parte foi aterrada e ajardinada criando-se a tal “Ilha dos Amores”, primeira área de lazer do local onde seria o futuro parque. Jorge Americano também descreve que “… ajardina-se a Várzea do Carmo, com um lago artificial no Rio Tamanduateí, o qual vai depositando lôdo, até transformar o lago num capinzal…”.

Já no século XX, com a cidade, sob administração do prefeito Raymundo da Silva Duprat, em 15 de maio de 1911, o arquiteto francês Joseph-Antoine Bouvard (diretor honorário dos serviços de arquitetura e dos passeios de viação e plano de Paris) sugere a criação de dois grandes parques, um no Vale do Anhangabaú e outro na Várzea do Carmo. Havia inclusive a sugestão da criação de um  loteamento no entorno para uma vez vendidos os lotes, a receita auferida patrocinasse a construção do parque.

O plano de Bouvard foi desenvolvido e executado por outro arquiteto francês, desta vez o franco-suíço Francisque Couchet. Em 1921 foram concluídas as obras de canalização do rio, organizadas suas adjacências e, em 1922, por ocasião do centenário da independência, o futuro parque foi denominado como “D. Pedro II”. Finalmente o parque foi concluído em 1925.

Bondes trafegando sobre ponte acima do Tamanduateí final da década de 1910.

O parque chegou a ser descrito como “…O parque central mais lindo é o Dom Pedro II, que separa da city os bairros industriais…”.

Vários monumentos ornavam o parque. Com as tristes transformações pelo que passou o parque, estes monumentos foram sendo espalhados pela cidade, que aliás tem esta característica de ter seus monumentos sempre “passeando” de um lado para outro.

Nas imediações ou dentro do parque ainda tínhamos um antigo seminário, depois hospício e finalmente transformado em quartel e que hoje encontra-se abandonado, o parque de diversões Shangai, o edifício Guarany (Rino Levi), os famosos edifícios “treme-treme” São Vito e Mercúrio (hoje demolidos), a estação D. Pedro II do Metrô, além do Palácio das Indústrias (cuja primeira pedra foi colocada em 1910 por iniciativa do Dr. Pádua Salles, então secretário da Agricultura). O parque também foi palco, em 1937, da grande exposição que celebrou os 50 anos da primeira imigração oficial em São Paulo.

Palácio das Indústrias e Parque D.Pedro II na segunda metade da década de 1920

Nas comemorações do IV Centenário de São Paulo, em 1954, um guia descrevia o parque como sendo um dos maiores da cidade com 450 mil metros quadrados com múltiplas espécies que são de uma beleza indescritível. “… Caprichosamente ornamentado e carinhosamente tratado, é este parque entrecortado de largas avenidas e passeios sinuosos, ligados entre si por artísticas pontes…”

O Parque D. Pedro II nos anos 1950 era um local encantador

A abertura da Avenida do Estado pode ser o marco do início do fim do parque com a consequente construção de viadutos em meados da década de 1960, a criação do terminal de ônibus em 1971 e a construção da estação Pedro II do Metrô. Tristemente as imediações e as invasões pelo próprio poder público foram destruindo o parque.

Ainda em 1962 o “Guia do Estado de São Paulo” elencava os “locais dignos de serem visitados” onde o Parque D. Pedro II é descrito como “… êste grande parque apresenta belas alamedas arborizadas, quiosques, recereio (sic) infantil, Assembléia Legislativa, etc. A ‘shy-line’ da Área Central, dalí é vista em toda a sua grandeza. O Rio Tamanduateí o atravessa, mais ou menos no sentido de Sul para Norte. É ponto onde se costumam instalar circos e parques de diversões. …”

Parque D. Pedro II e seus arredores no início da década de 1970, ainda um lugar atraente apesar das mudanças

Hoje o entorno é no mínimo desanimador de se ver. Restos de alimentos do mercado municipal espalhados pelas ruas, uma sujeira permanente, perigo de abordagens e assaltos, o degradado entorno da avenida do estado, os projetos que nunca se realizam e assim vai. A única luz nesta escuridão é o Museu Catavento que funciona no Palácio das Indústrias.

Mas há de existir uma solução para a ocupação racional daquele espaço que merece ser revitalizado para o bem da cidade.

GALERIA – VEJA MAIS FOTOS DO PARQUE D.PEDRO II (clique para ampliar):

Bibliografia consultada:

Retratos da Velha São Paulo, Geraldo Sesso Jr. – Editora Maltese, 1985
São Paulo Atual 1935-1962, Jorge Americano. Edições Melhoramentos, IX, 1963
São Paulo de Piratininga: de pouso de tropas a metrópole. OEstado de S. Paulo/Editora Terceiro Nome. 2003
História da cidade de São Paulo através de suas ruas, Antônio Rodrigues Porto. Carthago Editorial Ltda., 1996
Lembranças de São Paulo – Vol. I – Gerodetti, João Emílio. Carlos Cornejo & João Emílo Gerodetti. Studio Flash Produções Gráficas, 1999
Guia do Estado de São Paulo. Vol. 1 – A Região da Capital Paulista.Diretório Regional do Conselho Nacional de Geografia no Estado de São Paulo. 1962
Guia de S. Paulo 1954 – Agência Modesto. Editor e Diretor-responsável Modesto de Donato. Ano XXIV – 1954
São Paulo três cidades em um século. Benetido Lima de Toledo. Cosacnaify – Livradria Duas Cidades, 2004

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13 respostas

  1. Entre tantos … o estrago que fizeram no Pque D. Pedro foi um dos que me trazem maior tristeza. E, por mais incrível que pareça, continua piorando.

  2. Tenho lindas lembranças do Parque Dom Pedro, pois ia toda semana com a minha mãe e sentávamos à sombra das árvores para tomar um lanchinho trazido de casa ou comprado no centro da cidade. Saudades…

  3. Eu consegui ver o finalzinho da vida como parque e já bem deteriorado. E acompanhei o longo e interminável processo de deterioração. A região do parque ainda tem muitos detalhes merecedores de restauração. Resta vontade política. Muito boa a matéria e boas fotos.

  4. O Parque real ficou no passado, agora, é um espaço marginalizado, apocalíptico, que nenhum prefeito ou governador se interessa em recuperar. Crime de lesa a cidade.

  5. Quando criança eu brinquei muito no Parque dom Pedro , quando ele era ainda um lugar muito agradável. Dá uma tristeza imensa vê-lo no estado lastimável em que se encontra. Uma sequência horrorosa de prefeitos, um pior que o outro causou essa degração. O paulistano que conhece o Central Park de Nova Yorque e os lindos parques europeus, invariavelmente se pergunta: “Por que não fizeram algo semelhante em nossa cidade? Um local privilegiado, junto ao centro da cidade, cortado por um rio…tinha tudo para dar certo e, no entanto…

  6. Na boa: o Parque Dom Pedro é o lugar mais degradado do centro de São Paulo. Nada se compara a tamanho descaso!
    A cidade de São Paulo, com a fama de ser “a locomotiva do Brasil” ou “cidade que mais cresce no mundo”, entre outros adjetivos, forjou o boom de milhares e milhares de pessoas vindo fixar residência em uma cidade que não tinha condições de acomodar a metade de tal contingente. Ou, antes, de acomodar, sim, mas de qualquer jeito, aos trancos e barrancos, sem o mínimo de lógica, com muitos improvisos. E esse processo continua. Não houve na época, na raiz, no início da coisa toda, o que chamamos de políticas públicas.Em suma: a cidade não estava preparada. E é claro que os diversos desvios dos recursos e arrecadações, que porventura deveriam voltar em benefício da cidade e cidadãos, ao longo das décadas, contribuíram para isso.

  7. Frequentei muitas vezes o Parque Shangai, com a mulher monstro que se transformava em mulher gorila.
    Velho e queirido parque D.Pedro.Abs. a todos do
    Ari Fiadi

  8. Nasci em 1963 e com 2 dias de vida cheguei na rua 25 de Março 171, onde morei até 1971. Ainda tenho na memórias os lírios brancos no parque, depois a remoção dos jardins e a abertura de um enorme estacionamento, que pouco tempo depois virou o terminal de ônibus. Simplesmente uma vergonha nenhuma administração municipal, nos últimos 30 anos, não ter feito coisa alguma nesse espaço que considero o nº 1 de São Paulo, o Parque Dom Pedro II. Apesar dos muitos projetos desenvolvidos durante esse tempo, Enquanto o mundo não acabar, resta a esperança que volte a ser um parque digno.

  9. Entre o poder publico e incorporadores, vc nao tem muitos genios la em cima. Megalomanos sem sensibilidade, digo eu .

    Eu fiz uma compilacao para um cliente, usando este imovel historico como referencia para localizacao de hotel…

    Alias, as copias de fotos foram inspiradas neste video, para quem quiser ver. Mark Wiens vive de comer a volta do Globo ( Ja fez alguns videos no Brasil ), e assistir ele devorando comida da fome, mesmo apos uma refeicao. O tipo e fogo.

    https://youtu.be/JQcG-jBvwzU

    O local referenciado no video…

    Reading Terminal Market -51 N 12th St, Philadelphia, PA 19107, Estados Unidos eu improvisei um enlace de fotos abaixo
    https://photos.app.goo.gl/L5Xp6N6WkiwweRLt5

    Explicando o que se ve ali..

    O Mercado ja existia neste formato desde o final do Seculo XIX. Porem, ao inves de destrui-lo, o que que se viu foi, uma gradual melhoria no entorno. Junto ao Mercado Publico ha um Hotel ( Hilton Garden Inn ), e um Pavilhao de Exposicao e Conferencias. E ha edificios comerciais a volta ( os malditos vitrificados ).

    Qualquer similaridade ao Mercado da Cantareira e mera coincidencia.

    Mesmo com as enchentes do Tamanduatei ( culpe as bocas de lobo, os detritos de esgoto lancados e o fato que os comerciantes do entorno sao uns porcos ), e o fato do Mercado estar localizado em varzea ribeirinha. O problema e que transformaram o comercio do entorno numa tamanha mixordia, que nao ha como encorajar um desenvolvimento capitalizando na estrutura arquitetonica existente. Assim mesmo, eles conseguiram, com as reformas do Mercadao, atrair uns turistas, entre Brasileiros e Estrangeiros, a comer um sanduba de mortadela inflacionada, e achar aquilo iguaria ( qualquer padoca paulistana o faz tao bom e por bem menos ). Ou seja, mesmo sem fazer forca, o local e uma autentica “tourist trap” ( armadilha de turista ).

    Pior, vao jogar o Centro de convencoes no Anhembi, um lugar sem graca ou expressao alguma ( bom pelo menos la sobra estacionamento ). Assim mesmo, um pavilhao menor, ali no entorno, seria de bom alvitre.

    Areas ribeirinhas, tem que haver vegetacao, ainda que mato. A vegetacao, conjugada aos raios ultra violeta, purifica aguas, e age como esponja evitando-se assim, enchentes. Portanto ali tinha que ter brejo. Mas vai convencer o burocrata e impresario caboclo do que e certo ou errado. Perda de tempo.

  10. O Palácio das Indústrias, que é agora a Estação Cultural Catavento, é uma bela casa em estilo florentino com toques de castelo, mas sempre me vem à lembrança uma maldita situação que passei por lá em 1982, quando fui pela primeira vez fazer minha carteira de identidade, assim como meus irmãos (tenho uma irmã e um irmão); houve um cara chamado Washington que implicou com as nossas assinaturas e meu irmão, à época alfabetizado em com 6 anos de idade, chegou a chorar diante do tom autoritário e intolerante do sujeito citado. Ainda bem que hoje está com um destino apropriado: uma construção histórica voltada à causa cultural.

  11. Muito boa e oportuna matéria !!!
    Eu diria ao prefeito: aja !!! Ainda há tempo de salvar o que resta. Se não for pela preservação do patrimônio, que seja pelo respeito aos que nos antecederam. É um crime saber como está hoje o parque e nada fazer !!!
    A primeira vez que fui ao Parque Dom Pedro foi em julho de 1964 (há 57 anos !!!) e lá voltei várias vezes. Consegui acompanhar parte de sua degradação irresponsável e incompreensível , mas me mudei para Brasília, onde estou até hoje, em 1974, e perdi o contato. Confesso minha decepção ao constatar como nossos representantes políticos agem, e nossa tristeza fica maior ainda quando comparamos com o que já vimos em vários outros países: uma grande preocupação na preservação do patrimônio público !!!

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